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THE_CLUST3R: LUZES DE NATAL (CAP. 01)

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Localização: Nova Iorque, Estados Unidos. 

Horário: 04:27:16 pM 

Enquanto caminhava pelas ruas da Broadway até a Times Square, Zyan sentia levemente seu rosto ser iluminado pelas luzes dos painéis que do alto se misturavam nas cores dos telões do alto com anúncios de lojas caras e concertos espalhados por todos os endereços de Nova Iorque. Ao seu redor, algumas silhuetas de pessoas passavam-se como vultos por ele enquanto encantado ele olhava para os letreiros que corriam pelos telões em cima de sua cabeça. Ele já estava há duas semanas em Nova Iorque e aquele era o dia em que ele tinha tirado para visitar a Times Square. 

Zyan não era bom em montar seus roteiros de viagem, aliás, era a segunda vez que ele fazia uma viagem internacional tão longa. Sua primeira viagem foi para o Egito onde ele se empenhou por três longas semanas em conhecer toda a história, cultura e escritas dos egípcios. O que mais o deixou extasiado foi conhecer como o povo cultivava as múmias. Coisas que ele só via em filmes e seriados. Aliás, que seriados tinham múmias? Game Of Thrones? Ele não conseguia se recordar de nenhuma série naquele momento além do filme “A Múmia” lançado em 1999 estrelado pelo ator Brendan Fraser.  

Particularmente, Zyan tinha uma queda por Brendan desde a sua adolescência quando assistiu incansavelmente ao filme por mais de dez vezes em quase um ano junto ao seu irmão mais velho Tariq. Isso que ele se lembrava. Seu maior trauma foi se deparar com a atuação do ator quase vinte anos depois no filme “A Baleia”. Ao se recordar dessa disso, Zyan deu de ombros e em gargalhadas levou as mãos no bolso e agarrou ao telefone para tirar uma foto e enviar ao irmão que estava na Arábia. 

Tariq era dois anos mais velho que Zyan e eles acostumavam ter um bom relacionamento quando mais novos. Os dois se afastaram na adolescência quando Tariq começou a se relacionar com Rabie e logo depois se casou. Aos dezenove anos, Rabie engravidou de seu primeiro filho com Tariq e os dois se mudaram de Riad para Tabuque, uma cidade mais próxima à Jordânia e ao Iraque com outros costumes e com regras bem diferentes do que eles estavam acostumados a viver juntos em Riad. 

Nascida em Tabuque, Rabie foi apresentada a Tariq por seus pais em uma viagem que eles fizeram para Riad. O casamento foi arranjado por suas famílias de acordo com as tradições religiosas do país. Zyan não concordava muito com a forma com a qual eles começaram a se relacionar, mas cabia mais a Tariq decidir-se a respeito de seu futuro com a Rabie. Eles começaram a se afastar a partir do momento em que o casamento aconteceu e juntos eles se mudaram para Tabuque. Zyan temia bastante por sua irmã mais nova Khadija que também passaria pela mesma situação que Rabie. Ela provavelmente teria o seu casamento arranjado em breve e seria entregue para um homem desconhecido querendo ela gostando ou não. Enquanto ele retirava o telefone do bolso para tirar uma foto com o fundo da Times Square, ele se lembrava de seus irmãos e do quanto a sua família representava para ele.  

Com a câmera frontal do telefone, Zyan deu um sorriso lentamente curvado para o lado onde ergueu suas sobrancelhas e apertou o botão de disparo tirando três fotos simultâneas. As fotos foram salvas na galeria e ele rapidamente acessou o seu álbum e selecionando o ícone de “Compartilhar” enviou as três fotos no grupo onde seus irmãos estava. Na legenda, ele apenas digitou que estava com saudades e o quanto sentia a falta dos dois.  

Assim que guardou o telefone nos bolsos, ele seguiu pela Times observando cada detalhe daquela rua. Parecia estar em um dos filmes do “Home Aranha”. Era o que ele conseguia se recordar da cidade. Um pouco mais à sua frente, tocava uma banda de rua onde tinha um homem com uma caixa de som ao lado de um outro rapaz segurando um violão onde eles tocavam juntos a canção de “Mind Over Matter” do grupo musical “Young The Giant”. 

Conforme ele se aproximava a canção começava a invadir seus ouvidos e o seu corpo tomando vida fazendo com que ele se lembrasse de ter a escutado em algum momento de sua vida. Que música é essa? Ele se perguntou. Sem conseguir se lembrar de que música era e tampouco de qual banda ela seria, ele se aproximou e novamente com o telefone em mãos começou a filmar e sem perceber foi andando e se esbarrou em um outro rapaz que tomava um shake proteínas um pouco mais a frente deixando derramar todo o líquido em seu casaco xadrez azulado. 

  • - Desculpe-me! - Pediu Zyan tentando secar rapidamente o casaco do rapaz que se esquivou conforme Zyan tentava encostar suas mãos nele. 

  • - Sem problemas. - Respondeu o rapaz. 

Conform Zyan corria seus olhos pelo casaco xadrez azulado do rapaz, ele sentiu suas bochechas ficarem avermelhadas e sua temperatura subir levemente. Ele estava começando a sentir-se envergonhado e não sabia muito bem o que dizer. Deveria ele se apresentar?  

  • - Meu nome é Zyan 

  • - Prazer, Lautaro. 

  • - Lautaro. Que nome diferente. 

  • - É, não é muito comum, mas pode me chamar de Lau. 

  • - Prazer, Lau 

  • - Você não parece daqui, não é? Digo... Pelo seu sotaque e pelos seus traços. 

  • - Tenho tanto o jeito de turista assim? 

  • - Um pouco.  

  • - Me visto como turista? 

  • - Não.  

  • - Falo como um turista? 

  • - Um pouco. Mas por que se preocupa? 

  • - Não queria parecer um turista em Nova Iorque. 

 

Lautaro sorriu. 

 

  • - Eu acho um pouco impossível você não parecer um turista. Seu rosto, seus olhos, sua barba. Seu queixo. 

  • - O que tem meu rosto? 

  • - Seus traços são semelhantes a... Sei lá. - Lautaro deu de ombros. 

  • - Sei lá? 

  • - É, meio árabes. 

  • - Ah, você diz minha fisionomia.  

  • - Isso. Desculpe-me, não sei muito como me expressar. Não uso bem as palavras. 

  • - Tudo bem. Não se preocupe. 

  • - Sou da Arábia Saudita. E você? Também não parece ser daqui. 

  • - Ah, sim. Sou da Argentina, mas moro aqui em Nova Iorque.  

  • - Sério? Um latino. 

  • - Sim. Um latino. 

Os dois ficaram em silêncio enquanto a canção se encaminhava para o seu último refrão. 

  • - Aliás, qual é o nome dessa música? - Perguntou Zyan. 

  • - É “Mind Over Matter” do Young The Giants. Ele é indiano. 

  • - O rapaz daqui? - Perguntou Zyan se referindo aos músicos da calçada. 

  • - O vocalista da banda. Esses dali não parecem indianos. - Comentou Lautaro.  

  • - Cuidado com o que você vai falar. Pode ser cancelado no Twitter. 

  • - Ah, você usa Twitter.  

  • - Não, mas acompanho bastante como ocorre normalmente os cancelamentos. 

  • - Você é legal. 

  • - Obrigado! Você também. 

  • - Está sozinho? 

  • - Sim. Estava caminhando por aqui e pensando em conhecer alguma galeria, sei lá. Tem alguma para indicar? 

  • - Estou indo para uma exposição um pouco mais à frente. São de fotografias de uma fotógrafa Chicaguense, Anne Steves. Você já ouviu falar? 

  • - Ela é famosa por fotografar partidas de futebol pelo mundo. Acho que ela seguiu a carreira em homenagem a seus dois amigos de infância que morreram em um acidente de carro. Algo assim. 

  • - Você é muito interessante. Onde você conhece tudo isso? Você lê muito? 

  • - Muita tecnologia né? O mundo está assim ultimamente. Aliás, onde você vive? - Riu Lautaro. 

  • - Provavelmente em um mundo bem diferente do seu. - Sorriu. 

  • - Bom, já estou indo. Você quer me acompanhar? 

  • - Claro. Vamos?! 

Os dois foram caminhando pela Time Square enquanto conversavam. 

  • - E então, do que mais você gosta? 

