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THE_CLUST3R: LUZES DE NATAL (CAP. 08)

Com o casamento se aproximando, a festa que antecedia a cerimônia começava a ser preparada. Era uma festa onde os noivos se reuniam com a família e amigos e se divertiam com músicas e aproveitavam conversas aleatórias para apresentarem uns aos outros. Naquele momento o noivo aproveitava para que não só seus amigos, mas também o restante de sua família conhecessem mais a sua noiva, como também ela aproveitava para que os demais membros de sua família e seus derivados amigos se aproximassem mais de seu esposo.

A festa foi marcada para acontecer na casa de Khadija, no salão de festas que ficava um pouco no lado de trás da mansão. Lá tinha um pátio aberto com algumas mesas que ficavam do lado de fora, em uma área aberta com algumas árvores dispersas e mais para dentro uma outra área em um ambiente fechado, onde tínhamos um palco onde seria facilmente possível termos uma banda tocando por lá, caso eles quisessem.

Khadija convidou um cantor Israelista amigo de seu primo Zohar que vive em Tel Aviv, chamado Saphir. Sem medo de errar, Khadija escolheu Saphir devido a conhecer o seu trabalho que era composto de covers relacionados a cantores locais como Ivri Lider, por exemplo, responsável por canções que marcaram trilhas sonoras de filmes como “A Bolha”, lançado em 17 de Agosto de 2007 no Brasil e dirigido pelo diretor Eytan Fox.

Khadija começou a fazer a sua lista de convidados que ia além de seus tios, alguns amigos próximos e outros os quais ela já não falava já durante a um tempo. No convite, ela considerou alguns de seus tios do lado de Ghaith e outros do lado de Farah. Em um convite especial, ela pensou em dedicá-lo a uma pessoa que ela nutria um sentimento ainda forte, mas que ela já não via a algum tempo, Nizar.

Como escrever um convite para uma festa de casamento para um rapaz do qual ela gostou durante boa parte de sua vida até conhecer Mourad? Ela não sabia. Era manhã de terça feira, quando Khadija se sentou para escrever os convites para as festas que aconteceriam no próximo final de semana. O primeiro era para Nizar, ela estava na mesa quando começou a escrever o nome dele em um envelope rústico envolvido por uma fita marrom em tom avermelhado. 

Para Nizar. Escreveu ela. Ela não precisava escrever muita coisa, pois o convite já trazia além de seu nome, o nome de Mourad, e as informações relacionadas a festa e o local onde aconteceria. Ela então, dobrou o papel cuidadosamente e colocou em um envelope e o envolveu delicadamente com a fita e fez um laço. Momentos seguintes, ela buscou por seu telefone ao lado da mesa, e discou o contato de Nizar em sua lista de contatos e através de um dos aplicativos comunicadores de seu telefone, ela digitou na caixa de mensagens.

Khadija: Bom dia!

Khadija: Tudo bem?

Nizar está online.

Nizar está digitando uma mensagem...

Nizar: Oi, Khadija! 

Nizar: Bom dia!

Nizar: Tudo bem e você?

Nizar: Quanto tempo.

Khadija: Estou bem também.

Khadija: Verdade. Muito tempo que não nos vemos.

Nizar: Sim. E como você está?

Khadija: Eu estou bem. 

Khadija: Vou me casar.

Nizar: Se casar?

Khadija: Sim. Em algumas semanas.

Nizar: Nossa!

Nizar: Eu não sabia disso.

Khadija: Foi um pouco rápido demais.

Nizar: E como você está se sentindo?

Khadija: Bem!

Khadija: Queria te encontrar e te dar um dos convites para que você possa comparecer a uma das festas de comemorações que acontecerá aqui em casa este final de semana. 

Khadija: O que acha?

Nizar: Este final de semana? 

Nizar: Me parece bom!

Nizar: Inicialmente, não tenho nada planejado.

Nizar: Que horas seria?

Khadija: Estou marcando para às oito da noite.

Nizar: É um horário bom.

Khadija: E quanto a você? 

Khadija: O que tem feito?

Nizar: Nada de novo.

Nizar: Apenas o mesmo de sempre.

Nizar: Tenho trabalhado e fazendo a alegria das pessoas arrumando viagens pelo redor do mundo.

Khadija: Sinto falta das nossas conversas.

Nizar: Eu também.

Nizar: Posso levar uma pessoa?

Khadija: Uma pessoa?

Nizar: Sim.

Nizar: Estou me encontrando com uma garota.

Khadija apertou firme ao telefone e se sentiu um pouco desconfortável. Não era apenas ela que estava saindo com alguém. Nizar também tinha uma outra pessoa.

Khadija: Que legal, Nizar!

Khadija: Fico feliz por você.

Khadija: E como ela é?

Nizar: Ela é legal.

Nizar: Você vai gostar dela.

Khadija: Imagino que sim.

Nizar: Como você quer fazer?

Nizar: Quer passar no meu escritório por volta das três da tarde?

Khadija: Por mim, tudo bem. 

Khadija: Você me envia o endereço?


Nizar: Te envio em seguida por mensagem. 

Nizar: Tudo bem?

Khadija: Ótimo!

Ao bloquear o telefone, Khadija colocou seus braços por baixo do queixo e ficou em silêncio enquanto imaginava o quanto a vida parecia ser uma surpresa as vezes. Enquanto ela, estava de um lado se apaixonando e conhecendo Mourad, Nizar fazia o mesmo, do outro lado de Riade. Ela deu um sorriso espontâneo e feliz de realização, não só por ela, mas por ele também. Isso mostrava que além de ter apenas dezessete anos, ela conseguia também ter uma certa maturidade.

Enquanto isso, no andar de cima da mansão, Zyan sentia a luz do dia invadir o seu quarto e os pássaros cantarem lá fora. Já era próximo das dez da manhã e ele ainda se sentia sonolento ao sentir que seus olhos se abriam com uma certa dificuldade enquanto Faruk estava deitado em um colchão ao chão, distante da cama e próximo à uma de suas poltronas próximo ao guarda roupas.

