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Ao chegar no aeroporto de Riade, lá estava Khadija ansiosa aguardando Zyan saltar do avião. Ela era o tipo de irmã que admirava tanto o irmão que se pudesse estaria ao lado dele o tempo inteiro. Era como se eles fossem carne e unha. Inseparáveis. Ao vê-lo passar pelos portões de desembarque, ela caminhou em sua direção a ele de forma tão discreta que sua vontade era de correr e pular em seu abraço como nas adaptações cinematográficas dos contos de Nicholas Sparks.
Mas infelizmente ali, por ser um lugar completamente conservador, ela apenas podia caminhar. Um pouco aflita e olhando para os lados, enquanto vestia um hijab de cor verde bem clarinho, passo a passo, ela caminhou em direção ao seu irmão.
- Oi! - Disse Khadija sorrindo se segurando para não pular em cima do irmão após fazer a sua saudação em público.
- Oi! - Respondeu ele tentando conter o sorriso. - Você está linda.
- Obrigada! E você está muito americano. Olha para você!
- Obrigado!
- E aí, como foi? Que saudade!
- Foi ótimo!
- Beijou?
- Khadija...
- Ah, meu Deus! Beijou! Você beijou!
- Beijei.
- Como foi?
- Aqui não.
- Aqui sim.
- Foi bom!
- Bom?
- Foi ótimo!
- Ah... que ótimo!
- Estou apaixonado.
- Por Deus, Zyan. Você está falando sério?
- Estou.
- Vamos ter que dar um jeito nisso.
- Não agora. Vamos falar de você. Como você está?
- Estou bem. Papai e mamãe estão te esperando para que nós possamos almoçar com os pais de Mourad.
- Mas já é nesse final de semana?
- Eu também fiquei assustada, mas sim, é esse final de semana. Eles já estão na cidade.
- E quando iremos nos mudar para Tabuque?
- Acredito que na próxima semana.
- Por que estão correndo tanto?
Khadija ficou em silêncio.
- Khadija, por que estão correndo tanto?
- Eles disseram que Mourad quer ter um filho até ano que vem.
- O que? Isso é insano!
- Eu sei, mas por favor, não se meta.
Zyan mordeu os lábios pela irmã e sentiu sua temperatura subir. Ele sentia raiva pela forma com a qual ele e muitas vezes seus irmãos eram tratados por seus pais devido aos costumes do país.
- Tudo bem. Vamos para casa.
- Eu estou feliz por você. Me conte como é Nova Iorque?
Zyan e Khadija foram andando até o estacionamento do aeroporto. Enquanto eles caminhavam, Zyan compartilhava sobre suas experiências em Nova Iorque e compartilhava todas as coisas que tinha vivido sem nenhum pudor com sua confidente e irmã. Khadija sempre foi uma menina de cabeça aberta, desde muito mais nova, ela se sentia diferente das outras meninas de Riade.
Escondida dos pais, ela acostumava assistir séries e filmes americanos e por consequência teve muito do seu comportamento moldado por conta de tudo que assistia. Ela era a típica menina que se identificava com personagens como Regina George de Meninas Malvadas e a lendária Jenifer Check de Garota Infernal. Embora ela se identificasse com essas personagens ela não agia como tal. Ela era uma garota bem descomplicada, de áurea boa e sensível. Khadija se recusava a se identificar com personagens como Cady Heron ou a própria Anita "Needy" Lesnicki que são completamente o oposto das duas citadas anteriormente.
Seu maior receio estava para acontecer em algumas horas. Ela seria apresentada para a família de Mourad e teria seu casamento arranjado. Embora tenha visto Mourad por fotos, ela não o conhecia pessoalmente e já iria se casar. Era pior do que usar Tinder. Aplicativo que foi proibido a utilização dela pelos próprios pais. Khadija era monitorada vinte e quatro horas por dia e seu único meio de comunicação que não passava por monitoria dos pais era o grupo com os irmãos Zyan e Tariq.
- Como está o Nizar com isso tudo?
- Com a história do casamento?
- Sim.
Khadija ficou em silêncio.
- Ah, meu Deus! Vai me dizer que ele não sabe.
- Não. Ele não sabe, Zyan. Ninguém sabia até mamãe e papai contarem na semana passada.
- Você gosta dele. Não é?
- Eu o amo. Se eu pudesse eu fugiria com ele.
- E por que não foge?
- Você diz como se fosse fácil, né?
- É fácil. Junta algumas coisas, rouba dinheiro do papai e as joias da mamãe e foge de casa. Não é assim que fazem nos filmes.
- É assim que fazem nos filmes, Zyan, mas na vida real eu acredito que isso não daria muito certo.
- Por que não tenta? - Disse ele em tom de brincadeira.
OK. Vou tentar. Você seria meu cumplice com certeza.
- Você tem dúvidas?
- Uhibuk.
- Uhibuk.
- Você precisa contar para ele. Você já pensou nisso?
- Não cheguei a pensar nisso ainda. Preciso conhecer Mourad. Talvez ele seja assim como você, um gay que só precisa de uma mulher para faixada.
- Eu não sou assim.
- Mas você é gay. Teve sorte ainda de não se meter em um casamento.
Khadija e Nizar se conheceram quando tinham onze anos de idade. Eles meio que eram o primeiro amor um do outro e isso ninguém conseguiria mudar. Nem mesmo Mourad. Eles tinham um sentimento puro um pelo o outro que se assimilava o primeiro amor de uma adolescente, ele já tinha dito a ela o quanto a amava e queria casar com ela, mas sabia que sua família tinha outros planos e estavam além de considera-lo como um pretendente para casar-se com Khadija. Ele já tinha sugerido a ela de esperar alguns anos e juntos eles fugirem para um lugar bem afastado de Riade e ela tinha gostado da ideia, mas não foi nada semelhante ao que Zyan tinha sugerido há alguns minutos atrás. A ideia de Zyan foi um pouco mais radical e completamente rejeitada pela irmã já que envolvia cometer alguns crimes que ela jamais teria pensado em fazer até aquele momento.
Nizar tinha uma vida diferente de Zyan, Tariq e Khadija. Ele era de família humilde e precisou se dedicar muito na vida para que pudesse conseguir ser alguém. Com dezenove anos, ele se dedicava em Riade como Guia Turístico. Era assim que ele conseguia ganhar a vida. Ele usava vários aplicativos para vender seus serviços de guias aos turistas que viajavam para a cidade. Ele vendia experiências e guias completos não só em passeios pela cidade, como experiências fotográficas e também visitas a vários bares locais em uma noite de Riade. Acostumado a usar o aplicativo de viagens Airbnb ele era um dos mais bem avaliados guias de Riade e o mais famoso e referência de todos que tentavam seguir o mesmo caminho que ele.