  • - Não sei. Gosto muito de ouvir Rock Indie e Pop Alternativo. E você? 

  • - Não tenho um gênero preferido. 

  • - Como não? Todo mundo tem um gênero de música preferido. 

  • - Na minha cidade não costumo ouvir muita música. 

  • - Quem não ouve músicas?  

  • - Eu já te disse. Eu não sou muito de ouvir música. 

  • - Ler? Você gosta? 

  • - Ler... Gosto!  

  • - Qual seu livro favorito? 

  • - O menino do pijama listrado. - Respondeu Zyan fazendo menção ao livro escrito pelo autor John Boyne. 

  • - Eu me lembro de ter lido esse livro anos atrás. Me recordo de ter chorado muito. Foi o primeiro livro que me deixou realmente emotivo. 

  • - Sinal que você tem sentimentos. É completamente impossível não chorar com ele. 

  • - E o que te faria totalmente sentimental? 

  • - Em que sentido? 

  • - Sei lá. Algo que você tenha assistido ou lido e se emocionado e olhado para aquilo e se perguntado: Sério mesmo que eu chorei assistindo com essa porra e ninguém mais o fez? 

  • - Toy Story 4.  

  • - Eu não assisti ainda. 

  • - O Wood e o Buz se despedem e eles não ficam mais juntos. Digo, a jornada como amigos. 

  • - Claro que são amigos. Ou você acha que eu seria um daqueles caras de sub reddits da vida que fantasiam uma fan fic gay entre Buz e Wood no Toy Story? 

  • - Seria como fantasiar Deadpool com Homem Aranha. 

  • - Não. É completamente diferente, você já está indo em um nível mais Liam Payne e Zayn do One Direction. 

  • - Não os conheço.  

  • - Sério, Zyan... Em que mundo você vive?  

  • - Eu também estou tentando descobrir. 

  • - Mas me conta, como é viver na Arábia Saudita? 

  • - É como viver em qualquer outro lugar da terra. Você acorda, você respira, você trabalha e vive. Alguns infelizes outros um pouco menos infelizes que os outros e assim vai indo. 

  • - Nossa! Que profundo. E como você vive por lá? Menos infeliz que os demais?  

  • - Eu estou tentando viver para falar a verdade. 

  • - E o que te falta para viver de verdade? 

 

Você. Foi o que veio à mente de Zyan quando seus olhos observaram os lábios de Lautaro se mexerem em um movimento tão lento que as palavras saíram tão devagar ao perguntar o que faltava para que ele conseguisse viver de verdade que ele queria dizer apenas uma palavra e quatro letras: Você. 

 

Zyan nunca tinha se envolvido com um outro homem antes. Ele já tinha conversado com outros rapazes na internet e era adepto aos cibersexos em chats randomizados espalhados por todos os lugares da internet. Ele não tinha pudores para expor o seu corpo desde que o seu rosto não fosse mostrado. Ele tinha um corpo limpo de tatuagens e apenas com alguns pelos espalhados pelo corpo que era tão típico de homens ao redor do mundo que dificilmente ele seria identificado por alguém que o conhecesse pessoalmente por Riad ou pelas redondezas. 

 

  • - Ei, estou falando com você. - Disse Lautaro quebrando o silêncio e interrompendo os pensamentos de Zyan que permanecia calado enquanto seus olhos estavam fixados em seus lábios. 

  • - O que? 

  • - Você não me ouviu. 

  • - Te ouvi. 

  • - E o que eu falei? 

  • - Você me perguntou o que me falta para eu viver de verdade. - Zyan deu uma leve pausa em sua fala enquanto Lautaro assentiu com a cabeça aguardando que ele concluísse a sua fala. - Eu diria que me falta o hoje. 

  • - O hoje você já tem e eu também. Então vamos aproveitar. - Sorriu Lautaro. 

Zyan e Lautaro estavam há aproximadamente cinco minutos da galeria onde Anne Steves fazia uma de suas primeiras exposições na cidade de Nova Iorque. Anne era uma das amigas de Christian Modric e Mike em tempos de colégio. Ela ficou muito próxima de Mia Nahaz depois do famoso festival de Outono onde ela fotografou todo o evento e inclusive uma das primeiras aparições da banda de garagem de Johan, Franz e Giorgio. 

Anne era o tipo de mulher que viajava o mundo e registrava cada momento com sua máquina que oras estava pendurada ao pescoço e outras estavam atravessada pelo ombro e muitas vezes apenas em suas mãos. Estar em um estádio de jogos de futebol fazia com que ela revivesse os grandes momentos de triunfo vividos ao lado de seus melhores amigos de colégio. Sua primeira sessão de fotos em um estádio foi em meados de 2018 quando ela viajou pela Rússia fotografando os jogos mundiais na copa do mundo sediada pelo país.  

Cada vitória, cada perda, cada rosto triste e feliz na torcida fez com que Anne se apaixonasse ainda mais pelo esporte que a fazia vibrar nas arquibancadas quando ainda era jovem. Hoje, ela apenas expunha grandes cliques em exposições e galerias pelo mundo inteiro e tinha alguns livros fotográficos lançados com todos estes cliques. Anne estava na galeria apreensiva enquanto os admiradores por seu trabalho chegavam. 

Ela era famosa por usar sempre sua echarpe amarelo que nas fotos de rosto das contra capas de seus livros sempre ficava em destaque nas fotos de escala preto e branco onde apenas o amarelo da echarpe se destacava. Zyan e Lautaro se aproximaram de Anne ao vê-la em pé no final da galeria. 

  • - Oi! Você deve ser a Anne Steves. - Disse Lautaro. 

  • - Oi! Sim. Prazer. E você? 

  • - Prazer. Eu sou Lautaro e esse Zyan 

Anne com o seu charme e sorriso ergueu suas mãos para cumprimenta-los e voltou seu sorriso para Lautaro. 

  • - Sou um grande fã do seu trabalho.  

  • - Obrigado! Me lembro de já ter te visto por aqui. 

  • - Sim. Eu sempre venho quando você faz alguma exposição por aqui. 

  • - E como você está? 

  • - Eu estou bem! Vim trazê-lo para conhecer um pouco do seu trabalho. Ele é da Arábia Saudita. 

  • Que legal! E, desculpe-me a pergunta, vocês são namorados? 

Zyan pigarreou e ficou um pouco desconsertado com a pergunta enquanto Lautaro abaixou a cabeça constrangido. Anne ficou um pouco apreensiva enquanto aguardava a resposta. Ela olhou para Zyan e depois voltou o seu olhar para Lautaro até perceber que talvez havia sido um pouco inconveniente com aquele tipo de pergunta.  

  • - Eu não deveria ter perguntado isso. Não é mesmo? - Sorriu ela. 

Os dois se atrapalharam para responder andes de darem de ombros. 

  • - Não. Quer dizer... Fique tranquila. Não que eu me importe. - Sorriu Lautaro. - De ser perguntado. - Enfatizou. 

  • - Ah que bom, pois formam um belo casal. Se importa então de ser namorado? - Brincou Anne. 

  • - Não foi o que ele quis dizer. - Sorriu Zyan um pouco constrangido. 

  • - Pelo visto você não. - Sorriu Anne tentando descontrair até perceber que Zyan ficou com suas bochechas avermelhadas. 

  • - Nós nos conhecemos hoje. - Sorriu Zyan. 

  • - Então não descarte a hipótese de ter um namorado como Lautaro. Viu? Não o conheço o suficiente, mas vejo que ele é um bom partido. - Sorriu ela. - Bom, meninos, preciso dar atenção para os demais frequentadores. Fiquem à vontade. - Anne deu partida deixando que os dois ficassem a sós. 

Zyan ficou com os olhos arregalados observando Anne partir.  

  • - Ela é bonita. Não é?  

  • - Ela é linda. Aquele batom vermelho e o lápis de olho escuro faz com que ela tenha uma presença de mulher fenomenal. 

  • - E simpática. Seus cliques chegam a ser incríveis. Olha esse. - Disse ele se aproximando de uma das fotos tirada em um estádio da Rússia no jogo de Irã e Portugal onde acabou em um empate de 1 x 1. Uma das fotos tinha a foto de uma mulher Iraniana na torcida com um lindo hijab em cor vermelha que se passava pela cabeça caindo levemente aos ombros. 

  • - Que foto linda. Esses olhos. O que te dizem? 