Faruk estava dormindo de bruços, de costas viradas para cima e com a metade do seu corpo descoberto. O que fazia Zyan sentir-se completamente atraído pelos traços e músculos de suas costas que realçavam com aquela luz da manhã. Zyan tentou se levantar sem fazer nenhum barulho e caminhando lentamente foi até uma das poltronas e agarrou uma de suas camisetas e a vestiu.

Em seguida, ele buscou por uma outra bermuda e agarrou o telefone em cima da mesa e conferiu o horário. Eram dez e quarenta e sete da manhã para ser mais específico. Ele deu uma breve olhada na bandeja de aplicativos para checar as notificações e, para a sua surpresa, lá não tinha nenhuma mensagem de Lautaro. 

Sem entender por qual motivo ele não havia recebido um “Boa noite” de Lautaro no dia anterior, ele foi caminhando até o banheiro e enquanto urinava digitava uma mensagem para Lautaro.

Zyan: Oi, minha possível loucura impossível.

Zyan: Bom dia!

Zyan: Como você está?

Lautaro última visualização hoje às 04:38

Dormiu tarde. Ele pensou. Nem me mandou um “Boa noite”. Zyan franziu a testa e simplesmente ignorou o fato de que talvez pudesse estar sentindo-se inseguro com relação ao que Lautaro pudesse sentir por ele e naquele momento apenas ficou em silêncio e foi até a porta do quarto onde desceu até a cozinha. Lá estava Khadija, sentada na mesa e ao seu lado ainda uma pilha de envelopes.

Ela escrevia cuidadosamente o nome de um a um dos convidados em cada um dos envelopes. Zyan se aproximou de Khadija e agarou uma xícara de café, a encheu e sentou-se ao seu lado.

-Bom dia! 

-Bom dia! Tudo bem? - Sorriu ela.

-Tudo bem e você?

-Tudo bem também. - Suspirou. - Estou aqui fazendo estes convites. O casamento se aproxima. Estou me sentindo um pouco ansiosa.

-Eu imagino. E como você está com tudo isso?

-Eu estou me sentindo animada.

-E quanto a Mourad?

-Eu estou gostando dele cada dia mais. Ele é realmente um homem especial. - Sorriu ela.

-Que bom, minha irmã. Eu fico realmente muito feliz em saber disso.

-E quanto a Faruk?

-Ele está bem também. - Disse ele dando uma pausa após uma golada no café. - Aos poucos ele tem se recuperado de tudo que aconteceu.

-Foram muitas coisas.

-E Mourad te contou alguma coisa?

-Sobre você e Faruk?

-Sim.

-Não. Ele não comentou nada. Ele sabe que Faruk está aqui, mas acho que Najat não sonha com isso. Ela não quer ver o filho nem pintado a ouro na frente dela. Se é que me entende.

-Eu entendo. 

-E como Hassam está? - Perguntou Khadija despertando um pouco de curiosidade em relação ao comportamento de Hassam naquele momento.

-Acho que descobriremos apenas no próximo final de semana. 

-Eu tenho minhas preocupações.

-Por que?

-Não acha que Hassam e Faruk possam se estranhar por aqui?

-Acredito que não, mas talvez Najat sim.

Enquanto conversavam, eles ouviram passos e de longe conseguiram ver a silhueta de Faruk que se destacava na ponta da escada que descia do segundo andar para o primeiro. Ao verem Faruk, eles tentaram mudar de assunto falando um pouco mais sobre a festa do final de semana.

-Já escolheu a sua roupa? - Perguntou Zyan. - Bom dia, Faruk! - Disse ele virando-se para Faruk que se aproximava da mesa.

-Bom dia! - Respondeu Faruk sorridente que se sentou ao lado de Zyan na mesa.

-Ainda não escolhi a minha roupa. Acredito que talvez eu e Mourad façamos isso juntos. - Respondeu Khadija.

-Do que vocês estão falando? - Perguntou Faruk que agarrou um dos quibes ao lado da mesa e mordiscou.

-Da festa do final de semana. - Disse Khadija sorrindo. - Toma! Esse é o seu convite. - Sorriu ela entregando um dos envelopes nas mãos de Faruk que o agarrou e em seguida, ao ler o seu nome, abriu o envelope e começou a ler o conteúdo.

-Uma festa para conhecermos a família e os amigos dos noivos. - Sorriu Faruk.

-Sugestivo. Você não acha? - Disse ele. 

-Gostei da ideia.

-Quem é Zohar e Ravid? - Perguntou Khadija.

Faruk engoliu em seco.

-Ah, é um dos nossos amigos de Tel Aviv, de Israel. Digo, Zohar é o nosso primo e Ravid é o melhor amigo dele. - Respondeu ele gaguejando.

-Sério? Eles estão na lista do Mourad.

-Na lista do Mourad? - Estranhou Faruk agarrando o papel. - Posso ver?

-Claro. 

Faruk passou lentamente os olhos na lista e lá estavam Zohar e Ravid.

-Que interessante. Todos juntos. - Sorriu. - Em uma festa. Neste final de semana.

-Estamos fazendo para que tudo saia como esperamos. - Destacou Khadija. - Bom, eu preciso ir, pois vou me encontrar com Nizar agora. Vou entregar a ele o convite.

-Nizar? - Estranhou Zyan. - Você se encontrará com Nizar?

-Sim. Nizar.

-Mas...

-Já conversamos. Ele está conhecendo uma garota.

-OK. - Sorriu Zyan.

Khadija agarrou a bolsa e as chaves do carro e foi caminhando até a saída da mansão.

-Quem é Nizar? - Perguntou Faruk enquanto aguardava Khadija se afastar.

-É um amigo dela. Eles tinham um interesse um no outro, antes de ela conhecer Mourad. Só isso. E quanto a estes dois?

-Ah, o Zohar é meu primo e Ravid é apenas um amigo dele.

Zyan deu de ombros e continuou tomando o seu café.

-E o que você quer fazer hoje? - Perguntou Faruk.