Para a família de Khadija, casá-la com um guia turístico não traria boas referências para a família. Eles precisavam manter o legado da família prosperando a sua riqueza, assim como fizeram com Tariq, Farah sentia que sua família precisava seguir os propósitos do islã, religião seguida por ele, o patriarca da família. Pelo menos era assim que ele e Ghaith pensavam.
- Mamãe está querendo que eu me mude para Tabuque.
- O que? Como assim?
- Isso foi uma decisão da família de Mourad. É lá que ele tem as terras da família.
- E quanto à Riad?
- Vou ter que deixar tudo para trás. Inclusive o Nizar.
- Você precisa conversar com ele.
- Eu sei, mas vai ser difícil.
- Kadhija, eu sei que vai ser difícil, mas você não pode deixar de conversar com ele só porque vai ser complicado para você. E quanto a ele?
- Eu sei, Zyan, mas é que...
- O que?
- Nós nunca ficamos.
- Espera! Você nunca beijou o Nizar?
- Não. Ele me respeita.
- Eu achava que você já tinha o beijado.
- Eu não quebro as regras com você.
- Ei, como assim?
- Você em Nova Iorque.
- Eu sei. Foi errado, mas eu nem pensei.
- Isso não foi um ataque.
- Eu sei, mas isso me deixa feliz porque me faz lembrar do beijo.
- Você está pior que eu com o Nizar.
- Você precisa contar para ele.
- Eu vou contar. Para!
Kadhija e Zyan já estavam chegando em casa e seus pais já estavam se preparando para o almoço enquanto aguardavam a família de Mourad chegar. Tariq estava com Rabie e seu sobrinho de dois anos na sala. Ele estava ansioso para ouvir a respeito da viagem para Nova Iorque e principalmente saber como são os americanos. Ele tinha uma mania de pensar que todos os americanos eram “escrotos” e que nenhum deles eram confiáveis. Tariq dizia sempre como um bordão “Foda-se os americanos” enquanto Zyan e Khadija eram apaixonados pela cultura americana.
- E ai, como foi em Nova Iorque?
- Foi ótimo!
- Ótimo?
- Sim, foi bom! Eu mandei algumas fotos para vocês. Você não viu?
- Eu vi algumas. Vi aquela rua iluminada e depois o memorial do onze de Setembro.
- Fui também à uma galeria e trouxe um presente para você. - Disse Zyan retirando um dos livros de fotografia de Anne Steves da mochila e o entregando em mãos.
- Ah, um livro de fotografias. - Riu Tariq.
- Para você colocar na sua sala.
- Vai ser bem útil. Olha a coisa de viado que o seu irmão me deu, Khadija.
- Para, Tariq de implicar com o seu irmão. - Disse Rabie. - Não vê que ele está tentando te presentear.
- Ele nem gosta dessas coisas. - Respondeu Khadija. - Mas deixa na sala. Fica bonito.
- Isso é coisa de americano. - Disse Tariq.
- Para com isso, Tariq. Você precisa parar de pensar que ter um pouquinho de gosto para decoração e arte é coisa de viado e americano. - Resmungou Khadija.
- As fotos são boas. - Disse Rabie folheando o livro. - Ela é de Chicago. Como a conheceu?
Zyan esperava tudo. Menos que fosse questionado como havia conhecido Anne Steves. Ele havia sido convidado por Lautaro e não havia pensado em nada sobre como responder perguntas feitas como aquelas associadas aos lugares em que ele foi com Lautaro. O que eu vou dizer? Ele se perguntou em pensamento enquanto Tariq, Rabie e Khadija o olhavam em silêncio. Por longos segundos o silêncio permaneceu até que ele pensou em dar a famosa desculpa de que não tinha entendido a pergunta feita por Rabie.
- O que? - Perguntou ele como se estivesse distraído.
- Como você a conheceu? - Ela fez a pergunta de novo e ele inevitavelmente começou a pensar na resposta de forma rápida e objetiva.
- No dia que eu fui à Times, a rua iluminada como disse Tariq, eu acabei me deparando com essa...
- Galeria?
- Isso. Galeria!
- Galeria. - Riu Khadija. - Uma bela galeria por sinal.
- Você viu fotos? - Perguntou Rabie.
- Vi. - Mentiu Khadija. - Ele me mandou. - Mentiu novamente sem nem saber se ele havia tirado.
- Eu amo galerias. - Disse Rabie. - Nunca estive efetivamente em uma, mas sempre gostei de apreciar obras de artes e principalmente fotografias.
- Que bom! - Riu Zyan sentindo-se nervoso enquanto tentava observar se Rabie estava esperando que ele mostrasse alguma foto no celular da galeria que ele frequentou.
No meio do diálogo, a campainha tocou. Era a família de Mourad chegando. Khadija se apressou e subiu para o quarto.
- Aonde você vai? - Perguntou Zyan indo atrás.
- Eu não sei se estou preparada para vê-lo agora.
Os dois entraram para o quarto e fecharam a porta.
- Você precisa se vestir. Você está parecendo um americano.
- Mas eu acabei de voltar de Nova Iorque.
- Eu sei, mas é um almoço árabe, Zyan. Vai para o seu quarto.
- Tá bom, mas me espera. Não desça sem mim.
- Tudo bem. Cinco minutos.
- Dez.
- Cinco!
- Tá bom!
Zyan saiu do quarto de Khadija e foi andando na ponta dos pés pelo corredor do segundo andar até uma parte de cima que dava para ver a família de Mourad. Eles estavam em cinco. Um deles era Mourad, e dois irmãos e um casal mais velho que provavelmente eram seus pais. Zyan voltou logo para não ser visto e correu para o seu quarto para que começasse a se vestir. Respeitando o tempo imposto pela irmã, ele vestiu logo o seu thobe em cor branca. Particularmente, Zyan não gostava de si mesmo quando se vestia com thobe e se olhava ao espelho. Assim que pronto, ele voltou-se ao quarto de Khadija e bateu à porta.
- Já estou pronto!
- Você está lindo!
- Obrigado! Você também. - Elogiou ele. Khadija vestia um hijabe em cor preta.
- Espero que ele entenda o luto.
- Nossa! Você vai mesmo fazer isso?
- Óbvio, mas ele não vai pegar a mensagem. Duvido.
- Ele é mais bonito pessoalmente.
- Eu não busco os homens por beleza, Zyan.
- Eu sei, foi só um comentário. Você está tensa. Calma!
Khadija e Zyan desceram ao encontro de Mourad e sua família. Seus pais já estavam a esperando na sala do lado da escada e Tariq ao centro com seu filho e sua esposa. Khadija começou a descer as escadas junto com seu irmão Zyan. Era como se ele estivesse a levando de encontro aos seu futuro marido. Seu olhar se manteve fixo em Mourad que hipnotizado parecia se apaixonar pela beleza fenomenal de Khadija que lentamente, pés por pés, descia cada degrau da escada.
