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THE_CLUST3R: LUZES DE NATAL (CAP. 09)

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Após desligar o telefone, Lautaro ficou sozinho durante muito tempo em seu quarto e olhando a tela em branco relembrando de seus momentos em Nova Iorque com Zyan. Ele nunca sentido um sentimento tão verdadeiro antes por outra pessoa a não ser por Zyan, mas com Scott estava sendo diferente. Scott estava ali para ele, o tempo todo, bastava ele mandar uma mensagem e em aproximadamente quinze ou vinte minutos, ali estava Sctott.

Scott sempre retornava do trabalho por volta de umas dez da noite e, em seguida, quando Lautaro insistia, ele acabava indo dormir na casa de Lautaro ou vice versa. Scott trabalhava em um jornal em Nova Iorque onde fazia fotografias para as notícias e publicações no site. Ele fazia coberturas das notícias relacionadas a economia e principalmente esportes. Sobre entretenimento, ele tinha uma coluna semanal em um dos blogs do jornal, onde ele fazia indicações dos principais filmes que estavam previstos para lançamento durante a semana.

Em seus momentos vagos, ele acabava se dedicando à pintura e fazia daquilo um hobby conseguiu se encontrar e ver que a arte era o seu lugar. Ele tinha vinte e dois anos quando participou de sua primeira exposição de artes, onde ao expor alguns de seus quadros, ele ficou completamente constrangido devido aos trabalhos dos demais artistas serem muito mais chamativos que os dele, porém ele nunca parou e continuou criando, criando e criando.

Um pouco mais recluso em seu apartamento, preso em seu quarto, sem ter muita vida social, ele acabou criando muitos e mais quadros os quais de forma abstrata ele tentava retratar não só a sua forma de ser, agir e ver as coisas ao seu redor, como também transcrever tudo que já tinha passado até ali e o que fez chegar onde estava naquele momento. Certo dia, ele frequentou um bar com alguns amigos após uma peça de teatro e em uma conversa sobre inspiração, eles começaram a compartilhar histórias a respeito do os fazia se sentirem inspirados.

Scott ficou bem atento a todas as percepções daquele momento, pois para ele inspiração era algo completamente vago e que ele conseguia tão facilmente que quase não colocava muito de seu sentimento, mas conseguia fazer tão bem e de forma tão única que só de traçar um esboço totalmente abstrato, ele conseguia fazer com que os olhos de alguém brilhasse de uma forma inexplicavelmente única.

Na área de fumante, ele saiu para conversar com um de seus amigos Robbie e acabou encontrando um dos diretores da peça que eles fizeram na Broadway. Kevin era um diretor de peças renomadas em Nova Iorque e estava prestes a deixar o teatro para embarcar em uma jornada no cinema. No próximo verão, ele começaria a dirigir um filme em Hollywood ao lado de outros dois diretores renomados dos Estados Unidos. No meio da conversa entre Scott e Robbie, Kevin se aproximou e deu os cumprimentos a Robbie que era um dos atores que tinha participado com ele de várias peças e que inclusive foi um dos grandes papeis desenvolvidos por Kevin em uma peça teatral há um ano atrás.

Kevin fumava e Robbie também, então a conversa entre foi bem tranquila e ao meio deles estava Scott que não era adepto ao cigarro, mas ficou ali apenas para conversar com eles e sair um pouco da pista de dança e conseguir conversar aleatoriamente de coisas e assuntos sobre a vida adulta. Felizmente, para pessoas que vivem no mundo artístico, os assuntos são sempre relacionados às artes de um modo geral e nessa conversa Robbie elogiou sobre o quanto Kevin estava estourado e partindo para Hollywood no próximo verão. Era realmente algo incrível e ver o quanto Kevin vinha se dedicando a todos os seus trabalhos, fazia com que ele se sentisse ainda mais admirado pelo diretor.

Kevin deu de ombros e agradeceu ao elogio feito Robbie, mas deixou ao ar uma simples pergunta e reflexão que fez com que Scott voltasse para casa naquela um pouco mais pensativo e refletindo sobre o quanto ele gostaria de ser um artista renomado em Nova Iorque. Foi quando ele começou a pintar o seu primeiro projeto com dez quadros abstratos e depois de três anos participou de uma exposição onde recebeu um grande aceitação do público que posteriormente o chamou mais e mais para expor suas artes nas galerias espalhadas pela cidade de Nova Iorque.