-Estou pensando em descansar mais um pouco e depois resolver algumas coisas minhas. Dar uma volta. Quem sabe? E quanto a você?

-Olha, eu sei que você disse que eu posso ficar até quando precisar, pois tem lugar aqui na sua casa, mas eu não quero incomodar você e sua família. Tudo bem?

-Tudo bem, Faruk. Não precisa se incomodar com isso.

-Eu sei, é que para mim é muito complicado. 

-Talvez vocês se falem nesta festa do final de semana.

-Verdade. Ela vem. - Disse Faruk abaixando o olhar. - Eu não tinha pensado nisso.

-Estaremos todos juntos. Você fica do lado da nossa família. Não tem problema.

-Vamos ver como estará o clima no sábado.

Um pouco distante dali, na casa de Hassam, ele já conseguia sentir a ausência não apenas do pai, mas como também do irmão que preenchia os corredores daquela mansão. Logo, logo, seriam apenas ele Najat, pois Mourad se casaria com Khadija e eles provavelmente se mudariam para algum outro lugar aletrório em Riade ou o mais esperado seria Tabuque, conforme Bassam já tinha orientado Mourad.

A casa estava realmente vazia e dava ecos conforme Hassam andava. Na cozinha, estava Najat preparando o café e colocando sob a mesa.

-Bom dia, mamãe!

-Bom dia, Hassam!

-Tudo bem?

-Tudo bem e você?

-Tudo bem também.

-E como tem estado?

-Bem. Consegui dormir um pouco melhor esta noite. Acho que aos poucos o meu sono tem voltado ao normal.

-Que bom. Parou de ter aqueles pesadelos? - Perguntou ele fazendo menção aos pesadelos que tiravam o sono de Najat enquanto ela dormia, fazendo-a acordar seguidas noites intermináveis desde que Bassam havia falecido.

-Aos poucos, porém um pouco mais fracos agora.

-Que bom, mamãe.

-E você? Como tem dormido?

-Eu estou preocupado com o meu irmão.

-Mourad sabe o que está fazendo, Hassam. Ele já viveu uns dois anos em Tabuque, ele sabe como é lá e sabe que seria uma das melhores escolhas para viver com Khadija caso ela opte por viver um pouco mais distante de Riade.

-Eu me referia ao Faruk, mamãe.

-Ah, ao seu outro irmão. - Bufou Najat. - Ele sabe o que faz. Você tem falado com ele?

-Não falei com ele ainda.

-Melhor deixá-lo para lá. Não quero nenhum escândalo envolvendo a nossa família neste momento.

Enquanto eles conversavam, Mourad se aproximou da porta da cozinha e Khadija deu um sorriso da porta para Najat.

-Khadija. Você aqui... - Disse ela indo em direção à Khadija e a abraçando.

-Bom dia! Trouxe isso para vocês. - Disse Khadija entregando o envelope nas mãos de Najat e após virar-se entregou um outro envelope nas mãos de Hassam. - Este é para você e estes são para o seu primo Zohar e o amigo dele Ravid. - Comentou ela.

-São os convites para a nossa festa deste final de semana. - Pontuou Mourad sorridente. - Temos para os nossos tios também. Nós vamos sair de carro agora e vamos entregar por Riade para os nossos amigos. Querem vir?

-Acho que não. Eu vou precisar resolver algumas coisas e depois devo ter alguns compromissos. - Sorriu Najat enquanto lia o convite dentro do envelope.

Hassam também estava empolgado com o seu convite e simplesmente ignorou o convite do irmão.

-Hassam? - Chamou Mourad.

-Sim.

-Você quer vir?

-Não, vou ligar para Zohar agora e Ravid e convidá-los para virem amanhã. O que acham?

-Tudo bem. Se precisarem podem nos ligar.

Khadija e Mourad e se viraram e seguiram em direção ao carro que estava estacionado ao jardim em frente a mansão. Enquanto estavam no carro, enquanto Mourad dirigia sua outra mão ficava na perna de Khadija. 

-E como você está? - Perguntou Mourad olhando para Khadija.

-Ansiosa. E você? 

-Um pouco ansioso também. Acho que essa festa virá em um momento muito oportuno devido aos acontecimentos em minha casa.

-Vai ser bom para que a nossa família se sinta unida novamente.

-Nossa família?

-Nossa família, Mourad. Já temos uma família.

-É a primeira vez que você diz isso.

-Eu estou me acostumando ainda. É tudo muito novo.

-Para mim também.

-Posso te fazer uma pergunta?

-Claro.

-Você já sentiu dúvidas com relação ao que você queria para a sua vida?

-Muitas vezes, Khadija. - Sorriu Mourad.

-E com relação a mim?

-Nunca. Eu sempre tive certeza desde o dia em que eu te conheci.

-Obrigada. - Sorriu ela abaixando o olhar. 

-E quanto a você?

-Para ser sincera?

-Claro. Eu estou sincero. - Sorriu ele.

-Eu senti medo.

-Medo?

-Medo. 

-E o que mais?

-Não sei. Insegurança?

-Insegurança. Bons comentários. Obrigado. Eu te passei medo e insegurança? - Sorriu ele.

-Não você, Mourad. - Ela deu de ombros. - Mas toda a situação de acontecer um casamento no auge dos meus dezessete anos e casar-me com alguém que eu não conheça. Sabe? 

-Eu sei, mas e quanto agora?

-Agora se um dia eu já senti medo ou insegurança, eu consigo apenas sentir amor.

-Amor?

-Amor, Mourad.

Mourad balançou a cabeça como se estivesse entendendo o que Khadija quisesse falar.

-Obrigado. De um lado, medo e insegurança. Do outro, amor. Realmente, ter o amor transformado de um medo misturado com insegurança me desperta um pouco mais de interesse e ansiedade também neste final de semana.

-É verdade?

-Claro. Eu queria te dizer uma coisa, mas aqui assim.

Khadija sorriu.