- Khadija, deixe-me te apresentar. - Disse seu pai. - Esse é o Mourad.
- Prazer, Khadija. Você é ainda mais linda pessoalmente. - Disse Mourad.
- Obrigada! O prazer é todo meu. - Respondeu Khadija.
- Esses são os irmãos Faruk e Hassam. - Farah apresentou os dois irmãos que estenderam as mãos para Khadija e Zyan. - E aqui, são os pais de Mourad, que são Bassam e Najat.
- Prazer, Khadija! Você é realmente uma menina muito linda e meiga. Olha só para esse rosto, Bassam. Será uma ótima mãe para os nossos netos. - Disse Najat.
Bassam e Najat sorriram junto aos seus filhos Faruk e Hassam como se estivessem esperando os primeiros herdeiros que seriam dados por Mourad. Zyan e Khadija se entreolharam e ficaram em silêncio.
- Bom, o almoço já está quase servido. Se quiserem ficar um pouco a sós para conversarem um pouco, meus queridos noivos, fiquem à vontade. - Disse Ghaith.
Khadija entrelaçou os dedos em frente ao corpo e abaixou a cabeça enquanto Mourad levou suas mãos em sua cintura para conduzi-la até o jardim da casa.
- Vamos conversar um pouco lá fora. - Disse ele.
Ela olhou para Zyan que fez um sinal de aprovação com a cabeça para que ela fosse até o jardim com Mourad.
- Era você que estava em Nova Iorque? - Perguntou Faruk tentando puxar algum assunto com Zyan que estava atento aos toques de Mourad em sua irmã.
- Sim. Cheguei hoje de lá. - Respondeu ele sorrindo.
- E como são os americanos?
- São pessoas boas.
- Eu odeio os americanos! - Disse Hassam.
- Não diga uma coisa dessas, Hassam. - Disse seu pai Bassam repudiando o comportamento do filho.
Faruk e Hassam eram os filhos mais novos de Bassam e Najat. Gemeos Bivitelinos, eles não eram idênticos um ao outro embora tivessem alguma semelhança entre si. Eles haviam acabado de completar dezoito anos de idade e estavam na fase de se sentirem os donos do mundo. Mourad que era o mais velho, tinha vinte e um anos de idade não tinha muita paciência para os irmãos e se sentia completamente o oposto deles.
Os gêmeos eram como o pai Bassam, totalmente extremista com relação a tudo e todas as práticas do islamismo. Para eles, tudo precisava ser punido. Já Najat se sentia um pouco mais humanitária, ela não gostava de participar de assuntos os quais eles eram mais extremistas onde falavam de punições e torturas para pessoas que iam contra as regras do islã, ela simplesmente ficava calada e não esboçava a sua indignação com relação aos pensamentos torturantes de seus filhos e seu marido. Mourad era semelhante à sua mãe, ele também pensava que toda e qualquer prática contra as regras do islã deveria ser punida de acordo com as leis do islamismo, mas também evitava a esboçar a sua opinião frente aos irmãos e ao pai, mesmo que eles sentissem que era importante que Mourad falasse e se abrisse com relação ao que pensava. Ele apenas ficava em silêncio.
Do lado de fora, Khadija e Mourad caminhavam pelo jardim.
- A casa de vocês é linda.
- Obrigada!
- Sério. A nossa tem um jardim assim também, mas não é tão bem cuidado como o de vocês. Eu adoro ficar nele apreciando as rosas.
- Eu adoro rosas.
- Vou pegar uma para você. - Disse ele estendendo as mãos e pegando um botão de rosas no roseiro em frente a si. - Toma. Sua primeira flor.
- Obrigada!
- Você é meio tímida.
- É que...
- Eu sei, é sempre assim. - Disse ele como se já tivesse tido outras experiências antes.
- Você já é casado?
- Não. Não sou. Eu disse que eu conheço como as pessoas agem. Sempre estive nessas cerimônias.
Khadija engoliu em seco.
- Fique tranquila. - Disse ele colocando as mãos em seu rosto. - Tudo só vai acontecer quando e se você permitir. Tudo bem?
- Obrigada!
- Você pode falar mais de você também. Não sou nenhuma pessoa em que você não possa confiar.
- Eu sei, é que...
- Você não está acostumada. Já entendi.
Khadija foi interrompida mais uma vez em sua fala. Em menos de um minuto ela percebeu que havia sido interrompida por Mourad duas vezes e isso mostrava como ele era como homem e a deixava completamente preocupada. Seus olhos se estenderam além dos ombros de Mourad em busca de Zyan. Ela almejava por socorro e esperasse que o irmão a entendesse apenas em olha-las nos olhos. Ela provavelmente estaria entrando em uma cilada se casando com Mourad.
Enquanto isso, Zyan estava conversando com os gêmeos Hassam e Faruk.
- E você? Tem quantos anos? - Perguntou Faruk.
- Tenho vinte e oito. E você?
- Tenho dezoito e ele também. - Respondeu Faruk apontando para o irmão que parecia observar Zyan tentando decifra-lo ao mesmo tempo que Zyan se perguntava em pensamento se tinha dado alguma pinta de gay ou se eles tinham percebido alguma coisa em seu tom de voz.
- Vocês são gêmeos?
- Sim. Somos gêmeos bivitelinos. - Respondeu Hassam.
- Desculpe-me. - Disse Zyan que não entendia muito a diferença de gêmeos univitelinos e bivitelinos. - O que são bivitelinos?
Hassam bufou pela estupidez de Zyan enquanto Faruk se dedicou a explicar.
- A única diferença é a forma que nós fomos formados. Univitelinos são gêmeos iguais, que são fecundados no mesmo óvulo e consequentemente na mesma placenta. Bivitelinos são fecundados em óvulos diferentes e consequentemente em placentas diferentes. Por isso não somos iguais. Basicamente isso. - Respondeu Faruk.
- Obrigado pela explicação. Nunca mais me esquecerei disso. - Respondeu Zyan olhando para Hassam.
- Podemos conhecer a sua casa? - Perguntou Hassam.
- Acho melhor deixar essa apresentação para a sua cunhada. Você não acha? - Disse Zyan.
- Achei que você fosse um dos homens da casa. - Alfinetou Hassam.
Zyan engoliu em seco e olhou para o jardim correndo seus olhos discretamente em busca da irmã que estava de cabeça baixa enquanto Mourad conversava com ela tão próximo que parecia estar constrangendo-a. Zyan apertou os olhos e tentou entender sobre o que eles estavam conversando enquanto Hassam teve a sua atenção voltada para os olhos de Zyan seguindo-os em direção ao jardim. Foi quando Faruk e Hassam perceberam que ele estava tomando conta da irmã no lado externo.