  • - Parece que a partida estava tensa. Terminou no empate. 

  • - Como você sabe? 

  • - Está escrito aqui em baixo. Você não lê a descrição das obras nas galerias de arte? 

  • - Eu leio, mas pensei que estava conversando com um expert em futebol aqui. 

  • - Eu acompanho futebol, mas não é para tanto.  

  • - Nós fomos eliminados pela França nas oitavas de final em 2018. Foi bem triste. Foi por pouco. 4 x 3. E a Arábia? - Sorriu Lautaro. 

  • - Uma vergonha. 

  • - Por que?  

  • - Não quero falar. Me sinto humilhado conversando com um Argentino. 

  • - Qual foi? Não está na frente de nenhum Messi aqui. 

  • - Mas é claro que estou. É como se eu estivesse conversando com um Lionel Messi. 

  • - Não é para tanto. De quanto foi a vergonha? 

  • - Primeiro veio a humilhação. Rússia deu logo 5 x 0 na gente. Depois veio uma quase exaltação. Acho que tentamos jogar bem ou talvez o Uruguai tenha sido mais generoso que a Rússia e decidiu dar apenas de 1 x 0 na gente.  

  • - Sério que foi isso? - Sorriu Lautaro. - Desculpa estar rindo, mas não sabia que a Arábia era tão ruim assim na copa do mundo.  

  • - É triste.  

  • - E depois? 

  • - Depois ganhamos de 2 x 0 do Egito, mas não fomos classificados. 

  • - Pelo menos foi uma vitória.  

  • - Eu pelo menos fiquei feliz, porém triste, mas feliz. 

  • - Vocês nunca levaram uma taça para a casa. Não é? 

  • - Espero que a gente consiga vencer em casa em 2026. 

  • Verdade. Está se aproximando. Se nós não trouxermos a taça, vocês podem ficar com ela. 

  • - Obrigado, Argentina. - Sorriu Zyan. 

Enquanto eles admiravam as obras de Anne que estavam expostas pela galeria, Zyan ficava cada vez mais encantado com Lautaro e sua forma de conversar e ver o mundo. Eles tinham se conhecido há aproximadamente uma hora e eles já haviam conversado sobre tantas coisas. Enquanto Lautaro observava um dos cliques feitos por Anne onde Lionel Messi estava abaixado em campo, com semblante de decepção, no jogo que deu à Argentina um 4 x 3 com a França, Zyan passava seus olhos por todo o corpo de Lautaro tentando imaginar como seria se eles ficassem um pouco mais próximos. Ele começava a sentir por Lautaro um pouco de admiração que ele nunca tinha sentido por outro rapaz antes. Aliás, ele nunca esteve tão próximo de um homem assim na vida, como estava próximo de Lautaro naquele momento. 

  • - Estou apaixonado. - Disse Zyan 

  • - Oi?  

  • - Apaixonado. Por Nova Iorque. É Linda né? 

  • - Ah, sim! É uma cidade incrível. Desculpe-me, estava lendo a legenda da foto.  

  • Sem problemas. 

  • - O que pretende fazer mais tarde? 

  • - Sem planos. Estou nos meus últimos dias de passeio. 

  • - Sério? Você vai embora quando? 

  • - Meu voo é em dois dias. 

  • - Dois? Depois de amanhã praticamente. 

  • - Sim.  

  • - Então, precisamos fazer algo. Quer dizer, olha eu me intrometendo. Você pode estar cansado também e eu sugerindo de fazermos algo à noite por Nova Iorque. 

  • - Não se preocupe. O que você sugere? 

  • - Podemos ir a algum barzinho com bebias e uma boa música. O que você acha? 

  • - Acho uma boa. Não conheci a noite de Nova Iorque ainda. 

  • - Então vai conhecê-la comigo! 

  • - OK! Eu topo!  

  • - Onde você está ficando por aqui? 

  • - Estou ficando na região do Brooklyn Downtown 

  • - Sério? Eu moro a quatro quadras de lá. Podemos nos encontrar próximo a alguma estação de trem. 

  • - Ótimo! Você pode me passar o seu telefone. 

Zyan retirou o telefone do bolso e entregou desbloqueado nas mãos de Lautaro que anotou o número e salvou seu contato como “Laut”.  

  • - Pronto! Aqui está.  

Os dois terminaram de apreciar as fotografias de Anne Steves e ao final compraram uns de seus livros de fotografias pelo mundo. Ela autografou com carinho os livros e se despediu de Zyan e Lautaro com muito amor.  

  • - Espero vê-los de novo um dia, meninos! Se cuidem! 

Zyan e Lautaro acenaram com a cabeça e seguiram em saída à galeria pelas ruas de Nova Iorque.  

  • - Posso te fazer uma pergunta? - Perguntou Lautaro. 

  • - Sim. Claro!  

  • - Você é gay? 

  • - Que direto. - Sorriu Zyan. 

  • - Preciso ser. 

  • - Tudo bem. Não tem problema, mas sim, acho que sou gay. 

  • - Como assim “acho que sou gay”?  

  • - Eu nunca estive com outro rapaz antes, mas tenho interesse e curiosidade. Já estive com mulheres, mas não homens. Talvez bi. 

  • - E como sabe se você é bi? Digo, se nunca esteve com outros homens antes? 

  • - Boa pergunta. - Zyan deu uma pausa. - E como sei se sou gay? 

  • - A gente não sabe, a gente apenas descobre.  

  • - Você é gay então? 

  • - Sim, Zyan. Eu sou gay. 

  • - E como você se descobriu gay? 

  • - Como assim? 

  • - Desde que idade você começou a se descobrir gay? 

  • - Ah, entendi. Desde uns seis anos de idade eu já sentia algo diferente com relação a outros garotos.  

  • - Seis anos de idade? 

  • - Sim. Crianças também se apaixonam quando são mais novas. Não é uma paixão ardente de um adulto, mas é um carinho especial por alguma coleguinha ou coleguinha do colégio e é normal os pais brincarem mencionando que “ah, como é bom o meu filho ter uma namoradinha...” - Riu Lautaro. - No meu caso, eu tinha uma amiguinha que meus pais achavam que era a minha namoradinha, mas eu olhava diferente para um outro coleguinha. 

  • - E como era? 

  • - Era um olhar especial. Vontade de escrever uma cartinha com coraçãozinho. Sabe? 

  • - Sei. Mas você foi começando a entender tudo isso com qual idade? 

  • - Ah, muito mais tarde. Minha infância não foi corrompida. Se é o que você está perguntando. - Lautaro Gargalhou. 

  • - Não. Claro que não. Não me leve a mal. 

  • - Eu fui ter maldade mesmo quando comecei a entrar na adolescência. 

  • - E o que é maldade para você? Maldade? 

  • - Maldade. Ter sentimentos mais quentes. Entende? 

  • - Ah, sentimentos. Você olhar com mais vontade. Por exemplo, beijar? 

  • - Sim. Eu comecei a ter interesses em outros rapazes da minha idade ou mais velhos como dezesseis anos e por aí. 

  • - Entendi. E como foi? 

  • - Normal. Vida de adolescente normal, mas gay. Quando foi o seu primeiro beijo na boca? 

  • Foi com quatorze anos de idade. 

  • - Então... E foi em uma garota? 

  • - Foi em uma garota. 

  • - O meu foi aos dezesseis em um garoto. 

  • - E como foi? 

  • - Como foi para você? 

  • - Foi normal. 

  • - Normal como? 

  • - Diferente. Parecia uma lambida de cachorro. 

  • - Sério? 

  • - Não. Não foi tão exagerado assim, mas foi um pouco molhado demais. Sabe? 

  • - Sei. Um pouco exagerado.  

  • - E o seu? 

  • - Foi legal. 

  • - Legal? 

  • - Legal! Foi normal. Nos beijamos mais umas duas vezes depois disso, então acredito que tenha sido bom para nós dois. 

  • - E foi. 

  • - E depois?  

  • - Como assim? 

  • - Quando você transou pela primeira vez? 

  • - Ah, eu já tinha dezessete anos. Um pouco mais tarde. E você? 

  • - Um pouco mais cedo. Aos quinze. 

  • - Novo.  

  • - É, mas não quero muito falar sobre isso. - Disse Zyan desconversando se mostrando um pouco desconfortável com a conversa. 

  • - Tudo bem.  

  • - Você é um cara legal. 