Deste trabalho, Scott conseguiu vender todos os seus dez quadros para uma família de classe alta da nata da sociedade de Nova Iorque e conseguiu se manter com o dinheiro por longos anos da sua vida, sem criar nada pintando e apenas fotografando para o seu trabalho no jornal e mantendo-se estável em Nova Iorque. Anos se passaram e ele começava a se dedicar novamente para que pudesse fazer algo grande, desta vez, ao lado de Lautaro que também tinha um olhar muito clínico para a arte e ele pensava que se juntasse um pouco dos dois, eles poderiam fazer algo realmente grande e belo. Ele pensava no quanto poderia fazer com aquilo se juntasse ao que ele estava buscando com Lautaro naquele momento.

Lautaro, por sua vez, estava começando a expor seus desenhos e suas artes. Ele não sabia onde queria chegar e nem o quanto ele poderia chegar, mas ele estava contente em fazer com que as pessoas o conhecessem e vissem um pouco mais de seu trabalho e toda a sua criatividade. Mutas de suas artes eram completamente intimistas. Algo dele que, ele guardava apenas para si e nunca tinha mostrado para ninguém.

No dia em que ele desligou o telefone com Zyan, Lautaro ficou em silêncio durante longos minutos em pé, olhando o quadro de pinturas pensando no porquê de ele ter preparado aquele quadro naquele momento para pintar algo. Ao mesmo tempo que ele se sentia entusiasmado para criar algo devido a Scott tê-lo pedido em namoro e ele ter aceitado, ele se sentia completamente vazio por dentro e triste por saber que poderia nunca mais ver Zyan e ter Zyan em sua vida.

Era um misto de sensação envolvido a uma loucura e lucidez que ele nunca tinha experimentado na vida e aquela estava sendo a primeira vez. Ele deu um passo para a frente, agarrou um dos pinceis com carvão e começou a fazer o primeiro traço na tela. Conforme ele ia traçando cada um das margens que começavam a compor o desenho, ele começava a se lembrar dos dias e dos dias e dos dias que eles passaram juntos em Nova Iorque.

Enquanto tocava uma das canções da banda “Low Roar” lançada em 2014, intitulada como “I’ll Keep Coming”, Lautaro conseguia sentir a presença de Zyan enquanto eles andavam juntos pela Times e foram também até a galeria onde conheceram os trabalhos de Anne Steves e depois ao bar onde tiveram um pequeno desencontro de interpretação com o homem do caixa que fez uma menção um pouco inusitada relacionada aos árabes com o ataque do onze de setembro e o quanto Zyan tinha se sentindo mal com aquilo. Depois ele se lembrou também da sensação que foi quando eles foram visitar o memorial do World Trade Center e juntos ficaram em silêncio ouvindo o barulho da água que escorria pelo memorial.

Cada lembrança de Zyan. Cada toque. Cada beijo. Cada encostar de Zyan em sua pele fazia com que Lautaro traçasse mais um traço e mais outro e mais outro. Lautaro não se cansava, já eram quase três da manhã e ele ainda estava de pé em frente ao quadro com carvão nas mãos e algumas tintas aquareladas fazendo alguns sombreados no desenho de traços escuros e grossos. Em frente ao quadro com a roupa um pouco suja de quem tinha pintado a noite toda, ele soltou seus materiais de lado e sentou-se em frente ao telefone que vibrava.

Oi! - Disse Scott.

Oi! Tudo bem?

Estou aqui em baixo. Posso subir?

Claro. Suba. Vou abrir a porta.

Lautaro foi caminhando até a porta do apartamento e rodou a chave para que ele pudesse destranca-la e deixou entre aberta para que Scott apenas a empurrasse. Alguns segundos depois, ele pôde ouvir os passos de Scott pelas escadas e pelo corredor do prédio. Em seguida, Scott abriu a porta e com um sorriso segurava dois lanches que havia comprado em uma conveniência ali perto. Aquelas que ficam abertas por vinte e quatro horas no dia.

Trouxe para a gente! - Disse Scott sorrindo.

O que são?

Hamburgueres.