-O que é? - Perguntou ela tentando não ser tão especifica. Ela sabia que no fundo ele estava segurando para dizer um “Eu te amo”.

-São três palavras.

-Três palavras. 

-Mas acho que aqui, assim, enquanto eu dirijo não é um bom momento.

-Verdade?

-Eu quero que seja algo mais romântico.

Khadija gargalhou.

-Eu te amo, Mourad. 

-Você disse primeiro. - Gargalhou Mourad. - Olha só... Eu estava esperando o momento certo.

-Eu também estava. Este foi. 

-Este?

-Sim. Olhar para você assim, do meu lado, enquanto dirige, esperando apenas o momento certo para me dizer um “Eu te amo” me faz pensar no quanto eu te quero como um homem para o resto da minha vida e do quanto a minha escolha por seguir com você não me faz sentir nenhum pouco mais de medo, tampouco insegurança. Só amor, Mourad.

Mourad olhou fixamente para Khadija e enquanto dirigia, ele deu meia volta com o carro e buscou logo o primeiro estacionamento próximo de onde estavam. Sem pensar duas vezes, ele estacionou o carro rapidamente e a retirou seus cintos de segurança e a beijou.

-Eu te amo! - Repetiu ele próximo dos lábios de Khadija. - Obrigado por ter feito de mim a sua escolha e de ter deixado me fazer de você a minha escolha.

Os dois continuaram a se beijar. Enquanto isso, no som do carro, uma canção aleatória tocava em dos programas sintonizados na rádio AL Arabiya. A canção é do cantor Autumn, lançada em 2018: No King Of Rider.

-Obrigado por ter tido paciência comigo. - Sorriu Mourad olhando-a nos olhos.

-Eu quem te agradeço, Mourad. Você poderia ter sugerido várias coisas e não as fez porque respeitou também o meu limite e o que eu queria.

-É porque eu te quero.

-E isso me fez querer você também.

-Quando foi que você começou a me querer de verdade?

-No nosso último jantar. É algo que para mim demorou bastante.

-Eu senti isso. Sabia?

-Ei sei que talvez tenha deixado transparecer, mas é que eu nunca pensei que me casaria assim.

-E como pensou que seria?

-De verdade?

-Sim. Pode me contar tudo. - Disse ele entrelaçando os dedos nas mãos de Khadija.

-Quando eu te conheci, eu tinha sentimentos por um amigo meu, Nizar. Este rapaz que estamos indo entregar o convite.

-Nizar? - Perguntou Mourad.

-Sim. Nós basicamente crescemos juntos e fomos muito amigos durante bom tempo. Depois nos distanciamos, mas meus sentimentos por ele sempre foram grandes o suficiente para querê-lo em minha vida como um homem.

-E quanto a ele? - Perguntou Mourad um pouco mais interessado.

-Ele nunca me deu pistas de que eu era a garota dos sonhos dele. - Sorriu ela. - Eu acho que você foi o primeiro. Sabia? - Khadija abaixou o olhar.

-Você não pode estar falando sério.

-Eu estou, Mourad. - Sorriu ela mais uma vez.

-Ele nunca te disse que gostava de você?

-Nunca. Talvez ele apenas me veja como uma amiga e uma irmã. Eu que talvez tenha misturado todos os meus sentimentos e me equivocado.

-E como você está em relação a isso hoje?

-Estou bem. - Disse ela.

-Bem mesmo? Segura?

-Segura. - Sorriu.

-Não vai me deixar no altar? 

-Claro que não. - Gargalhou Khadija.

-Tudo bem, eu fico mais seguro agora também.

-E você?

-O que tem eu?

-Nuca teve uma outra pessoa antes?

-Nunca. 

-Nunca?

-Nunca. 

-Digo... Você então é...

-Virgem? Claro, Khadija. Que pergunta.

-Bom, os homens mentem sobre isso.

-Mas eu não, Khadija. Eu estou como você.

-Você é o mais perfeito de todos, Mourad. Sabia?

-Obrigado! - Sorriu ele dando um beijo nas mãos de Khadija. - Vamos até o endereço dele? Estamos próximos. Desculpe-me pela parada rápida. - Sorriu ele.

-Foi por um bom motivo. 

-Bom mesmo.

Mourad girou a chave e pisou no acelerador voltando o carro para a pista e seguindo até o endereço de Nizar. Em frente à sua casa tinha duas vagas, ele estacionou o carro em uma das vagas e depois desceu do carro e abriu a porta para Khadija que foi até o portão de sua casa e o chamou pela campanhia. Não demorou alguns segundos até que o irmão mais novo de Nizar atendesse a porta. Era uma criança de sete anos de idade e que amava Khadija.

-Oi, Khadija! - Disse a criança.

-Oi! - Disse ela com uma voz mais meiga. - Onde está o Nizar.

-Já está vindo.

Nizar veio caminhando atrás da criança e agarrou no colo e abriu o portão para que Khadija e Mourad entrassem. Khadija entrou primeiro e apresentou Mourad a Nizar que deu seus cumprimentos e os convidaram para entrar. Nizar preparava um almoço típico da Arábia para recebê-los e Mourad pôde ver que sob à mesa tinham cinco pratos.

-Está esperando mais alguém? - Perguntou Mourad indiscretamente.

-Mourad. - Chamou Khadija.

-Deixe-o! Estou sim, Mourad. É uma garota que estou conhecendo. Nada demais. - Sorriu ele.

-Ah, uma garota. - Sorriu Mourad.

-Sim, uma garota. - Afirmou Nizar.

-Uma garota. - Suspirou ele.

-Está tudo bem com ele? - Sussurrou Nizar com Khadija.

-Está sim. Não ligue. - Disse ela dando de ombros. - Ele não esperava que você estivesse se encontrando com alguém.

-Ah, entendi. Mas isso é um problema? 

-Não. Imagina... - Sorriu ela.

-Mas me contem de vocês. Como tudo isso aconteceu?

-Nossos pais. - Disse Mourad.

-Um acordo de família. - Assentiu Nizar.