  • - Obrigado. Você também. - Sorriu Lautaro. 

Os dois pararam em frente a uma das estações próximo a Times.  

  • - Bom, preciso ir. 

  • - Eu vou com você. Desço uma estação antes.  

Enquanto desciam pelas escadas de uma das estações da Times, 43nd Street, uma garota sentada com o violão chamava a atenção enquanto cantava uma das músicas da cantora britânica Birdy, Wings. A voz doce e os acordes que davam vida à canção chamou a atenção de Zyan que desacelerou os passos e parou para observá-la cantar.  

  • - O que foi? - Perguntou Lautaro. 

  • - Eu conheço essa música. 

  • - Birdy. Você gosta? 

  • - Sim. Wings é uma das minhas favoritas. Fico encantado em como Nova Iorque exala arte. Não é mesmo? 

  • - Bastante. Por todos os lados, nós temos músicos pela rua mostrando seus talentos. Foi uma surpresa encontrar alguém cantando Birdy justo por aqui. Wings é um hino de gerações. 

  • - Essa canção é realmente muito bonita.  

Enquanto Zyan ficava hipnotizado assistindo a mulher dar a vida à uma de suas canções favoritas, Lautaro aproveitou aquele momento para observar um pouco melhor os traços de Zyan. Como ele conseguia ser tão bonito? Ele se perguntava. Sua altura chegava próximo aos um metro e noventa e ele tinha uma barba desenhada e sobrancelhas com fios tão lisos e brilhosos que era de dar inveja. Seu maxilar quadrado e seu rosto árabe era o que mais chamava a atenção de Lautaro. Seus olhos castanhos claros brilhavam ao apreciar a cantora fazer o cover de Birdy na entrada da estação. 

Em sua música, a cantora Birdy evoca sentimentos de nostalgia e desejo por um passado que fora compartilhado com uma pessoa especial. Abordando o sentimento de saudade na falta que a pessoa faz nos momentos atuais, sua letra descreve momentos de pura felicidade conforme aborda também a liberdade de estar consigo mesmo onde a luz do sol e as estrelas são pano de fundo para dar vida âs lembranças que quanto mais distante ficam, se tornam cada vez mais caras. Em um dos refrãos, a canção simboliza o desejo de ir além das limitações físicas e emocionais para estar ao lado de uma nova pessoa dando se o direito e a liberdade de amar de novo, deixando de lado a intensidade de um sofrimento passado e não deixando que a repetição de um desejo sem amor se repita novamente. A canção "Wings" de "Birdy" é a primeira de seu álbum lançado em 2013. 

No quarto do hotel, enquanto se arrumava, Zyan aproveitava para falar com Khadija por chamada de vídeo. Eles acostumavam se falar todos os dias e ele sempre a atualizava a respeito de seus passeios diários por Nova Iorque.  

  • - Você parece estar mais contente. - Comentou ela. 

  • - Estou mais descansado. 

  • - Só descansado? 

  • - Sim. 

  • - Olha... Esse seu olhar me diz que você está me enganando. 

  • - Tudo bem. Não foi só isso. 

  • - O que foi, Zyan 

  • - Conheci um rapaz.  

  • - Um americano? 

  • - Não. Argentino. 

  • - Nossa! Argentino. Eu gosto da Argentina. Nunca estive lá, mas os argentinos são bonitos. Como ele é? 

  • - Ele é simpático. 

  • - Só simpático? 

  • - Não. Ele tem um bom gosto musical e tem um olhar muito bom para arte. 

  • - Como assim? 

  • - Fomos visitar uma galeria de arte próximo a Times e era de fotografias de partidas da copa do -

  • mundo de 2018 que ocorreu na Rússia. Você teria adorado. 

  • - Eu não tenho dúvidas. 

  • - Comprei este livro. Vou levar para você. - Disse ele mostrando o livro pela câmera do telefone. 

  • - São de fotos dela?  

  • - Sim.  

  • - Qual o nome? 

  • - Uma fotografa. Anne Steves 

  • - Não conheço. Vou pesquisar, mas tudo bem. Me conte, como foi? 

  • - O que? 

  • - Com o argentino. 

  • - Nós conversamos. 

  • - Nossa, Zyan. Como você é um chato!  

  • - O que foi? 


  • “Nós conversamos”. Que resposta mais horrível. Eu quero saber como foi tudo. Me conte. Como vocês se conheceram, o que vocês fizeram, do que vocês falaram. Eu quero saber de tudo. 

  • Tudo bem! Não tem ninguém perto né? 

  • Claro que não. Idiota.  


  • Foi logo quando mandei a foto para vocês, no grupo. Eu estava me aproximando de uma banda que tocava uma música na calçada e acabei tropeçando e me esbarrando nele que também estava ali. Fiz com que ele derramasse uma espécie de shake em seu próprio casaco. Fiquei envergonhado. 

Khadija gargalhou. 

  • - Foi tipo aquele filme do Nicolas Cage? Doce Novembro? - Brincou Khadija fazendo menção ao filme estrelado por Keanu Reeves em 2001. 

  • - Não. Não foi, e Doce Novembro é com Keanu Reeves.  

  • - Que seja, mas é fofo. Eu sempre imagino algo assim. E o que mais? 

  • - Estou me arrumando e vou me encontrar com ele. 

  • - Ah, um encontro. - Khadija vibrou em ligação. 

  • - Ei, calma! É segredo! 

  • - Meu irmão vai ter um encontro! Manda uma foto dele para mim. Quero conhecer. 

  • - Como vou fazer isso? Tirar o telefone do bolso e sacar uma foto? 

  • - É. Simples. “Vamos tirar uma foto?” 

  • - Não. Sem chance. 

  • - Porra, Zyan. Você não é daí. Aproveite a sua viagem. Talvez você nunca mais volte a vê-lo novamente. Você está em Nova Iorque. Tem noção que você conheceu um cara aí, nessa cidade e que daqui a alguns minutos você vai estar se encontrando com ele? É uma chance em um milhão. Ainda mais em Nova Iorque. Vai aproveitar. E me mande uma foto. 

  • - Tudo bem! 

  • - Deixe-me ver se você escolheu uma roupa legal. 

  • - Eu sempre me visto bem. 

  • - Nem sempre. Ontem você estava parecendo um turista. 

  • - Ele disse que eu tenho cara de turista.  

  • - Sério? Hoje você estava bem americano. Foi eu quem te vesti. 

  • - Mas ele disse. 

  • - Que merda! - Bufou ela. - Se afaste um pouco câmera. Deixe-me ver. 

Zyan colocou o telefone apoiado ao móvel do quarto e se afastou da câmera para que sua irmã pudesse vê-lo. 

  • - Nossa! Você está um verdadeiro gato!  

  • - Você acha? 

  • - Com certeza! Você está lindo. - Disse ela com os olhos brilhantes. 

  • - Obrigado!  

  • - Unibuk. - Disse Khadija. Unibuk (أحبك) significa “eu te amo” em árabe. Eles se tratavam assim o tempo todo. 

  • - Unibuk 

  • - Vai logo.  

  • - Tá bom!  

  • Não esquece de me mandar a foto.  

  • Tá bom!  

Zyan desligou o telefone e se apressou para terminar de se arrumar. Ele colocou o seu cordão com um pingente de bastão que estava habituado a usar e foi caminhando até a frente do espelho onde se ajeitou levemente para fazer uma checagem breve do visual. Deu uma ajeitada no cabelo e ao colocar os sapatos, caminhou até a porta e apertou os passos até o local onde tinha combinado de se encontrar com Lautaro. 

Não demorou muito para que ele avistasse Lautaro. Em pé, quase encostado em uma das paredes de uma das estações de Nova Iorque, com as mãos no bolso enquanto mexia ao telefone. Era Outono em Nova Iorque e ele estava muito bem agasalhado. Estava lindo como sempre.  

  • - Oi! - Disse Zyan. 

  • - E aí? Vamos? 

  • - Vamos!  

Os dois foram caminhando em direção a entrada da estação onde pegaram o trem para uma parte mais badalada do Brooklyn que tinha um barzinho com música ao vivo. A noite contava com a presença de uma banda nova iorquina que fazia covers aleatórios e quando eles chegaram as pessoas estavam à pista soltando as vozes.  

  • - Vou pegar uma bebida. - Disse Lautaro. - O que você quer? 

  • - O que você vai beber? 