Parece que você estava adivinhando. Estou com muita fome. - Comentou Lautaro.

Estava pintando? - Perguntou ele enquanto destacava as suas roupas sujas de tinta.

Sim. Estava criando.

Scott foi andando até o quarto e de frente ao painel ficou impressionado com o resultado final da arte de Lautaro. Ele soltou as sacolas ao chão com cuidado e se aproximou do quadro com as mãos na boca.

Caralho! - Disse ele. - Isso está incrível, Laut.

Você acha?

Sim! Olha para estes traços e estes detalhes. - Continuou Scott. - Nadando com Crocodilos?

Sim. Gostou. Este é o nome.

Caralho, cara! Que perfeito! - Disse ele abraçando Lautaro sem se preocupar com as tintas espalhadas pelo seu corpo. - Está incrível. Parabéns. - Disse ele o beijando.

Obrigado!

Você está bem?

Eu estou. Só um pouco cansado. - Disse ele tentando não chorar.

Por que você está chorando?

Eu não sei, eu só...

Calma... Vem aqui. - Chamou Scott. - Sente-se, vou pegar uma água para você e a gente come alguma coisa e você descansa, mas você precisa comemorar. Olha só essa dança com crocodilos. É tipo uma dança com dragões. - Gargalhou ele fazendo menção a um dos livros do escritor George R. R. Martin.

Você gostou mesmo. Não é?

Eu amei, Lautaro. - Disse Scott. - Por que é difícil você gostar das coisas que você cria?

Eu não sei explicar, eu só acho que não são boas o suficiente. Você entende?

Eu entendo, mas é que eu amo todas as minhas criações. Cara, você está com um projeto de ilustrações de livros pelos Estados Unidos. Isso é incrível. Sua primeira arte vai esboçar um best seller daqui dois meses.

Eu sei, mas é que...

Você se cobra muito.

Eu me cobro.

Eu me cobro também. É normal se cobrar, mas olha para isso, cara. - Disse ele se levantando novamente. - Eu nunca vi nada parecido com isso.

Você não sabe como ficou a minha cabeça hoje.

Eu imagino. Preciso te pedir em namoro mais vezes. - Disse Scott sem imaginar que ele havia ligado para Zyan minutos antes de começar a tecer aquela obra e que o real motivo de ele ter finalizado-a e deixado-a tão incrível daquela forma não era ele e sim Zyan, o Árabe que ele se quer imaginava que existia.

Lautaro sorriu e abaixou a cabeça.

Você é engraçado.

Desculpe-me. Vamos comer?

Vamos. Onde você estava?

Estava naquela galeria. Consegui um convite para expor umas obras em Manhattan em algumas semanas.

Sério? Manhattan?

Sim! É incrível. Não é?

Demais. Eu fico feliz por você.

E eu fico feliz por nós. Eu quero estar com você, Lautaro.

Obrigado, Scott. Eu também quero estar com você.

Então, vamos comemorar. Abre logo o seu lanche. É aquele que você gosta tanto. Sabe? Aquele que aquele dia tinha acabado e quando você comprar ficou bem chateado?

Não lembro.

É porque fica chateado algumas vezes no mesmo dia.

Não fico.

Fica, poxa.

Eu sou tão assim? Parece que eu sou mais tranquilo que isso.

Você é, ou talvez eu que não seja, mas abre logo. Veja o molho.

Lautaro abriu o sanduíche tinha um exagero de molho que ele gostava.

Isso tudo?

Você não gosta?

Não com isso tudo.

Come.

Não vou comer.

Então tira e come.

Tá bom.

Come logo. Eu gosto dessa música. - Disse ele. Tocava uma música da banda Cigarettes after sex, Nothing Gonna Hurt You baby, lançada em 2012.

Eu também gosto. Me faz lembrar muito da Times.

Exatamente.

Lautaro sentou-se ao lado de Scott em uma das almofadas ao chão do apartamento e enquanto comiam, eles ouviam a canção e olhavam para o quadro.

Faltou uns traços dourados ali. - Comentou Scott.

Você acha?

Sim. Mas não grossos demais. Algo mais delicado. Sabe?

Ao lado do preto?

Sim. Aqui ó. - Disse Scott se levantando e buscando por tinta dourada ao meio dos objetos de Lautaro. - Posso?