-Um acordo de família. Basicamente. - Sorriu Khadija.

-E como estão seus pais? - Perguntou Nizar.

-Estão bem. Estão ansiosos com tudo e só. Tariq está em Tabuque.

-Tabuque? - Estranhou Nizar. - Ainda em Tabuque. Achei que ele se cansaria de lá. Quem está acostumado com Riade nunca se acostuma com Tabuque.

-Ele meio que está tomando as rédeas de alguns negócios da família de Rabie e eles acabam vindo à Riade alguns meses e depois voltam.

-E quanto a Zyan?

-Zyan está bem. Ele foi para Nova Iorque há uns meses.

-Nova Iorque? Eu me lembro de quando ele foi ao Egito.

-Sim. Nova Iorque, acho que a foi uma das melhores viagens que ele fez. Ele pretende voltar.

-Para passeio? - Perguntou Mourad.

-Não sei. Talvez. - Respondeu Khadija.

-Zyan é um mistério. - Riu Nizar. - Ele já está conhecendo alguma pretendente?

-Zyan? - Gargalhou Khadija enquanto Mourad ficava sério ao seu lado. - Não. Acho que por agora nem pretende.

-Ele fica muito sozinho. - Comentou Nizar.

-Agora ele tem passado bastante tempo com o irmão de Mourad. - Sorriu ela colocando as mãos no noivo. - Eles meio que se tornaram uma família. - Sorriu ela.

-Verdade. - Disse Mourad um pouco constrangido.

-Que bom. Fico feliz por vocês. - Sorriu Nizar.

-E quanto a você? - Perguntou Khadija.

-Bom, você sabe, né? Eu tenho aquela empresa de turismo que fecho viagens para todos os lugares do mundo e acabei conhecendo a Rana por lá. Ela era uma de minhas clientes e hoje está trabalhando comigo.

-Sério?

-E tem quanto tempo?

-Uns quatro meses.

-Um bom tempo. - Sorriu Khadija.

-Pensam em se casar? - Perguntou Mourad.

-Não. Por enquanto não. Nós não seguimos essa tradição. Ela não pretende nem ter filhos. - Sorriu Nizar.

Khadija abaixou a cabeça e sorriu um pouco com vergonha.

-E quanto a vocês? - Perguntou Nizar.

-Estamos conversando sobre isso. - Respondeu Mourad enquanto Khadija ao mesmo tempo respondeu outra coisa.

-Não conversamos sobre isso ainda.

-Ah. - Suspirou Nizar. - Me perdoe. Não queria me intrometer em assuntos particulares do casal.

-Não. Fique tranquilo. - Respondeu Mourad. - É bom conversar com casais diferentes assim que pelo menos conseguimos nos entender também. - Sorriu ele.

-Mas e você? - Perguntou Nizar mais diretamente para Mourad.

-Eu pretendo ter uns dois filhos com Khadija e após o casamento fazermos uma viagem e ficarmos uns três ou quatro meses longe dessa correria de Riade e voltarmos para cá e ajeitarmos a nossa vida para que ela possa ganhar o nosso primeiro bebê.

-Já estão planejando isso?

-Ele acabou me contar estes planos. - Sorriu ela.

-Ela vai gostar. - Assentiu Mourad.

-E quanto a você, Khadija? - Perguntou Nizar se direcionando para ela.

-Eu não pensei em ter nenhuma criança por agora. Eu queria poder cuidar do meu futuro.

-Seu futuro já está garantido, meu amor. - Sorriu Mourad. - Você está se preocupando com coisas que não deveria neste momento. 

Nizar que estava de costas pegando alguns talheres no armário, ficou um pouco assustado com o comentário de Mourad. Ele sabia do quanto ter um futuro era importante para Khadija e o quanto ela almejava por ser independente e ter alcançado todos os seus sonhos. Mesmo que fosse de uma família de classe média alta e se juntasse com Mourad que vinha de uma família de classe rica, ela não teria nenhuma preocupação, mas ainda assim ela gostaria de ter alguma profissão à qual ela conseguisse se dedicar fora de casa como se fosse ter o seu próprio refúgio. 

-E quanto à Rana? - Perguntou Khadija quebrando o silêncio.

-Rana? Ela tem dezenove anos e está começando a estudar turismo para aprofundar-se nas áreas da nossa empresa.

-Que bom, Nizar. - Sorriu Khadija.

-Estamos com alguns outros planos. Não sei. Vamos ver. Penso em daqui uns cinco ou dez anos de talvez nos mudarmos daqui para os Estados Unidos. 

-Estados Unidos? - Questionou Mourad.

-Sim. É uma cultura bem interessante e Rana é bem apaixonada por tudo que tem lá  e, a Khadija sabe do quanto eu gosto de viajar, então para mim, é uma das melhores escolhas que talvez possamos fazer na vida.

-Eu não sou muito adepto à cultura dos americanos. - Sorriu Mourad.

-Sem problemas. Não temos nada contra isso, aqui em casa a não ser que você seja um destes extremistas. - Gargalhou Nizar junto a Khadija enquanto Mourad ficou um pouco sem graça.

Enquanto ele terminava de arrumar a mesa, o seu telefone vibrou ao bolso. Era Rana avisando tinha chegado.

-Um minuto. Vou abrir a porta para Rana. - Acenou ele.

Nizar foi caminhando até a porta de entrada e ao abrir a porta se deparou com Rana que não via a hora de chegar dentro de casa e arrancar o hijabe. Assim que ela entrou pela porta, ela deu um beijo bem rápido em Nizar e passou logo por ele colocando a bolsa em cima de uma das poltronas e arrancando o hijabe com cuidado para que seu cabelo entrelaçado no tecido não se enrolasse ao desfazê-lo. Khadija que caminhava pela cozinha, pôde ver de relance a liberdade que Rana conseguia ter com Nizar soltando pelo menos o cabelo dentro de casa na frente dele e talvez de outros homens? Como ela iria saber comio Mourad reagiria a isso? Ao ver Rana com o cabelo solto sem o Hijabe ela também queria se sentir daquela forma. Ela queria ter a mesma liberdade que Rana.