  • - Vou te trazer uma bebida bem “Nova Iorquina”. Tudo bem? 

  • - Tudo bem. 

Enquanto Lautaro caminhava até o bar, Zyan ficou encostado em um dos pilares do local observando a banda que começava a tocar People Watching”, canção do cantor “Conan Gray. A canção lançada em 2022 é uma reflexão sobre quando nos encontramos sozinhos e nos permitimos experimentar uma nova conexão. Assim como Zyan e Lautaro, a canção transcorre a vontade de se conectar profundamente com alguém mesmo que, esteja apenas observando a pessoa. 

  • - Pronto! Trouxe para você um Red Snapper. - Disse Lautaro estendendo as mãos e entregando a ele um coquetel de bebida típico de Nova Iorque.  

  • - Parece boa! 

  • - É uma de minhas favoritas da cidade. 

  • - Obrigado por me apresentar justo a sua favorita. 

Lautaro sorriu. 

  • - A banda toca bem.  

  • - Sim. Não conheço essa canção. 

Lautaro buscou o telefone no bolso e com os dedos arrastou a bandeja de aplicativo até o campo de busca e buscou pelo aplicativo Shazam, aplicativo de identificação de músicas que é usado para identificar nomes de músicas, ilmes, publicidades e programas de televisão. 

  • - “People Watching” do cantor Conan Gray. 

  • - Você é bom nisso. 

  • - Eu sou apaixonado por músicas. 

  • - Pelo que mais você é apaixonado? 

  • - Por tantas outras coisas que eu nem saberia dizer por aqui. 

  • - Por que você não tenta? 

  • - Me deixe pensar... 

Lautaro ficou um tempo tentando pensar e parecia buscar algumas palavras na cabeça e elas não vinham. Alguns longos segundos depois, Zyan interviu. 

  • - Deixe-me te ajudar... Qual é a sua maior paixão hoje? 

  • - Minha maior paixão? Essa pergunta é um pouco complicada. Você não acha? 

  • - Eu acho difícil responder. Não fazê-la. 

  • - Você tem razão. Eu tenho menos dificuldade em fazer perguntas do que respondê-las. Na verdade, quando é para respondê-las eu sempre me esquivo. Sei lá, Mas me fale de você... Qual é a sua maior paixão hoje? 

  • - Eu gosto de desenhar. 

  • - Você desenha? 

  • - Não muito bem, mas tento. 

  • - Deixe-me ver alguns de seus desenhos.  

  • - Eu tenho vergonha. 

  • - Vergonha de mostrar?  

  • - Sim. As pessoas sentem vergonha.  

  • - Tudo bem, mas se você desenha, você precisa mostrar. 

  • - Mas eu desenho para mim. 

  • - Desenha para você? 

  • - É. Às vezes me sento e desenho. É como se eu colocasse toda a minha vida em um papel, em traços, esboçando cada sentimento. Você entende? 

Zyan fez uma cara de quem tentava entender o que Lautaro estava tentando explicar.  

  • - Eu acho que eu entendi. Você tentou fazer uma comparação com a escrita.  

  • - Basicamente isso, mas se parar para desenhar é quase a mesma coisa. 

  • - Desenhar? Você disse desenhar? 

  • - Eu disse pensar. 

  • - Não. Você disse desenhar. 

  • - Eu disse pensar. Você que entendeu errado. 

  • - Você disse pensar.  

  • - Desenhar. 

  • - Pensar. 

  • - Desenhar. 

Lautaro bufou. 

  • - Tá bom! Você disse pensar. Vai... - Zyan se deu como vencido. Ele sabia que Lautaro tinha falado desenhar, mas não queria discutir, por mais que a discussão tenha ficado gostosa. Ele apenas deixou-se vencer naquela conversa. 

Os dois ficaram em silêncio enquanto Zyan admirava Lautaro que sorria. O sorriso de Lautaro. Era um sorriso largo. Cheio. Ele não conseguia distinguir o que sentia ao ver aquele homem sorrir. Ele só queria estar ali. Admirando. 

  • - Tá. Você não tem nenhum desenho que não seja só seu? Que não seja só você? - Perguntou Zyan. 

  • - Tenho alguns. - Respondeu ele dando de ombros. 

  • - Então me mostre. 

  • - Tá bom! 

Lautaro enfiou a mão nos bolsos e buscou pelo telefone e ao desbloqueá-lo, navegou até a galeria e foi até a relação dos desenhos que ele possuía. Ele parecia buscar por algum desenho específico e demorou um tempo razoável para que Zyan ficasse admirando seu rosto que se iluminava com a luz do visor de seu telefone. Zyan prestava a atenção em tudo, menos no que ele mexia no telefone.  

  • - Está aqui. - Disse Lautaro virando o visor mostrando um de seus desenhos.  

  • - Posso? - Perguntou Zyan pegando em seu telefone. 

  • - Claro. 

Zyan observou o desenho que com alguns traços dava forma a ondas de uma praia deserta com pessoas ao fundo e um pôr do sol bem distante. Era uma praia negra que ele havia feito o sombreado da areia com os detalhes em lápis de carvão.  

  • - É lindo! - Comentou Zyan. 

  • - Tem todo um significado. Sabia? 

  • - E o que significa? 

  • - Você não quer mesmo deixar para outro dia? 

  • - Não. Eu realmente estou interessado. 

  • - Sério? 

  • - Eu falo sério. Normalmente as pessoas não se interessam em saber o que há por trás dos seus desenhos? 

  • - Para ser bem sincero? Não! Alguns desenhos sim, mas uma praia? Nunca ninguém me perguntou o que há por trás de um desenho de uma praia negra, com ondas aparentemente... - Lautaro parou para pensar e começou a buscar algumas palavras que definissem as ondas. 

  • - Calmas? - Disse Zyan pontuando.  

  • - Calmas. E algumas pessoas e com um pôr do sol ao fundo.  

  • - Dá um contraste. Não é? 

Zyan já estava impressionado com Lautaro tentando explicar o que tinha no desenho que já nem prestava mais a atenção no que ele tentava mostrar nos detalhes do rabisco. Enquanto Lautaro falava e apontava o dedo nos detalhes do desenho, Zyan se aproximava cada vez mais e conseguia sentir a fragrância amadeirada de seu perfume. Ele já estava perto demais para um beijo. Lautaro só precisava virar. Só um movimento e eles já se beijariam, mas Lautaro estava tão empolgado em explicar sobre os seus desenhos que ele se quer se importou se ele se viraria naquele momento ou depois. Ele simplesmente ficou ali. Próximo, contendo a respiração para que Lautaro não sentisse que ele estava próximo demais e ficasse talvez desajeitado. 

  • - E é isso. - Disse Lautaro sorrindo. 

  • - No que você pensou quando desenhava? 

Naquele momento Lautaro se inclinou levemente, mas não o bastante para que o beijo acontecesse. Ele simplesmente se inclinou de uma forma que conseguisse compreender um pouco melhor o que Zyan estava perguntando, mas não percebeu que ali estava ele esperando apenas por um beijo 

  • - No que eu pensei? - Lautaro começou a pensar e buscar mais e mais palavras. Ele tinha essa mania de sempre buscar algumas palavras antes de usá-las sempre que era perguntado a respeito de alguma coisa e isso fazia com que Zyan sempre conseguisse completá-las antes mesmo de ele às falar. - Eu estava em um dia um pouco complicado e me sentia furioso. E não gosto quando eu fico assim. Então me sentei e comecei a desenhar. Saiu essa praia.  

  • - Você é lindo. - Foi a única coisa que Zyan conseguiu responder após a explicação de Lautaro a respeito do que ele pensava quando desenhou a praia. 

Lautaro continuou com os olhos fixos na tela do telefone buscando mais alguns desenhos e deu apenas um sorriso. Um sorriso tímido. Ser chamado de lindo? Que bobagem. Não que ele não estivesse acostumado com isso. Ele só não esperava ser chamado de lindo. Não naquele momento. E por um árabe daqueles. Zyan permaneceu em silêncio apenas esperando que ele o visse ali. Implorando por um beijo. Bastava ele se virar e o beijo aconteceria. Sua respiração já estava contida o suficiente, mas não suficiente para que Lautaro a sentisse.  

  • - Posso ver mais um desenho? - Pediu Zyan. Dessa vez um pouco mais próximo. O movimento de seus lábios fez com o que sussurro ficasse mais envolvente no pé dos seus ouvidos. 