À vontade.

Scott pegou um dos pinceis e com seus dotes de fazer finalizações abstratas em obras de artes fez alguns riscos ao lado das laterais.

Assim. - Disse ele parando-se e olhando o quadro em frente de si.

Ficou lindo. - Disse Lautaro que se levantou e se aproximou do quadro.

Os dois ficaram ali. Parados. Admirando o painel. Era uma verdadeira obra de arte. Lautaro se aproximou de Scott e o abraçou de costas passando suas mãos em cima de seus ombros e dando um beijo em seu pescoço. Eles eram verdadeiros artistas em Nova Iorque e aquilo era apenas o começo de muitas das coisas que aconteceriam a partir dali.

Já era sábado e, em Riade, os preparativos já começavam a ser colocados de pé na casa de Khadija que estava ansiosa e ajudando cada um dos membros das equipes a arrumarem as mesas e os cardápios derivados que chegavam para a festa. Do lado de fora, chegava uma van com a banda e os instrumentos musicais. Era o cantor Yaman que havia ficado famoso após seus covers de canções do cantor israelense Ivri Lider.

Olá! - Disse Yaman. - Você é a Khadija?

Sim. Sou eu. Você deve ser o Yaman.

Sim. Prazer.

Prazer é todo meu. - Disse ela sorrindo. - Bom, pode deixar todas as coisas ali no canto próximo ao jardim e montar ali os seus equipamentos. Se precisar, pode me chamar ou procurar por meu irmão Zyan. Que está ali. - Disse ela apontando para Zyan que conversava com Faruk enquanto tentava organizar uma mesa com quatro cadeiras. - Faruk que é o irmão do meu noivo, Mourad que são os dois que estão ali próximos a ele. Tudo bem?

Tudo bem. Obrigado. - Yaman assentiu e foi caminhando com os equipamentos para o lado do jardim.

Ghaith tentava se organizar na cozinha para deixar toda a comida posta e os doces prontos para que pudessem servir os convidados sem nenhuma dificuldade. Farah tentava ajudar da melhor possível tentando organizar as coisas do lado de fora tentando manobrar alguns carros que já chegavam. Eram alguns amigos da família que ficariam por ali e outros eram visitantes como Zohar e Ravid que haviam acabado de chegar do aeroporto com Hassam e estavam passando por ali para que eles conhecerem Khadija e Zyan.

Hassam se aproximou com Zohar e Ravid e cutucou Khadija por trás.

Hassam! Tudo bem?

Tudo bem! E você como está? - Respondeu ele dando um abraço forte em Khadija.

Estou bem. Obrigada!

Khadija, estes são Zohar, meu primo de Tel Aviv. - Disse Hassam apresentando Zohar para Khadija e ao lado dando abertura para que Ravid passasse. - E este é Ravid. É um dos melhores amigos de Zohar em Israel.

Um dos? - Brincou Ravid.

O melhor. - Riu Zohar.

Khadija olhou para o lado e fez sinal para que Zyan se aproximasse. Ao ver, Ravid, Faruk se desconsertou e deixou algumas coias caírem fazendo alguns barulhos pelo local. Não demorou para que Hassam entendesse que ele havia ficado desconfortável com a presença de Ravid.

Tudo bem? - Perguntou Zyan.

Tudo. Eu só deixei algumas coisas caírem. - Sorriu Faruk sem graça.

Quem é ele? - Perguntou Ravid sussurrando no ouvido de Hassam enquanto Zyan se aproximava.

Ele é irmão da noiva.

Ah... Tudo bem. - Assentiu ele.

Oi! Tudo bem? - Disse Zyan sorrindo.

Tudo bem. Me chamo Zohar. - Apresentou-se Zohar. Ele era o mais simpático dos três ali. Zohar era o tipo de homem nasceu em Tel Aviv e cresceu em uma família completamente muçulmana, mas não seguia nenhum tipo de religião tentando se esquivar de qualquer comportamento e sempre respeitando tudo ao seu redor. - Prazer.

Me chamo Zyan. Sou irmão de Khadija.

Prazer. - Sorriu Ravid. - Sou Ravid. Amigo de Zohar. Moro em Tel Aviv também.