- Você parece preocupado. - Comentou Faruk.
- Não. Estou apenas olhando para eles. Fazem um belo casal. - Comentou Zyan.
- Não se preocupe, Zayn. Meu irmão cuidará bem da sua irmã. - Disse Hassam.
- Meu nome é Zyan e não Zayn. - Corrigiu Zyan.
- Desculpe-me.
- Se vocês me permitem, vou até lá conhecer um pouco Mourad também. - Disse Zyan pedindo licença aos irmãos que ficaram em pé observando Zyan se afastar e andar em direção ao jardim enquanto os dois ficaram em pé do lado de dentro da mansão em silêncio com olhares à espreita observando o caminhar de Zyan.
- O que você achou dele? - Perguntou Hassam quase sussurrando.
- Ele é meio misterioso. - Respondeu Faruk voltando o olhar par ao irmão.
- Será que ele é daquele tipo de aberração que o papai detesta? - Perguntou Hassam mencionando o fato de talvez Zyan ser homossexual e se envolver com pessoas do mesmo sexo.
- Não notei nada, mas talvez.
- Preciso ficar de olho nele, pois isso pode acabar com a reputação de nossa família. - Comentou Hassam. Faruk olhou para o irmão tentando compreender os reais comportamentos da família com relação às pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo, ele abaixou o olhar mostrando dificuldade em concordar com o irmão.
Zyan se aproximava de Khadija que ainda estava com o olhar baixo e pelo canto dos olhos sentiu o irmão se aproximando. Ela levantou o olhar e Zyan sorriu.
- Vim ver vocês como estão.
- Estamos bem! - Sorriu Mourad. - Eu estou apaixonado pelo o que eu estou conhecendo de sua irmã. Ela é realmente encantadora.
- Eu sei. Ela é realmente uma pessoa maravilhosa. Precisa muito de cuidados, Mourad. Espero que possamos contar com você e estar confiando na pessoa certa para conceder a mão de nossa irmã a você e à sua família.
- Vocês não irão se arrepender. Nossa família tem boa índole no país e somos muito bem vistos. Nunca estivemos envolvidos em nenhuma polêmica e sou completamente reservado e monogâmico diferente de outros homens por aí. Pode ter certeza que ela para mim será a única e a mulher de minha vida. - Disse Mourad sorrindo e voltando seus olhos para Khadija que se mostrou desconfortável.
- Não precisa se sentir assim. Mourad é uma boa pessoa, Khadija. Eu sei que talvez você esteja tímida, mas ele parece te compreender. Certo, Mourad?
Sim. Tudo no seu tempo. Foi o que eu acabei de dizer para ela minutos antes de você se aproximar, Zyan.
- Que bom, pois também prezamos pela segurança de nossa irmã e queremos vê-la bem e feliz. Sorridente. E com um homem que vá dá toda a felicidade que ela merece se doando por completo para ela.
- Pode ter certeza que ela não irá se arrepender. Nem vocês de confiarem na nossa família e me concederem a mão dessa mulher. - Disse Mourad pegando nas mãos de Khadija e dando um beijo.
Khadija sorriu.
- Obrigada, Mourad!
- Não precisa agradecer!
Zyan ficou em silêncio observando o toque de Mourad em Khadija e foi interrompido por Farah que se aproximou da entrada do Jardim fazendo um sinal para que eles se aproximassem. Farah tinha alguns gestos que fazia para que os filhos entendessem que eles precisavam se movimentar dentro de casa. Ele fazia um gesto com a cabeça para que os filhos conseguissem entender que deveriam se aproximar. Um gesto com a mão para que os filhos entendessem que precisavam se retirar e outros para que os filhos entendessem o seu humor e se afastassem. De imediato Khadija assentiu com a cabeça.
- Vamos. O almoço já está pronto. - Disse Khadija.
- Vamos. - Concordou Zyan.
O almoço aconteceu e as famílias se reuniram à mesa onde em meio de conversas começaram a se conhecer. Os pais de Khadija e Mourad tiveram uma das melhores interações que poderiam ter. Falaram de casamento e negócios entre as famílias. O importante para eles era unir a riqueza onde prosperariam seus bens se juntando para multiplicar seus valores aos seus herdeiros que estavam à mesa. Zyan por sua vez sentou-se ao lado de Hassam e Faruk e pôde entender que eles seriam sua referência para seguir os costumes da família de Mourad que prevaleceriam sob a família deles após o casamento. Tariq já estava acostumado com estes costumes, pois ele já vivia em Tabuque. Khadija ficou boa parte do almoço em silêncio enquanto Mourad segurava a sua mão e a olhava com olhar apaixonado. Ele queria que ela deixasse que essa aproximação acontecesse, mas ela se mostrava insegura e tentava disfarçar isso como uma certa timidez.
No meio do almoço, o telefone de Zyan vibrou ao bolso. Era uma mensagem de Lautaro dizendo o quanto estava com saudades e perguntando se estava tudo bem. Discretamente, em baixo da mesa, ele leu a mensagem e logo soltou um sorriso apaixonado com olhos brilhantes. Ao seu lado, Faruk inclinava o seu corpo um pouco para trás tentando ler o que Zyan fazia ao telefone até que chamou a atenção de Ghaith.
- Zyan, por favor, você sabe que não permitimos usar telefone na mesa. - Disse ela em um tom delicado.
- Desculpe-me, mamãe. - Respondeu ele guardando o telefone.
Faruk deu um sorriso e tentou sussurrar discretamente com Zyan.
- Era alguma namoradinha? - Perguntou ele.
- Não. Era só um colega.
- E esse sorriso?
- Que sorriso?
- Um sorriso tipo aquele que o meu irmão está dando para a sua irmã neste exato momento. - Disse ele apontando para Mourad e Khadija que percebeu que talvez estivesse sendo assunto entre Zyan e Faruk.
- O que foi? - Perguntou ela.
- Faruk está mostrando o quanto vocês parecem envolvidos. - Sorriu Zyan.
- Sua irmã é realmente apaixonante.
- Obrigada. - Sorriu Khadija. Ela já estava cansada de ouvir elogios tecidos por Mourad. Pareciam discursos totalmente ensaiados.
- Acho que devemos fazer um brinde. - Disse Bassam. - Um brinde aos noivos desta mesa.
Todos se levantaram e brindaram Khadija e Mourad.
- Quero que vocês saibam que o meu filho tem as melhores intenções com a sua filha e com essa família, Farah. Eu e você, sem dúvidas, seremos ótimos parceiros de negócios e construiremos juntos uma família linda.
Farah assentiu com a cabeça em concordância com Bassam.