Lautaro que estava ainda buscando alguns desenhos em sua galeria apenas deixou sua atenção ser interrompida pela pergunta de Zyan e por um segundo parou para prestar a atenção no quão próximo ele estava. Foi quando ele apenas se virou. Foi nesse momento. Foi nesse momento que o beijo aconteceu. Foi uma coisa tão de filme que se quer eles conseguiriam explicar. Ao fundo, a banda tocava You’re Gonna Go Far” do cantor Nohan Kahan. A canção que já estava em seu primeiro refrão foi lançada em 2022 e em sua letra, o cantor nos traz a narrativa de alguém que está apenas cansado das atitudes do mundo ao seu redor e evita dirigir a noite com o sentimento de alguém que está prestes a partir. 

Foi como se o mundo girasse e eles ficassem apenas parados ali. Era como se todas as coisas ao seu redor se movimentassem e aquele beijo ficasse ali. Intacto. Em um momento só deles. Em uma dimensão em que apenas eles existiam. Foi o primeiro beijo de Zyan e ele podia sentir correr em suas veias o sentimento de estar apaixonado por alguém. Seus olhos se abriram e era Lautaro em sua frente.  

  • - Uau. Que beijo. - Disse Lautaro. 

  • - Desculpa. Não resisti. - Disse Zyan abaixando a cabeça e colocando as mãos no cabelo. 

  • - Minha bebida. - Disse Lautaro apontando para o casaco de Zyan que já estava enxarcado. Zyan se quer pôde sentir a bebida derramando em seu casaco. Eles se aproximaram tanto que a bebida de Lautaro se derramou por completo em todo o seu casaco.  

  • - Eu te pago outra, mas você precisa escolher. Quero outra estilo Nova Iorque. 

  • - Tudo bem. - Disse Lautaro sorrindo e caminhando em direção ao bar. 

Lautaro caminhou até o bar e tentando não olhar para trás, deu apenas uma olhada que seu olhar se encontrou diretamente com o de Zyan que não tirava os olhos dele por um minuto. Ele ficou encostado em um dos pilares do bar que dava de frente para a pista em frente ao palco em que a banda tocava. Lautaro se apoiou ao bar para pedir mais uma bebida enquanto Zyan olhava em direção a banda que iniciava uma nova música. Dessa vez, mais uma de Noah Kahan, Forever.  

  • - Trouxe mais um Red Snapper para você. - Disse Lautaro sorridente. 

  • - Obrigado! 

  • - Você gostou? 

  • - Depende. 

  • - Do que? 

  • - Do que você se refere. 

  • - Eu me referi à bebida. 

  • - Mas poderia ter se referido ao beijo também. 

  • - Ah, para o seu primeiro beijo, tudo bem. Não é? 

  • - O meu primeiro beijo em um homem. 

  • - O primeiro beijo gay no topo de um bar em Nova Iorque. Olha... Dá para fazer alguma coisa isso. 

Zyan sorriu. 

  • - Eu vou deixar por sua conta.  

  • - O que? 

  • - Se fosse para você desenhar agora. O que você faria? Digo. Com esse beijo. Com esse momento.  

  • - Se fosse para eu desenhar? Eu te beijaria. 

  • - E se fosse para desenhar o nosso beijo? Como você desenharia? 

  • - Não sei, Zyan. Que pergunta difícil.  

  • - Tenta. 

  • - Não tenho papel e caneta aqui.  

  • - Vamos conseguir. 

  • - Espera! Tenho uma ideia! - Disse Lautaro erguendo suas mãos para que Zyan segurasse suas bebidas e foi caminhando até os caixas da entrada do bar onde ele pediu papel e uma folha do bloco de notas do rapaz que ficava atrás do vidro do caixa.  

  • - O que você foi fazer?  

  • - Trouxe isso. - Disse ele mostrando a folha do bloco de notas e uma caneta. 

  • - Onde você arrumou? 

  • - No caixa. - Disse Lautaro  

  • - Deixa eu ver. - Disse Zyan puxando o papel das mãos de Lautaro.  

  • - Não. Me deixa desenhar.  

  • - Me dá aqui.  

  • - Para! 

Zyan e Lautaro estavam fazendo charme um com o outro por causa de uma folha de bloco de notas. A folha foi arrancada de uma agenda que era do ano de 2023. Para ser mais específico de 09 e 10 de Setembro de 2023, véspera do aniversário do ataque feito às torres gêmeas. 

  • - Por que ele deu essa folha para a gente? - Perguntou Zyan que se atentou à data de 09 e 10 de Setembro. Para ele, aquilo havia sido uma mensagem muito direta de que ele talvez não fosse bem vindo ali.  

  • - Oh, meu Deus! Desculpe! Eu não me atentei a isso. - Disse Lautaro um pouco desapontado com o fato de que a data era véspera do aniversário dos atentados às torres gêmeas em Nova Iorque. 

  • - Eu acho que talvez eu não seja bem vindo aqui.  

  • - Claro que não. Por que ele faria isso? Talvez nem ele tenha notado. 

  • - Eu pareço uma ameaça para vocês? 

  • - Zyan. 

  • - Eu pareço. Não pareço? 

  • - Não para mim. Por que ele está nos olhando?  

  • - Zyan, acho que você pode estar paranoico. 

  • - Talvez eu apresente uma ameaça para vocês. 

  • - Eu sei que é difícil para toda a população americana lidar com tudo que aconteceu em 11 de Setembro e que muitos sim tem receios e preconceitos com árabes e muçulmanos. É assim com a gente também. Nós somos latinos.  

  • - Eu sei, mas o seu povo não sofre porque um de nós idealizou um atentado ao país deles.  

  • - Desculpa.  

  • - Eu preciso ir. Tudo bem? 

  • - Eu vou com você. 

  • - Não. Não precisa. 

Zyan se virou e foi andando até o caixa para pagar a conta e se quer se virou para se despedir de Lautaro que ficou parado no mesmo lugar o observando e na esperança de que ele pelo menos se virasse ou desistisse de seguir em frente e voltasse. Lautaro perdeu as esperanças assim que ele cruzou o corredor e desceu as escadas do bar. Lá de cima, Lautaro tentou observar as calçadas lá em baixo para ver se conseguia vê-lo. Demorou alguns segundos até que Lautaro o identificasse no meio da multidão. Zyan seguiu até a esquina onde ele se virou e provavelmente entrou em uma das estações voltando para casa. 

Lautaro olhou para a folha de papel e na sequência voltou seus olhos para o palco. A banda começava a tocar “All I Want” um dos maiores sucessos da banda “Kodaline”. Enquanto sentado com a folha e caneta em mãos, Lautaro não sabia o que fazer. Ele pensou em enviar uma mensagem para Zyan, mas tampouco sabia o que escrever e quais palavras usar. Papel em branco. Caneta em mãos. O beijo que nunca aconteceu poderia ter acontecido e por nunca ter acontecido, ele conseguiu imaginar e só por ele ter imaginado, ele conseguiria facilmente esboçar todo o seu pensamento e seu sentimento em uma folha de papel. Foi quando ele dobrou a folha e colocou ao bolso. Levando a caneta até o caixa, ele pediu que o atendente somasse a conta e a pagou. Então, ele agradeceu e desceu as escadas assim como Zyan. 

No dia seguinte, Lautaro acordou um pouco depois das onze da manhã. Ele estava acostumado a acordar por volta das sete da manhã e fazia alguns exercícios matinais. O motivo pelo qual ele havia acordado tão tarde naquele dia era o desenho que estava à sua frente. Assim que ele chegou em casa na noite anterior, ele se dedicou a desenhar o beijo pedido por Zyan. Seus olhos se irritavam facilmente com a claridade sempre que ele acordava pelas manhãs, mas naquele dia, ele parecia não se importar muito com a irritabilidade de seus olhos. Foi então que ele agarrou o seu telefone e buscou pelo contato de Zyan. 

LAUTARO está digitando uma mensagem... 

LAUTARO: Oi!  

LAUTARO: Bom dia! 

LAUTARO: Está melhor? 

Zyan está online. 

Zyan está digitando uma mensagem... 

Zyan: Bom dia! 

Zyan: Tudo bem! 

Zyan: E você? 

LAUTARO: Estou bem também. 

Zyan: OK. 