Rana então deu um beijo em Nizar e depois brincou com seu irmão mais novo, Saif.

-Rana, temos visita. - Sorriu Nizar.

Rana então voltou seu olhar para o lado oposto e lá estavam Mourad e Khadija.

-Oi! - Disse ela sorrindo se aproximando de Khadija.

-Tudo bem? Prazer, Khadija. 

-Prazer, Rana. - Sorriu ela. - Essa é a noiva que você tinha comentado comigo Nizar? 

-Sim, é ela. - Sorriu Nizar.

-Você está linda. - Sorriu Rana.

-Obrigada. - Agradeceu.

Mourad que não estava acostumado ver outras mulheres vestidas daquele jeito em casa, em sua frente, tentou disfarçar um pouco a sua inquietação e agir naturalmente. Aliás, tanto Nizar quanto Rana estavam confortáveis em usar roupas mais comuns e confortáveis devido à temperatura que estava quente em Riade.

-O almoço está pronto. - Sorriu Nizar.

-Um almoço? - Rana mostrou surpresa. - Vocês sabem que aqui quem cozinha é sempre o Nizar. Não é mesmo? - Brincou Rana.

-Verdade? - Sorriu Khadija. - Ele cozinha bem?

-De vez em quando. Outras nem tanto. - Sorriu ela mais uma vez. E quanto a vocês? - Perguntou ela agarrando o convite. - Uma comemoração para conhecermos os noivos. Que lindos vocês. -  Continuou Rana um pouco mais empolgada. - Quando será o casamento?

-Está aí no final. - Sorriu Khadija apontando para o final do convite.

-Próximo. Daqui um mês e meio? 

-Sim. - Assentiu Khadija.

-Conheço uma empresa que faz as fotos de eventos. Se precisarem. - Comentou Rana.

-Ah, claro, peça ao Nizar para me mandar. 

-Tudo bem. - Assentiu ele pegando o telefone no bolso. 

-E como vocês se conheceram? - Perguntou Rana.

-Através de nossos pais.

-Ah, que interessante. - Sorriu Rana. - Vocês fazem um casal muito bonito. De presente, eu e Nizar podemos dar uma viagem a vocês. 

-Rana... - Chamou Nizar.

-Nizar, eles irão se casar e ela é a sua amiga.

-Não uma viagem de lua de mel. Não é? - Sorriu Nizar.

Os quatro gargalharam.

-Não era a isso ao que eu me referia. Eu iria sugerir de darmos aos dois uma viagem de quatro ou cinco dias em algum lugar por aí. Não precisa ser agora, mas apenas um presente nosso. - Sorriu Rana.

-Obrigada. Não precisem se preocupar.

-Claro que precisa. - Sorriu ela. - No sábado levamos para vocês um cartão e vocês preenchem os dados e depois vemos as opções e o que desejam para um passeio.

-Estou gostando destes seus amigos. - Sorriu Mourad.

Os quatro sentaram à mesa junto ao irmão mais novo de Nizar e juntos eles almoçaram e conversaram durante toda a tarde. Estar junto a um outro casal, fazia com que Mourad e Khadija vissem o relacionamento de uma outra perspectiva. Eles estavam noivos e na correria para os preparativos do casamento, quase não tinham contatos com outros casais a não seis próprios pais que sempre que conversavam uns com os outros, eles vinham sempre com conversas mais sérias, relacionadas a negócios e às famílias. 

Estar com Nizar e Rana era algo diferente. Eles conseguiam falar sobre viagens, costumes de relacionamento e até mesmo rotinas. Enquanto Rana falava, Khadija ficava impressionada no quanto ela parecia ser tão sincera e ao mesmo tempo delicada para falar sobre o relacionamento deles de um modo geral. Eles não pensavam em seguir a tradição de se casarem em algum lugar ou construir uma família, eles queriam mesmo era ter os seus próprios negócios, viajar bastante ao redor do mundo e se mudar de Riade daqui a uns anos. Estes planos nunca haviam sido compartilhados por Nizar, pois os planos de Nizar eram outros. Aqueles eram os planos de Rana e Nizar. Os planos do casal.

Quais seriam os nossos planos? Perguntou-se Mourad em silêncio enquanto olhava para Khadija. Enquanto prestava a atenção em Nizar e Rana, ele também conseguia nutrir daquela conversa a melhor reflexão sobre como se comportar diante de um relacionamento. Ele que nunca tinha estado em um antes, agora estava prestes a se casar e ter todas as responsabilidades de um homem casado e um chefe de família, dado que seu pai havia falecido semanas atrás e isso trazia com ele muito mais responsabilidades que ele se quer conseguia imaginar até aquele momento.

O dia anoiteceu e após eles se despedirem, Khadija e Mourad foram caminhando até o carro onde entraram e ela ficou mais em silêncio do que o habitual. Ele ficou um pouco pensativo também em relação a como se comportar no relacionamento, pois ele tinha saído da casa de Nizar com uma impressão de que os relacionamentos deles poderia ser muito melhor do que o eles estavam construindo juntos. Nizar e Rana pareciam dois amigos, além de ser parceiros um do outro, eles tinham brincadeiras internas um com outro. Sabiam sorrir e falavam até mesmo em olhares.

Já Khadija e Mourad que estavam prestes a se casar, ele se quer conseguia imaginar o que Khadija estava pensando do outro lado do carro, no banco de passageiro. Que tipo de conexão faltava entre eles naquele momento? Será que ela pensava o mesmo? Perguntava-se Mourad enquanto dirigia.

Mourad deixou Khadija em casa naquela noite e ela desceu do carro e deu um beijo em seu rosto de uma forma um pouco mais fria. Ou pelo menos era o que ele começava a achar. Talvez fosse coisa da cabeça dele, mas ele estava um pouco mais inseguro com relação ao que Khadija buscava e sentia.

-Está tudo bem? - Perguntou ele.

-Está. Por que?

-Você ficou em silêncio. - Riu.