Que legal. Acho que já ouvi falar de vocês. - Disse Zyan que estendeu a mão para Ravid que identificou logo a pulseira que Faruk tinha ganhado em Tel Aviv de seus tios no último verão.

Imagino que sim. - Sorriu Ravid olhando para a pulseira enquanto Faruk se aproximava dos três.

Oi, Faruk! - Sorriu Ravid abraçando Faruk. Foi um abraço forte e demorado. Fauk não esperava por aquilo.

Zyan ficou desconfortável e olhou para o lado enquanto Hassam observava a reação de Zyan e tentava não rir. Khadija ficou um pouco confusa ao ver o abraço dos dois, mas ignorou e continuou em silêncio enquanto o irmão olhava para o nada.

Como vocês estão? - Perguntou Faruk olhando para Zohar e Ravid.

Estamos bem, meu primo. - Disse Zohar. - E você?

Estou bem também.

E seu relacionamento com sua mãe?

Na mesma.

Eu sinto muito.

Hassam te contou?

Contou algumas partes. - Disse Ravid olhando para Zohar.

Algumas. - Zohar deu apertão em Hassam que ficou em silêncio e entendeu o puxão de orelha que o primo e o melhor amigo já tinham dado nele no caminho até ali.

Obrigado! - Sorriu Faruk.

Não quero ver vocês assim, um com o outro. Tudo bem? - Disse Ravid.

Tudo bem, Ravid. Obrigado!

Onde está Mourad? - Perguntou Ravid.

Está bem ali ajudando a banda. - Comentou Khadija.

Teremos banda? - Perguntou Zohar.

Sim. Ele é o Yaman. - Comentou Ravid que o conhecia devido aos seus covers do cantor Ivri Lider. - Eu amo Ivri Lider. Quem escolheu?

Zyan revirou os olhos.

Quem você acha? - Perguntou ele dando a entender que era Khadija.

Mentira. Você gosta de Ivri Lider?

Eu amo, mas meu pai nem sonha quem é.

Então fica quieto. - Gargalhou Faruk.

Hassam ficou em silêncio observando os demais brincarem enquanto Zohar pedia para que ele relaxasse.

Fique tranquilo. Estamos em família. Vamos beber e relaxar e se divertir, pelo menos uma noite. Seu irmão vai se casar e depois vai ser... - Zohar pensou antes de falar... - Você.

Eu?

Sim. É o único que resta. Não é mesmo? - Sorriu Ravid.

Ravid. - Chamou Zohar. - Aqui não é lugar para isso.

Desculpa. - Sorriu Ravid que já sabia do que havia acontecido na casa deles, pois Hassam já tinha compartihado com ele e seu primo.

Mourad se aproximou ao ver Zohar e deu um abraço forte no primo.

Zohar! Você veio! - Sorriu.

Sim. Estou aqui. Como você está?

Estou bem e você? Como você está grande.

Não tanto. Para. Você não vê tem dois anos.

É um tempo bom. - Sorriu ele olhando para Ravid. - Ravid? É você?

Sim. Sou eu. - Ravid se aproximou e deu um abraço em Mourad.

Nossa. Como você está grande. Está treinando.

Sim. Ando treinando.

Está ótimo.

Obrigado! Adorei a Khadija.

Ela é uma fofa. Não é?

Ela é linda, Mourad.

Obrigada! - Disse Khadija passando ao lado de Ravid e abraçando Mourad.

Yaman? - Chamou Ravid.

Oi! Tudo bem?

Conheço bastante o seu trabalho.

Obrigado! - Yaman agradeceu.

Já fui em alguns concertos seus em Tel Aviv.

Ah, você é de lá. - Riu ele.

Sim. Eu e Zohar, primo de Mourad.

Os dois se cumprimentaram e ficaram ali conversando ao lado de Khadija e Mourad que estavam abraçados e gargalhando ao ouvir piadas ditas por Zohar enquanto Hassam tentava fingir que estava se enturmando. Zyan que estava mais distante se aproximou de Faruk que tentava fingir que não estava prestando a atenção na conversa, mas observava cada gesto do irmão e dos acompanhantes.

Quem é Ravid? - Perguntou Zyan.

Não é ninguém.

Como assim não é ninguém? Que abraço foi aquele?