- Bom, vamos ao que importa agora. Às datas desta união. - Disse Najat. - Estamos pensando de marcarmos este casamento para daqui quatro meses. O que vocês acham?
- Dezembro me parece uma boa data. - Pontuou Bassam. - O que você acha Farah?
- Por mim, tudo bem. Ghaith?
- Me parece ser uma boa ocasião para um bom casamento. Estou ansiosa. - Sorriu Ghaith.
Zyan e Khadija se entreolharam e ficaram em silêncio. Zyan correu seus olhos até Tariq esperando que ele falasse alguma coisa enquanto ele apenas abaixou a cabeça e ficou em silêncio.
- Vamos servir a sobremesa e depois vamos ter uma dança para os noivos. - Disse Ghaith.
- Uma dança? - Estranhou Khadija. - Mãe?
- Sim. Uma dança. Vocês são tão lindos juntos. - Sorriu Ghaith.
Khadija sentia que nunca conseguia ter local de fala em sua família. Sua voz era sempre silenciada ou pela vontade dos seus pais ou por alguém de fora como algum visitante, para ela o que estava acontecendo naquela mesa não era nada de anormal. Ela só conseguia conversar abertamente com seus irmãos Zyan e Tariq. Tariq por muitas vezes não concordava muito com as opiniões dos irmãos, mas sempre participava das conversas entre eles, porém ele seguia piamente todas as vontades e regras que Farah pregava dentro de casa.
A sobremesa foi servida e os pratos foram os favoritos de Khadija, Zyan e Tariq. Baklava, Manjar Turco, Marzipan e Ninho de nozes com cabelo de anjo estavam entre as variedades que foram colocadas à mesa para os convidados. Faruk e Hassam se rasgaram em elogios para os pratos feitos por Ghaith.
- Estão uma delícia!
- Obrigada! - Respondeu Ghaith.
- Minha mãe faz, mas não fica assim. O que você usou no Baklava? - Perguntou Hassam.
- Se eu te contasse eu teria que te matar. - Sorriu Ghaith.
- São receitas de família, Hassam. Não seja incoveniente. - Disse Najat chamando a atenção do filho.
Zyan se levantou da mesa e se afastou um pouco da família caminhando em direção ao jardim da casa enquanto tentava discretamente mexer ao celular. Faruk o observava do lado de dentro da casa enquanto ele caminhava pelo jardim e tentou disfarçar com o telefone em mãos se escondendo atrás de um dos pinheiros da casa. Faruk pediu licença e foi caminhando atrás de Zyan em silêncio e tão discretamente que Zyan se quer pôde notar que tinha alguém atrás dele.
- Gostei daqui. - Disse Faruk se aproximando de Zyan que estava com o telefone em mãos. - É muito mais tranquilo que em Tabuque.
- Oi, Faruk.
- Espero não estar incomodando. Digo... Com o telefone.
- Por que você diz isso?
- Você estava ansioso mexendo ao telefone no almoço e agora se afasta de todos para andar pelo jardim para fazer uma ligação. Espero não estar te incomodando.
- Você é muito observador.
- Quem é a garota?
- Eu já disse. Não tenho nenhuma garota. E você?
- Eu ainda não consegui me apaixonar por nenhuma.
- E quanto ao seu irmão Hassam?
- Talvez ele se case primeiro que eu. Talvez eu seja o último a me casar.
- Assim como eu.
- Acho que por isso tenha gerado um pouco identificação entre nós.
- Obrigado pela identificação. Me sinto elogiado por você ter se identificado comigo.
- De verdade. Eu sempre quis estar em Nova Iorque.
- E por que não aproveita e viaja? Você é jovem.
- Meus pais dizem que a vida americana é uma ilusão.
- Mas você não precisa viver lá. Pode ir apenas para conhecer e visitar.
Faruk ficou em silêncio.
- É uma outra cultura. Não tem como não nos apaixonarmos. Aliás, tudo que é diferente do que vivemos nos parece melhor do que o que temos.
- Você acha?
- Eu tenho essa opinião.
- Você viveria em Nova Iorque? Digo... Trocaria Riade por Nova Iorque?
- Minha família é toda daqui, Faruk. Tudo que eu tenho está aqui.
- Não foi isso que eu te perguntei. Você trocaria?
Zyan respirou fundo antes de responder à pergunta de Faruk. O que ele queria mesmo saber era se Faruk era realmente a pessoa confiável para que ele pudesse se abrir com relação ao que ele pensava entre Nova Iorque e Riade.
- Talvez.
- Talvez? Por que “talvez”?
- Porque a minha família está aqui, Faruk.
- E quanto a você?
- Como assim?
- Zyan, vamos lá... Eu estou te observando o almoço inteiro. Eu sou igual a você.
Igual a mim?
- Você sabe. Se afastar durante um almoço para conversar ao telefone. Mexer ao telefone em baixo da mesa. Essas coisas.
- Eu não sei do que você está dizendo.
- Vou ser mais específico. Você tem interesse em outros homens? Digo, você é homossexual?
- Faruk...
- Pode confiar, eu sei como você se sente.
- Sabe mesmo?
- Sei. Me esconder no quarto e conversar na internet com pessoas aleatórias em chats randomizados e trocar experiências de vida e se apaixonar por homens aleatórios fora da Arábia e depois ficar com receios de ser descoberto pela própria família e ainda ser penalizado por isso. Todos os dias vou me deitar pensando que nunca terei uma vida normal aqui neste país.
- Eu não sei o que te dizer.
- Só me diga se é assim que você também se sente. Eu vi você. Eu vejo em seus olhos. Eu sei que somos iguais.
- Desculpe-me, Faruk. Acho que você está confundindo as coisas. Eu não sou homossexual.
Ao mentir olhando nos olhos de Faruk, Zyan sentiu sua temperatura subir. Ele sentia que deveria contar a verdade. Seria bom ter um amigo ali, um amigo gay, no meio daquela confusão toda, além de sua irmã, claro. Ele sentia que poderia contar com Faruk, mas ao mesmo sentia receios de se abrir com um rapaz que mal conhecia. Faruk abaixou o olhar um pouco constrangido e parecia estar envergonhado além de um pouco amedrontado.
- Olha, eu quero que você saiba...
- Se você contar sobre essa conversa para alguém eu faço você ser penalizado por tudo que os homossexuais fazem aqui neste país. Você está me entendendo?
- Faruk...
Sem deixar com que Zyan terminasse de falar, Faruk foi andando na frente deixando-o sozinho no jardim. Ao olhar para a entrada da mansão, ele viu Khadija e Mourad à espreita observando os dois. Farah fez um sinal para que Zyan entrasse para dentro de casa. A dança do casal começaria em alguns cinco minutos.