-Eu só fiquei um pouco cansada.

-Mas você normalmente conversa bastante.

-Mourad, eu só estava cansada.

-Posso subir?

-Você quer subir?

-Você quer que eu suba?

-Vamos! - Sorriu ela.

-Não. Eu quero saber se você quer que eu suba.

-Mourad, por que estamos tendo este tipo de diálogo?

-Porque eu te perguntei se está tudo bem e você disse que está cansada e eu te perguntei se eu posso subir e você me devolveu com uma outra pergunta.

-Eu perguntei se você quer subir.

-E por que você não disse apenas um “Sim”?

-Mourad, você está bem?

-Khadija...

-O que foi?

-Eu não sei. - Disse Mourad olhando para fora do carro.

-O que está acontecendo?

-Eu não sei... Eu...

-Você o que?

-Eu estava vendo o relacionamento do seu amigo com a Rana e parecia tão diferente do nosso.

-E o que tem isso?

-Eles pareciam muito mais felizes que a gente.

-Mourad, nós estamos no meio dos preparativos do nosso casamento. Estamos exaustos.

-Você está feliz?

-Mourad, claro que eu estou. E você?

-Eu estou. Você quer ir embora de Riade também?

-Eu nunca pensei nisso, Mourad.

-E quanto a Tabuque.

-Eu também nunca tinha pensado em me mudar para Tabuque.

-Mas você sabe que precisaríamos ir para lá pelo menos por alguns meses. Não sabe?

-Eu sei, mas não sei se eu gostaria de me mudar para Tabuque.

-Tudo bem. Era isso que eu precisava ouvir de você.

-Mas por que isso agora?

-Eu fiquei meio pensativo. 

-Pensativo sobre o que?

-Será que Nizar não gosta de você?

-Ele está com a Rana, Mourad. Por favor, eles estão felizes. Tira essas coisas da sua cabeça e vamos subir.

-Tudo bem. Me desculpe.

-Não precisa pedir desculpas.

-Eu preciso. Olha para você, você parece que tem muito mais idade que eu e você só tem dezessete anos. Eu me sinto um imaturo ao seu lado. Era para você estar insegura assim e não eu.

-Como assim? Por ser mulher?

-Talvez.

-Mourad, homens também são inseguros.

-Meu pai não era.

-Ele poderia não transparecer, mas com certeza era inseguro.

-Tudo bem. Você vai contar para alguém?

-Sobre essa conversa?

-Sim.

-Não. Claro que não. Por que você não aproveita e conversa um pouco com outros rapazes? Nizar estará aqui. O seu primo, aquele seu amigo de Tel Aviv, o Ravid. Então aproveite. Talvez esteja só cansado devido a estar com tudo isso o tempo todo na cabeça. Tenta relaxar. 

-Você parece estar tão despreocupada.

-Eu estou. 

-Por que?

-Porque eu tenho a minha família.

-Você conversa com eles?

-Converso. Quer dizer, converso mais com o Zyan.

-Entendi. E quanto às crianças?

-Eu não pretendo ter filhos por agora, Mourad, me desculpe. Eu não tinha pensado nisso. 

-Você tem certeza?

-Sim. Você ficaria chateado?

-Não, Khadija. Eu já te disse. Sou eu e você. E apenas nós. Eu faço o que você quiser.

Khadija ficou em silêncio e aos poucos se aproximou de Mourad e o deu um beijo. Um beijo lento, molhado e demorado.

-Eu te amo! - Disse Mourad.

-Eu também te amo. - Assentiu Khadija. - Vamos subir?

Mourad fez que sim com a cabeça e os dois abriram a porta e foram caminhando em direção a entrada da mansão. Do lado de dentro, Zyan e Faruk gargalhavam da cozinha. Eles estavam conversando assuntos aleatórios em tons de voz alto e gargalhavam juntos como se estivessem um pouco bêbados. Khadija chegou da porta e interrompeu o momento quase que íntimo dos dois, deixando Faruk um pouco constrangido.

-O que estão fazendo?

-Estamos fazendo um jantar. - Sorriu Zyan.

-Especial? - Perguntou Khadija.

-Depende... Considerando que mamãe e papai só voltam amanhã, sim. Especial. - Riu Zyan.

-Oi, Mourad. - Sorriu Faruk enquanto Mourad se aproximava.

-Oi, Faruk! Como você está?

-Estou bem.

-Tem falado com a mamãe?

-Não. Ela nunca mais quis falar comigo. Vou esperar ela ficar mais tranquila.

-Se precisar de algo pode me falar. Tudo bem?

-Tudo bem. Zyan e Khadija estão sendo maravilhosos comigo aqui.

-Ele agora é como se fosse meu segundo irmãos mais velho. Um pouco mais chato que Zyan. - Sorriu Khadija abraçando Faruk.

-Vocês vão jantar com a gente. Não vão? - Perguntou Faruk.

-Acabamos de voltar de um almoço. - Sorriu Mourad. - Estávamos com um casal de amigos de Khadija.

-Casal de amigos? Desde quando você tem um casal de amigos em Riade, Khadija? - Perguntou Zyan.

-Desde que Nizar começou a sair com uma cliente chamada Rana e agora eles namoram. 

-Isso é verdade? - Perguntou Zyan um pouco assustado.

-É verdade. E ganhamos uma viagem. - Vibrou Mourad.

-Uma viagem? - Zyan gargalhou. - Uma viagem? Ele pagou uma viagem para vocês dois?

-Para nós. Por que? - Perguntou Mourad.

-Nada. - É um presente e tanto. Sorriu Zyan olhando fixamente para Khadija que tentou desviar o olhar que Zyan falasse alguma coisa. - Já escolheu para onde vai, Khadija?

-Não ainda não.

-Que tal... - Faruk começou a falar...

-O que tem aqui? - Perguntou Khadija interrompendo Faruk e caminhando em direção ao fogão.

-Khadija, posso falar com você? - Chamou Zyan.