Ler aquele “OK” de Zyan foi algo que Lautaro não esperava. Ele queria quebrar o gelo e mostrar para Zyan que por mais que os americanos possam ter receios dos árabes e muçulmanos pela marca que um atentado deixou no país, ele não deveria se sentir culpado por isso ou deixar que uma pequena parcela o afetasse tanto quanto o afetou naquela noite.  

LAUTARO: O que você vai fazer hoje? 

Zyan: Estou pensando em dar uma volta pelo Central Park. 

LAUTARO: Quero te levar em um lugar.  

LAUTARO: Você pode me encontrar às três? 

Zyan: Tudo bem. 

Zyan: Me passa o endereço. 

LAUTARO:  Pode me encontrar na estação de metrô World Trade Center às duas e quarenta e cinco. 

LAUTARO: Tudo bem? 

Zyan: OK! Estarei lá às duas e trinta. 

LAUTARO: Te vejo mais tarde. 

Quando Lautaro mandou a última mensagem, Zyan já estava se preparando para ir ao Central Park. Ao sair do hotel, ele foi caminhando até uma das estações que o levaria até o Central Park e lá ele ficou algumas horas se dedicando a conhecer alguns lugares especiais como The Lake e aproveitou para tirar uma foto também no famoso mosaico preto e branco criado com a palavra “Imagine” em homenagem ao cantor John Lennon. Ao tirar a foto, ele compartilhou com seus irmãos no grupo do WhatsApp. Khadija logo curtiu a foto e comentou enquanto Tariq apenas visualizava. Tariq não era de falar muito, mas ele sempre ficava feliz pelas conquistas do irmão. 

Já era quase duas horas e ele precisava se apressar para se encontrar logo com Lautaro. Ele ainda estava pensando a respeito do que havia acontecido na noite anterior e se as pessoas o viam como uma ameaça. Isso fazia com que ele ficasse um pouco decepcionado e ao mesmo tempo preocupado com medo de sofrer algum tipo de repulsa na rua. Enfim, ele já estava em uma das entradas da estação World Trade Center. Parado, ele ficou observando os ponteiros do relógio que corriam até que Lautaro chegou por trás dele e apertou seus ombros. 

  • - Oi! Chegou cedo! 

  • - Ah, sim! Tudo bem? 

  • - Tudo bem e você? Está melhor? 

  • - Estou melhor. Me desculpe por ontem. 

  • - Não precisa se desculpar.  

  • - Preciso sim. Eu deveria ter sido menos reativo naquele momento. 

  • - Você agiu como você é. Fique tranquilo. 

  • - Obrigado! - Zyan assentiu com a cabeça e sorriu. 

  • - Vem! Quero te levar em um lugar.  - Disse Lautaro estendendo as mãos para que Zyan entrelaçasse seus dedos nos dele.  

Zyan fez uma cara de espanto. Ele não estava acostumado com aquela demonstração de afeto em público em seu país. 

  • - Aqui? Assim? - Perguntou Zyan estranhando o comportamento de Lautaro que voltou com suas mãos para o bolso. 

  • - Tudo bem! Não se preocupe. - Sorriu ele. 

Os dois foram caminhando até o Memorial e Museu Nacional do 11 de Setembro. Enquanto caminhava, Zyan ficava em silêncio observando as pessoas ao seu redor e o espaço deixado pelas torres que foram destruídas pelo atentado. Era um lugar triste que trazia uma história que marcou não só uma geração como marcará todas as gerações futuras e futuras. Foi um acontecimento inesquecível para o mundo inteiro e principalmente para os Estados Unidos que sofreu bastante não só com a perda de vidas, mas também com a economia do país.  

Lautaro e Zyan caminharam até o memorial onde Zyan ficou emocionado ao ver tantos nomes homenageados das vítimas do ataque. Era um lugar de silêncio onde vidas haviam sido perdidas onde haviam aproximadamente dois mil e setenta e sete nomes escritos espalhados nas placas em frente às piscinas que faziam com que águas caíssem em cascatas. 

  • - Quero que você veja uma coisa. - Disse Lautaro. 

  • - O que?  

  • - Esse nome. 

  • - Edward? 

  • - É. É o nome do meu pai. Sempre que venho aqui me lembro dele. 

  • - O que houve com o seu pai? 

  • - Meu pai era bombeiro, ele perdeu a vida em um incêndio em Buenos Aires na Argentina. Tentando salvar vidas. E estar aqui pelo menos uma vez ao mês me traz uma conexão não só com a minha vida, mas como também com o meu passado. Eu sinto falta do meu pai. 

  • - Eu sinto muito. 

  • - Tudo bem. 

  • - E quanto à sua mãe? 

  • - Minha mãe casou-se novamente e continua vivendo na Argentina, porém não mais em Buenos Aires. Ela vive em uma cidade ao redor que se chama Córdoba. 

  • - E você tem um bom relacionamento com ela? 

  • - Sim. Ela sempre vem me visitar pelo menos duas vezes ao ano. Agora no natal ela deve vir passar uns dias comigo.  

  • - Que legal. Você tem irmãos? 

  • - Sou filho único. E você? 

  • - Tenho dois irmãos. Tariq e Khadija. Tariq é dois anos mais velho que eu e minha irmã tem apenas dezessete anos. - Disse ele pegando o telefone e mostrando uma foto dos três juntos. 

  • - Eles são lindos! Seu irmão parece com você. 

  • - Algumas pessoas dizem isso. Perguntam se nós somos gêmeos. - Zyan deu de ombros. 

  • - Você se acha parecido com ele? 

  • - Definitivamente não.  

  • - Eu gosto dos seus olhos. Os olhos dos seus irmãos são mais escuros. 

  • - Sim. Eles são. Acho que o meu é um pouco mais claro. 

  • - São lindos, Zyan. 

  • - Obrigado! Você me deixa sem graça. 

  • - Não precisa. 

  • - Mas eu fico. Eu nunca recebi tantos elogios assim de um cara como você. 

  • - Um cara como eu? 

  • - É.  

  • - E como é ser um cara como eu? 

  • - Você é engraçado. É conversador. Desenha. Sabe conversar de todos os assuntos possíveis. Tem um beijo bom. E tem uma pequena cicatriz em baixo do queixo que te deixa ainda mais lindo. 

  • - Ah, a minha cicatriz. Eu sempre achei que ela fosse discreta. Você percebeu? Ela é do tamanho de um grão de arroz. 

  • - Não tão pequena assim. 

  • - Ah, qual foi! É sim!  

  • - O que aconteceu aí? 

  • - Quando eu tinha oito anos de idade eu fui patinar no gelo com o meu pai e ele soltou as minhas mãos e eu acabei escorregando e caindo e bati justo com o queixo no chão. Deu esse pequeno corte. 

  • - É lindo. Dá um charme no seu rosto.  

  • - Nunca ninguém me falou isso. Sabia? 

  • - Então eu estou sendo o primeiro? 

  • - Sim. Você está sendo o primeiro. A gente sempre tem um primeiro para muitas coisas nessa vida.  

  • - Você foi o meu primeiro ontem.  

  • - Por isso que eu disse isso. 

  • - E eu estou sendo o seu primeiro para comentar sobre uma cicatriz no seu queixo. 

  • - Não. Você foi o primeiro que me pediu um desenho no meio de um bar. 

  • - Ah, também. Mais o que? 

  • - E o primeiro que eu trouxe até ao memorial. 

  • - Mais o que? 

  • - Por que se importa tanto? 

  • - É gostoso de ouvir.  

  • - Como você sabe? 

  • - O que? 

  • - Que é gostoso de ouvir. Você já tinha escutado isso de outras pessoas antes? 

  • - Foi modo de falar.  

  • - Não. Não foi modo de falar. Você está se complicando. 

  • - Você acha? 

  • - Eu acho.  

  • - Você acha que eu minto? 

  • - Eu não disse que você mente. - Riu Lautaro. 

  • - Eu gosto do seu sorriso. 

  • - Para! 

  • - É sério! 

  • - Do que mais? 

  • - O que? 

  • - Você gosta. 

  • - Ah... Então você também gosta? 

  • - De ouvir? Quem não gosta? 

  • - OK.  

Os dois ficaram em silêncio. 

  • - Eu estou esperando. - Disse Lautaro sorrindo. 

  • - Eu não sou bom com isso. 