Uma música foi colocada no pátio da mansão para que Mourad e Khadija pudessem dançar juntos. A ideia era ver a conexão do casal em um momento íntimo de dança para que os pais pudessem ver como eles seriam perfeitos juntos. Não foi diferente com Tariq e Rabie. Era uma tradição da família de Farah que ele levava consigo desde os tempos de seu avô Khadlid.
Zyan ficou um pouco mais afastado de Faruk e Hassam desta vez. Hassam pôde notar que algo havia acontecido entre os dois e discretamente começou a observar um pouco mais. Provavelmente seu irmão Faruk já tinha criado problemas por aí. Ele só tinha que saber quais tipos de problemas Faruk tinha causado. Ele sabia que o seu irmão não era lá uma pessoa de muito boa convivência e por onde ele estava havia resquícios de confusões.
O dia chegou ao seu fim e a família de Mourad foi embora. Mourad prometeu voltar no dia seguinte para levar Khadija para conhecer aos redores de Riade e passarem um dia juntos para se conhecerem um pouco melhor. Ghaith e Najat sugeriram que os filhos Hassam, Faruk e Zyan fizessem o mesmo. Faruk mostrou um pouco de desconforto, mas logo foi chamado a atenção por seu pai Bassam que não gostava que o filho se comportasse de qualquer forma na frente das pessoas e ainda mais na frente da noiva de Mourad.
Ao saírem pela porta, Zyan subiu as escadas para o quarto e Khadija foi atrás deixando seus pais com Tariq no primeiro andar.
- E aí, o que você achou? - Perguntou Khadija.
- Aquele menino é um retardado. - Disse Zyan se referindo ao comportamento de Faruk.
- Faruk? O que aconteceu?
- Ele foi atrás de mim no jardim e disse que era igual a mim?
- Como assim? Gay?
- Isso.
- Uau! Eu não podia imaginar. E quanto a você?
- Eu disse que não era homossexual.
- Zyan, por que você fez isso?
- Eu não sei. Eu nunca contei sobre isso para ninguém, ainda mais assim.
- Você deveria ter dado um apoio moral para ele. Ele confiou em você para te contar sobre a homossexualidade dele.
- Eu sei, mas no final ele ainda me ameaçou.
- Te ameaçou?
- Sim. Ele disse que se eu abrir a minha boca eu vou me foder com ele. Algo assim.
- Mas é claro. Você tem noção da gravidade do problema?
- Você concorda com isso?
- Não. Eu não concordo, mas ele confiou em você.
- Sem eu pedir.
- Zyan, essas coisas não se pedem. Confiança apenas é sentida.
- Desculpe.
- Você não tem que se desculpar comigo. Você precisa tentar falar com ele amanhã.
- Eu não vou tocar nesse assunto com ele novamente.
- Por que você não tenta? Você também já teve a idade dele. Talvez ele só precise de alguma ajuda. De alguém para conversar. Sua sorte é que você tem a mim.
- Eu sei.
- Então...
- Ele foi ríspido comigo.
- Você também é com as pessoas.
- Mas ele foi demais.
- Esquece isso. Tente ser legal com ele como você gostaria que fossem com você.
- Khadija.
- Estou falando sério. Que complicado vocês conseguem ser.
- E o que você achou de Mourad?
- Ele é bonito!
- Bonito? Ele é lindo!
- Eu sei e é isso que me assusta. Ele é muito gentil.
- E isso não é bom?
- É ótimo, mas me assusta.
- Ele ser gentil?
- Sim. E se ele estiver mentindo?
- Por que ele mentiria?
- Para agradar a família.
- A família dele é mais rica que a nossa, Khadija. Se tem alguém que deveria fingir aqui esse alguém seria você. É do interesse do papai não deles. O Mourad gostou de você.
- Eu sei, mas e quanto ao Nizar?
- Você precisa abrir mão do Nizar. Nossos pais jamais aceitariam você com aquele homem e mesmo que aceitem você será deserdada.
- Assim como você se descobrirem que é homossexual.
- Exatamente. Vai ficar tudo para o Tariq.
- Imagina? - Gargalhou Khadija.
- Isso não é engraçado. - Sorriu Zyan.
- Não é, mas foi. Olha para a gente. Somos completamente o oposto do Tariq e olha onde estamos vivendo e onde nos encontramos? Será que esse vai ser o nosso futuro para sempre?
Zyan ficou em silêncio.
- Se você pudesse, você fugiria? - Perguntou Khadija.
- Para ser feliz, sim. Fugiria.
- Você me leva com você?
- Khadija.
- Eu digo sério, Zyan. Não me deixe para trás.
- Tudo bem.
- Eu não sei como seria passar um dia aqui sem você por perto. Eu não sei se eu aguentaria. Você é meu irmão e é o único que eu confio para falar tudo aqui. Você não tem ideia do quanto eu odeio tudo isso.
- O que você odeia mais?
- Não poder ficar com o homem que eu amo. E quanto a você?
- O mesmo que você.
Enquanto Zyan e Khadija conversavam, Farah bateu na porta do quarto da filha.
- Posso entrar?
- Oi, Pai! Pode.
- Zyan... Tudo bem por aqui?
- Tudo sim, pai. Estávamos conversando sobre Mourad. - Respondeu Zyan.
- Vocês dois sempre de segredos. - Resmungou Farah. - Vim saber como você está e o que você achou de tudo.
- Estou apaixonada, papai. De verdade. Mourad parece ser o homem que eu sempre pedi em minhas orações.
- Que bom, minha filha. Estou muito feliz em ouvir isso de você.
- Obrigada, papai.
- Se me permitem, agora vou tirar essa roupa e descansar um pouco. Estou um pouco cansado.
- Tudo bem, papai. - Assentiu Khadija enquanto Zyan ficava em silêncio.
- Zyan, eu vi você de conversa com o Faruk.
- Sim, papai.
- Ele é um rapaz muito bom. Tente se juntar a ele e ver o que ele tem para compartilhar. Ele é um garoto muito sábio e pode te ajudar com muitas coisas e inclusive a pensar em um casamento por agora, logo após o de Khadija. Eles serão os próximos, estão passando por aquele momento de decisão e escolha. Então, vá se preparando. Quero ver você com a sua família antes mesmo de eu morrer. Sinto que eu não tenho muito tempo.
- Não fale assim, papai.
- Eu digo sério. Nenhum de nós estamos aqui nesta vida para sempre, meu filho. Quero te ver feliz e com uma companheira que vá te honrar pelo resto da sua vida.
- Entendido, papai. - Assentiu Zyan.
Farah fechou a porta e caminhou em direção ao seu quarto com Ghaith deixando Zyan sozinho e seus pensamentos com Khadija.
- Você está bem, Zyan? Parece distante.
- Sim. Estou. Só fiquei com um pouco de dor de cabeça. Vou descansar um pouco. Tudo bem?