-Claro. Me dê um minuto, por favor, Mourad. - Disse ela acompanhando Zyan.


Os dois foram caminhando até o canto da escada e do lado lateral se esconderam atrás de um dos pilares para que pudessem conversar de uma forma mais reclusos de Faruk e Mourad.

-Nizar está namorando?

-Está. 

-E como você está?

-Eu estou bem, Zyan. 

-Está bem mesmo?

-Sim. A vida passa e as coisas acontecem. Ele está com a Rana. Ela é bonita, parece não ser mulçumana extremista e mais liberal e isso combina um pouco mais com ele. Não é de uma família muito parecida com a nossa. Ela se veste diferente de mim e eles riem juntos. Isso é o que importa.

-Mas e quanto ao Mourad? 

-Hoje eu disse a ele que eu o amava.

-E você ama?

-Aprendi, Zyan.

-Tudo bem, Khadija. Só, por favor, não faça nenhuma besteira subindo naquele altar sem saber o que está fazendo da sua vida.

-Eu sei o que eu estou fazendo Zyan. 

-Eu espero. Porque eu não quero mais uma pessoa infeliz nessa família. Você está me entendendo?

-Eu estou te entendendo, meu irmão.

-Eu quero que você seja feliz. Quero que você olhe para ele e pense “Esse é o cara que eu amo e que eu decidi passar toda a minha vida ao lado dele. É ele quem eu quero e foi ele quem eu escolhi”. Não quero te ver como muitas famílias por aí, tristes e infelizes com poligamia no casamento e as mulheres sem voz e não conseguirem se quer gritarem ou dizerem o que querem ou o que sentem. 

-Zyan, eu sei o que você está falando, mas com Mourad nunca será assim.

-Você promete?

-Prometo!

Os dois se abraçaram. Enquanto ele abraçava Khadija, o telefone de Zyan vibrou ao bolso. Ele enfiou a mão no bolso da calça e ao puxa-lo, virou o visor para o rosto e Khadija pôde ver o nome de Lautaro.

-Vai lá. Eu fico com o Faruk aqui. - Disse ela seguindo em direção à cozinha.

Zyan olhou para os lados e foi caminhando até um outro lado, próximo ao banheiro de visitas para atender Lautaro que chamava por chamada de áudio.

-Oi, minha possível loucura impossível. - Sorriu Zyan.

-Oi, Zyan! 

-Oî! Tudo bem?

Lautaro ficou em silêncio.

-Tudo bem e você?

-Tudo bem também. Aconteceu alguma coisa?

-Eu queria conversar com você. 

-Pode falar.

-Você está desocupado? Posso ligar outra hora.

-Não. Pode falar agora. - Disse Zyan com as mãos trêmulas.

-Eu, estive pensando ultimamente e...

Zyan engoliu em seco.

-...Droga! Eu não sei como vou dizer isso, mas eu vou tentar. Tudo bem? Eu conheci uma pessoa. O nome dele é Scott e ele é um artista como eu e estamos trabalhando juntos em algumas coisas e acabou que isso nos aproximou bastante e eu estou gostando dele e por isso eu queria te dizer que acho que talvez seja melhor a gente se afastar por um tempo. Não que eu queria parar de falar com você ou que não quero nunca mais te ver, é só que estamos tão longe e eu não sei como lidar com isso. Me desculpa. - Disse Lautaro que segurava um pouco as lágrimas.

Zyan ficou em silêncio por um tempo.

-Você está aí? - Perguntou Lautaro.

-Estou. - Disse ele pausadamente. - Você está terminando comigo?

-Eu não posso mais falar com você. Não assim. Ele me pediu em namoro hoje e eu aceitei. 

-Tudo bem. É isso então?

-Me desculpa.

-Não precisa se desculpar.

Os dois continuaram em silêncio.

-E como está seu trabalho novo? Suas artes...

-Eu ainda vou pintar sobre isso, mas estão bem. 

-Que bom. Me mande notícias.

-Você também. Mande um beijo para os seus irmãos e para os seus pais.

-Obrigado, Laut.

-Adeus, Zyan.

Lautaro desligou o telefone e à sua frente havia um quadro em branco com alguns carvões, tintas e pinceis ao seu lado. Ele tinha passado os últimos dias aprendendo algumas técnicas de aquarela se misturando à carvão junto a Scott que o ajudou a dar cores em alguns desenhos. Aquela ligação por mais fria que pudesse ter sido, tinha doído bastante nele. Muito mais do que ele pudesse transparecer naquele momento.

Caminhando até uma de suas caixas de som ao lado do quadro, ele deu play em uma das canções da banda de Kings Of Leon, Seen. A canção lançada em 2024 fazia menção a uma pessoa que muitas vezes fica preso em seu próprio mundo como uma mulher que fica em uma janela esperando que um dia seja libertada. Em algumas estrofes é possível ver a relação entre o amor e cavalheirismo dizendo-nos para que isso nunca nos abale e fazendo algumas menções a um casaco que fez com que Lautaro se lembrasse imediatamente de Zyan. 

Ao som de Kings Of Leon, Seen, Lautaro consegue relembrar de quando estava assistindo a uma banda de rua na Times e sentiu um impacto em suas costas da lateral e era Zyan caminhando totalmente disperso e derramando nele o seu próprio Milk Shake. Foi aquele dia que eles se conheceram. O dia em que talvez tudo na vida de Lautaro e de Zyan estivesse prestes a mudar como dois mundos que se chocam. 

Em Riade, Zyan caminhava até a cozinha e da porta observava Khadija, Mourad e Faruk cantarolando e conversando juntos enquanto preparavam o jantar. Ele ficou parado ali, observando em silêncio e pensando no quanto aquilo estava fazendo-o feliz naquele momento. Faruk fez um sinal com a cabeça para que ele se aproximasse e Zyan caminhou em direção a eles. Juntos, eles preparavam o jantar e conversavam e sorriam como uma família de verdade. Faruk, Zyan, Khadija e Mourad. 

[PARTE IX] 20.01.25

[FINAL] 25.01.25

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