  • - Ah, qual foi? Claro que é. É só olhar para mim. O que mais você gosta em mim? 

Zyan gargalhou. 

  • - Você está fincando envergonhado. - Disse Lautaro notando a vermelhidão nas bochechas de Zyan que abaixou levemente a cabeça mostrando timidez. 

Lautaro se aproximou e colocou suas mãos no zíper do casaco de Zyan e o rodopiou com os dedos como se estivesse brincando com o pingente responsável por abrir o zíper da jaqueta. Zyan levantou a cabeça e seu olhar se cruzou com o de Lautaro.  

  • - Não faz isso.  

  • - O que? 

  • - Isso. 

  • - Isso? - Perguntou Lautaro rodopiando o pingente do zíper novamente. 

  • - Sim. Você está perto demais. Eu vou te beijar. 

  • - E isso é um problema? 

  • - Talvez seja.  

  • - Depende. Para quem? 

  • - É para você? 

  • - Não. Para mim não. 

Zyan desta vez não se preocupou com as pessoas ao seu redor. Sem hesitar, ele se aproximou de Lautaro e o puxou para perto dando um beijo em seus lábios.  

  • - Ei, Zyan 

  • - Ei, Laut. 

  • - Ontem quando você saiu daquele bar, você comentou sobre parecer uma ameaça para as pessoas aqui em Nova Iorque. Eu queria que você soubesse que você nunca pareceu uma ameaça para mim.  

  • - Eu não sei o que te dizer.  

  • - Olha ali. Uma criancinha passando com os pais. Está te dando um tchau. Você não vê? Ameaça? Você só pode estar brincando. 

Zyan olhou para o lado e um casal passava com uma criancinha que acenava com as mãos para o casal que estava abraçado ao lado do café.  

  • - Eu queria que fosse assim no meu país também. 

  • - Eu não sabia que era tão complicado assim na Arábia. Na verdade, já tinha lido sobre a dificuldade em ser gay em países da Arábia, Iraque, Irã e Indonésia, mas você sabe como é quando estamos apenas inseridos na nossa bolha a gente não olha para o lado de fora. 

  • - Eu não sei. Eu nunca estive em uma bolha segura. 

A fala de Zyan fez com que Lautaro pensasse a respeito do conceito bolha. Estar em uma bolha significa estar em segurança em relação a quaisquer temas sociais que são delicados em uma outra sociedade. Quando Lautaro comentou a respeito de não olhar para fora de sua própria bolha era que para ele, em Nova Iorque ou Argentina, era completamente “seguro” ser gay. Para Zyan, na Arábia, em sua própria bolha, ele não sentia segurança e mesmo assim não fazia com que ele deixasse de olhar para fora de si mesmo. Enquanto Lautaro entrelaçava seus dedos nas mãos de Zyan, a manga de seu casaco subiu levemente e Lautaro viu algumas cicatrizes em seu pulso.  

  • - O que é isso? - Perguntou Lautaro. 

  • - Não é nada. - Respondeu Zyan tentando disfarçar. 

  • - São cicatrizes. O que são? 

  • - Eu não quero falar sobre isso. 

  • - Você pode me contar tudo. 

Zyan pensou um pouco antes de começar a falar. 

  • - Às vezes é difícil estar lá. Você sabe?  

  • - Não. Não sei como você se sente. Aliás, nunca me senti assim.  

  • - É horrível. Todos os dias eu acordo e muitas vezes acabo me machucando por causa dos meus próprios sentimentos. 

  • - E essas cicatrizes você mesmo as fez? 

  • - Eu não gosto de lembrar, mas eu tentei cortar meus pulsos há dois anos. 

  • - Zyan, isso é sério? 

  • - Desculpe-me. 

  • - Olha para mim. - Disse Lautaro fazendo com que os olhos de Zyan se fixasse aos seus. - Me prometa uma coisa? Prometa que você nunca mais vai fazer isso com você mesmo? As pessoas no seu país já machucam muito pessoas como a gente. Não podemos nos machucar assim também.  

  • - Eu sei, mas é que... 

  • - Me promete. 

  • - Eu prometo. 

  • - Me promete mesmo? 

  • - Prometo! 

  • - Você é um cara incrível. Não pode se machucar assim e nem deixar que as pessoas te machuquem desta forma. Quero te levar em um outro lugar. - Disse Lautaro sorrindo. 

  • - Onde? 

  • - 89 East 42nd Street. É um local que é visitado por todos os gays do mundo inteiro. Acho que fica em uma espécie de glossário gay pela internet. 

  • - Existe isso? 

  • - Eu sei lá. Eu estou brincando. - Lautaro Gargalhou. 

  • - Mas ao que você se refere? 

  • - É bom para tirar algumas fotos. Vamos. É o seu último dia em Nova Iorque. 

Lautaro e Zyan foram até o terminal onde a icônica cena do episódio piloto da série Gossip Girl foi filmada, onde Blake Lively fez a sua primeira aparição como Serena Van Der WoodsenLogo depois, eles pararam em um café ao lado da estação onde tomaram um chocolate quente e comeram um muffin. Foi um programa típico de turista que Zyan adorou fazê-lo ao lado de Lautaro que estava bem empolgado em mostrar toda a cidade para o turista árabe. 

  • - Que horas é o seu voo amanhã? 

  • - Às dez. 

  • - Eu não queria que você fosse embora. 

  • - Eu também não queria partir. 

  • - Vamos continuar nos falando? 

  • - É o que você quer? 

  • - Sim. É o que eu quero. 

  • - Então vamos! 

Os dois ficaram em silêncio. Lautaro sempre ficava buscando algumas palavras na cabeça antes de falar e Zyan misteriosamente já sabia quando ele ficava em silêncio buscando algumas palavras querendo dizê-las em seguida. 

  • - Eu conheço esse olhar. No que você está pensando? - Perguntou Zyan. 

  • - Eu me apaixonei por você. 

  • - Por mim? 

  • - Sim. Por você. 

  • - Justo por mim?  

  • - Você parece surpreso. 

  • - Sei lá. Estamos em Nova Iorque. Tem tanta gente por aqui e você foi se apaixonar justo por mim? 

  • - A gente não escolhe. Não é? 

  • - Não sei. Eu nunca me apaixonei antes, mas eu escolheria se eu fosse me apaixonar. 

  • - Ah... Você escolheria? 

  • - Escolheria. Como estou escolhendo agora.  

  • - Então você está me escolhendo? 

  • - Como sabe que eu estou te escolhendo? 

  • - Eu não sei. Eu só disse que está. Não está? 

  • - Eu estou te escolhendo. 

  • - E como a gente faz agora? 

  • - Vamos levando. 

  • - Levando? 

  • - Levando!  

  • - Eu volto!  

  • - Tem certeza? 

  • - Prometo! 

  • - Quando? 

  • - Não sei. Em breve. 

  • - Em breve? 

  • - É. Em breve.  

  • - Quanto tempo é “Em breve”? 

  • - Eu não sei. Você vai me esperar? 

  • - O que você acha? 

  • - Eu estou te perguntando. 

  • - Sim. Eu vou te esperar. 

E foi com esse diálogo que Lautaro e Zyan se despediram. Com confissões de estarem envolvidos um com o outro e na esperança de se encontrarem novamente. Zyan partiu para a estação com a promessa de que voltaria um dia para Nova Iorque e que Lautaro o estaria esperando ali. Bem ali. Do jeitinho que ele deixou e da forma que ele havia o conhecido. Com aquele casaco xadrez azulado típico de Outono de Nova Iorque. Ao fundo, tocava uma das canções da banda norte americana Cigarettes Ater Sex, Apocalypse. 

Aquela foi de longe uma das melhores viagens de Zyan. Enquanto ele arrumava suas malas para ir para o aeroporto, ele pensava no quando gostaria de ficar ali em Nova Iorque junto a Lautaro para sempre. Era um sentimento diferente que ele nunca tinha vivido antes. Um sentimento único e que certa forma o fazia se sentir melhor consigo mesmo. Com certeza, ele voltaria para casa um homem muito mais realizado.

[PARTE II] 09.12.24

[PARTE III] 14.12.24

[PARTE IV] 21.12.24

[PARTE V] 24.12.24

[PARTE VI] 01.01.25

[PARTE VII] 10.01.25

[PARTE VIII] 15.01.25

[PARTE IX] 20.01.25

[FINAL] 25.01.25

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