- Tudo bem. Nos vemos amanhã.
- Se cuide.
Zyan foi caminhando para o seu quarto, onde começou a retirar as suas roupas e deitou-se na cama com o telefone em mãos. Aquele momento do dia tinha sido o mais esperado por ele, pois seria o momento em que ele conseguiria ligar para Lautaro e conversar a respeito de tudo que aconteceu até ali. Ele sentia falta de Lautaro e não o tirava da cabeça por um segundo se quer.
Em sua lista de contatos, Zyan buscou pelo telefone de Lautaro e fez uma chamada de vídeo. Lá estava Lautaro com o rosto um pouco amassado de estar dormindo. Era um domingo chuvoso em Nova Iorque e ele não tinha conseguido sair de casa para se quer fazer nada. Um dia completamente preguiçoso.
- Oi! Tudo bem? - Disse Zyan.
- Ei. Tudo bem e você?
- Tudo bem também.
- Estava com saudades.
- Eu também.
- E como foi com a sua família?
- Foi bom. Deu para matar a saudade e hoje tivemos um evento aqui em casa.
- Sério? Que legal!
- Minha irmã vai se casar em quatro meses e hoje conhecemos a família do noivo dela.
- Próximo ao natal.
- Aqui não comemoramos o Natal.
- Ah, verdade. Desculpe-me.
- Você gosta do natal?
- Para mim é uma das melhores épocas do ano. Eu venho de uma família que nós sempre comemoramos o natal. Muitas vezes comemorávamos na casa de uma tia nossa em Buenos Aires. Nós nos reuníamos e montávamos a árvore e depois enchíamos de presentes que comprávamos em shoppings centers e esperávamos ansiosamente pela véspera para abrir cada uma das caixas.
- Nós nunca tivemos isso aqui.
- Eu nunca entendi muito bem como se comemora o natal nos países do oriente médio.
- Quer mesmo falar disso?
- Não. Prefiro falar de você.
- Eu quero entender você. Você é daqueles que espera presentes no pé da lareira?
- Não. Até porque eu não tenho lareira em casa, Zyan. Isso é coisa de cinema dos anos noventa. Estamos em dois mil e vinte e quatro.
- O que você pediria de Natal esse ano?
- Eu pediria você.
- Eu?
- Sim.
- Por que justo eu?
- Não sei. Eu quero estar com você.
- Não sei se eu acredito.
- Por que não?
- Sei lá. Tem muita gente interessante aí em Nova Iorque.
- Você acha que em Riade não tem?
- Não sei. Nunca procurei.
- Por que você nunca saiu por aí?
- Não tem lugares para sair.
- Como assim? Riade é uma capital.
- Você me entendeu.
- Ah, tudo bem, não tem lugares para você.
- Para nós.
- Entendi. Um lugar em que você consiga ser você mesmo.
- Exatamente.
- Às vezes eu fico pensando. É louco de pensar que você vive em lugar tão diferente assim de mim.
- É a nossa sociedade, Lautaro.
- Você acha que tem mudado? Digo, se comparar a os últimos anos?
- Acredito sim. Estamos em uma mudança, mas acho que vai levar tempo para que sejamos como vocês.
- Ninguém é igual, Zyan, mas podemos nos respeitar como uma sociedade. Respeitar nossos gostos e orientações sexuais. É complicado, mas nossa sociedade evolui. Anos atrás estávamos morrendo muito mais pelas ruas e sendo abatidos sem nenhum motivo aparente do que agora. Agora isso ainda acontece por aqui, mas o número de gays, travestis e transsexuais que morrem e são abatidos hoje por uma sociedade preconceituosa ainda é alto, mas comparado aos últimos anos tem diminuído.
- Você fala como se fosse um ativista.
Lautaro gargalhou.
- Não sou nenhum ativista da causa, mas tenho empatia por todas as pessoas que são como a mim e que podem passar por isso.
- Você já passou por algum caso de preconceito?
- Você diz de homofobia?
- Isso.
- Não que eu me lembre. Aliás, já quando era bem pequeno no colégio, mas hoje isso para mim nem conta mais. Sou uma pessoa adulta, o que aconteceu comigo no colégio por mais traumático que seja, já passou. Talvez apenas tenha me moldado para a pessoa que eu sou hoje, mas voltando à sua pergunta, não me recordo de ter passado por algo assim. Tenho amigos que sim, já foram insultados em ruas, mercados, praias, em lugares públicos de diversos países apenas por serem eles mesmos.
- Isso é horrível.
- Demais.
- Hoje eu conheci um rapaz, irmão do noivo da minha irmã. Ele veio me dizer que é gay.
- Deixe-me ver se eu entendi, ele foi até você e confiou em você de compartilhar a sua sexualidade. Foi isso?
- Basicamente. Você só falou com as palavras bonitas.
- Eu tentei ponderar, mas é assim que normalmente devemos dizer.
Zyan sorriu.
- E então? - Perguntou Lautaro.
- Eu fui um pouco rude com ele. Disse que eu não era homossexual e ele não gostou muito.
- O que ele te disse?
- Disse que se eu contasse isso para alguém, ele me mataria.
- Ele fez isso? - Lautaro gargalhou. - Quem é o rapaz?
- O nome dele é Faruk.
- Faruk. Que nome diferente.
- É Árabe. Significa Severo.
- Ah, Severo? Você procurou o significado do nome dele?
- Não.
- Não, Zyan? Tem certeza? - Brincou Lautaro como se estivesse com ciúmes.
- Você está enciumado?
- Claro que eu estou. Você não procurou o significado do meu nome.
Zyan ficou em silêncio e um pouco sem graça. Como pude não procurar o significado do nome do Lautaro antes? Perguntou-se em pensamento.
- Qual é o significado do seu nome? - Perguntou Zyan.
- Você procurou o significado do nome do Faruk?
- Não. Eu só quis te colocar à parte.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Então tá bom! O meu nome tem o significado mais sofisticado.
- Ah é?
- É. Seu significado é “Veloz”. Veloz como um falcão.
- Interessante.
- E o seu?
- O meu se resume a palavras como “Gracioso” e “Belo”.
- E você é muito bonito. Sua mãe fez uma ótima escolha.
- Na verdade, quem o escolheu foi o meu pai.
- O seu pai?
- Sim. Meu pai escolheu o meu nome e dos meus dois irmãos.
- E como é o seu pai?
- Para mim?
- É de um modo geral.
- Meu pai acostuma ser o meu herói. Ele é um pouco fechado na dele. Não é de muita conversa, mas parando para pensar só de ele ter escolhido todos os nossos nomes já mostra que ele tem um pouquinho de sentimento nele.
- Com certeza, Zyan. Seu pai deve ser uma pessoa muito interessante.
- Igual você?
- Você me acha interessante, Zyan?
- Demais. Eu gosto de falar com você.
- Eu também gosto de falar com você. Sabe? Eu ficaria aqui por todo o tempo do mundo apenas falando com você e nunca me cansaria.
- Tem certeza?
- O que?
- Que nunca se cansaria.
- Absoluta.
- Eu gosto de falar com você.
- E não tem outra pessoa mais interessante por aí para uma conversa igual a nossa?
- Não assim. Como a minha e a sua. Conversas são únicas, Zyan. E por ai? Se você disser que pode me substituir por qualquer um eu ficaria muito decepcionado.
- Nunca.
- Certeza? Não senti muita segurança nessa sua resposta.
- Mas é verdade. Eu gosto de você.
- Eu também gosto de você. Desde que você se foi o que não tem muito tempo, mas que para mim já parece uma eternidade, eu só consigo pensar em você. É loucura. Você não acha?
- Acho. Me sinto um adolescente com tudo isso.
- Eu também. Quero poder ficar com você.
- Você sabe que isso vai ser uma das maiores loucuras de nossas vidas.
- Que bom que você disse loucura e não uma das coisas mais impossíveis de nossa vida. Loucura é possível. Coisas impossíveis não.
- Então você poderia ser a minha possível loucura impossível.
- Uma possível loucura impossível? Gostei!
- Obrigado minha possível loucura impossível.
- Você me faz sorrir. Sabia?
- E você faz com que eu nunca pare de sorrir. Sabia?
- Como vai ser o dia amanhã?
- Eu vou me encontrar com os irmãos do noivo da minha irmã?
- O Gay que te ameaçou?
- Esse mesmo. - Riu Zyan.
- E não está com medo?
- Não. Definitivamente não.
- Tente ser amigo dele, Zyan. Às vezes o que as pessoas precisam é só de um amigo.
- Acho que não. Nós somos muito diferentes.
- Diferentes como?
- Ele parece ser um mimado pelos pais. Bruto. Não sei como explicar.
- Bruto? Como? É um daqueles caras turrões?
- É tipo isso. Seu olhar é penetrante e mete medo. Sabe? É como se ele fosse um gato e nós fôssemos ratos. Ele consegue chegar e fazer com que nós sintamos medo dele.
- E você sentiu?
- Um pouco. Ele é um pouco ameaçador.
- Às vezes é só uma auto defesa que ele tem em relação aos outros.
- Você é bem psicólogo.
- Jamais. Eu só tento ver as coisas por todos os lados. Nem tudo tem um lado negativo, Zyan.
- Você acha que eu vejo as coisas por um lado sempre negativo?
- Às vezes.
- Sério?
- Sim.
- Vou me policiar. Nunca tinha parado para pensar nisso.
- Tenta se policiar para você ver. Nem todo mundo está com más intenções.
- Farei esse exercício. Amanhã eu te digo como foi.
- Estou curioso.
Zyan sorriu enquanto admirava os olhos de Lautaro pela chamada de vídeo.
- Queria estar ao seu lado agora. - Disse Lautaro.
- Eu também queria estar ao seu, minha possível loucura impossível.
Zyan e Lautaro estavam cada vez mais próximos um do outro. Aquela noite foi marcada pelo primeiro apelido fofo criado entre eles que foi o “Minha possível loucura possível”. Essas coisas fofas de casais que quando olhadas por alguém de fora são consideradas mais bregas do que fofas. Eles estavam cada vez mais conectados um ao outro e isso fazia com que o coração de Zyan batesse ainda mais forte por Lautaro e Lautaro estava ali, totalmente disponível para ele, mesmo sabendo que estavam há minhas de distância um do outro e que poderiam nunca mais se verem novamente. Eles não se importavam com isso, eles se quer pensavam no fato de nunca mais se encontrarem, eles só estavam embarcando naquela história sem ao menos se perguntarem aonde iriam chegar ou se chegaria a algum lugar.
Ao som de Without You da cantora norte-americana Lana Del Rey, Lautaro e Zyan finalizaram a chamada de vídeo. Lautaro estava deitado em sua cama com as janelas abertas e podia avistar as estrelas do céu de Nova Iorque, ao fundo, os barulhos de sirenes de carros e ambulâncias que corriam a cidade. Do quarto de Zyan, o teto com acabamento de gesso e o chão liso de mármore faziam com que seus pés deixassem pegadas por onde ele passava devido a sua transpiração naquele momento. Do seu quarto, havia uma sacada com janelas amplas e cortinas brancas grandes que se movimentavam de acordo com o vento da madrugada. Estava frio. Zyan se aproximou da janela e observou o jardim do lado do lado de fora. Enquanto ele observava as árvores ele tentava identificar qual era o pinheiro que ele havia se encontrado com Faruk e sentiu um arrepio ao identifica-lo no meio de tantos.
Do outro lado da cidade, Faruk chegava em casa. Ele caminhava junto com o seu irmão em um corredor extenso de chão brilhante que refletia o seu reflexo como um espelho. Seu irmão virou-se em uma esquina e ele continuou o corredor até o final onde entrou para o seu quarto. Aos poucos ele começou a retirar a sua roupa e se jogou em cima da cama onde agarrou o seu notebook e o abriu. Lá estava a página de Zyan aberta. Ele já havia pesquisado sobre Zyan muito mesmo antes de sair de casa. Respirando fundo, ele colocou uma de suas mãos no rosto e colocou o notebook de lado. Aos poucos ele começou a pegar no sono. Sozinho. Do outro lado de cidade, Zyan fazia o mesmo, seus olhos começavam a se fechar lentamente com sonolência enquanto há milhas dali Lautaro estava acordado ainda pensando em Zyan e no quanto sua possível loucura impossível poderia se tornar uma realidade.
Na canção lançada em 2012, Lana Del Rey esboça seus sentimentos em suas estrofes transcorrendo o sentimento de alguém que sore com a busca de um amor verdadeiro. A canção descreve alguém que em meio a uma riqueza se questiona sobre se tudo aquilo é realmente o necessário e o que precisa para poder sobreviver em meio de um caos que é uma sociedade opressora. Em meio a tanta riqueza a canção transcorre que ouro não é o suficiente quando não se pode ser completado com uma outra pessoa que pode ser inclusive a sua outra metade da laranja a qual sempre procuramos por aí. Alguns procuram a vida toda. Outros encontram e a deixam partir. Outros apenas a encontram.
[PARTE III] 14.12.24
[PARTE IV] 21.12.24
[PARTE V] 24.12.24
[PARTE VI] 01.01.25
[PARTE VII] 10.01.25
[PARTE VIII] 15.01.25
[PARTE IX] 20.01.25
[FINAL] 25.01.25
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