Zyan, o que você quer saber?

Você e Ravid... Já...?

Claro que não. Ele é amigo do meu primo Zohar. - Riu ele.

Tudo bem, mas é que eu achei o abraço um pouco?

Um pouco o que?

Calma. Eu só estou brincando.

Tudo bem, Zyan. Desculpe-me, talvez seja eu. Eu só estou um pouco cansado. - Bufou Faruk que deixou o que estava fazendo e subiu as escadas até o segundo andar.

Zyan que não entendeu a reação de Faruk, deixou as coisas por ali e foi atrás dele no segundo andar.

O que está acontecendo?

Nada, Zyan.

Você simplesmente mudou quando eu perguntei do Ravid.

Eu já disse que não está acontecendo nada.

Tudo bem, mas não precisa ficar assim.

Assim como? - Faruk se exaltou.

Assim. - Apontou ele. - Sem paciência.

Eu já te disse, eu estou cansado.

Tudo bem, eu respeito. Você quer alguma coisa?

Não. - Disse Faruk abaixando a cabeça. - Acho que eu vou em casa buscar umas roupas. Aproveitar que Hassam está por aqui.

Quer que eu te leve?

Não precisa, Zyan.

Faruk, eu disse alguma coisa?

Não, Zyan. Você não disse nada. Para de ser chato. - Resmungou Faruk deixando Zyan completamente em silêncio.

Tudo bem. Sem problemas. Eu... - Zyan começou a gaguejar. - Eu... Vou voltar lá para baixo. Qualquer coisa pode me chamar. Tudo bem?

Tudo bem. - Faruk revirou os olhos.

Enquanto Zyan andava em direção ao corredor, Faruk não se conteve e foi caminhando em direção a Zyan e chamou de volta.

Ei.

O que foi?

Me desculpe. Tá?

Tudo bem. Eu só não entendi o porquê de você estar exagerando.

Você acha que eu estou exagerando?

Não.

Então por que você disse?

Faruk... O que está acontecendo?

Eu não sei, Zyan... - Faruk colocou as mãos no rosto e se sentou na beirada da cama.

Quer conversar?

Eu me senti inseguro. Tudo bem?

Com o que?

O Ravid chegando. Ele é bonito. Faz o seu tipo. Ele é engraçado. Ele consegue conversar. Se comporta bem. Ele é um cara e tanto e chama a atenção de todo mundo por onde passa.

Você está mesmo dizendo isso?

Sim. Você não viu o Ravid?

Claro que eu vi o Ravid. Eu não sou cego. Ele é bonito.

Então...

Mas por que eu iria querer o Ravid?

Porque eu acho que ele talvez curta outros caras.

Por que você está dizendo?

Nós passamos as férias juntos em Tel Aviv e ele tem um jeito assim, sabe? Um pouco evasivo. De pega de uma forma diferente. Te abraça. Sabe? Fala de uma forma diferente. Eu não sei explicar.

E por que você não tenta?

Explicar?

Não. Ficar com ele.

Zyan... Porque eu te quero!

Zyan ficou em silêncio.

Desculpe-me, Faruk.

Eu sei que você tem outra pessoa e que me vê apenas como um irmão para você. Tudo bem? Mas eu gosto de você, cara.

Eu não tenho mais essa outra pessoa.

Não?

Não.

O que aconteceu?

Ele terminou comigo.

Ele o que? - Faruk começou a rir.

Não ria.

Ele terminou com você?

Quando?

Ontem.

Ontem?

Ontem!

Que horas.

No Jantar.

No Jantar?

Sim. Foi bem logo depois que Khadija chegou.

Ah, quando você saiu alguns minutos.

Sim.

E o que ele te disse?

Que está saindo com outra pessoa.

E como você está?

Bem.

Bem?

Bem. Eu acho.

Você não chorou?

Não, Faruk. Estamos ajudando com um monte de coisas aqui em casa. Eu não conseguiria chorar.

E por que você não me contou?

Eu ia contar.

Quando?

Hoje.

Que horas?

Sei lá... Mais tarde... Talvez.

Mais tarde? Talvez?

Sim, Faruk. Você entendeu.

Eu te conto tudo.

Eu também te conto tudo.

Isso você não tinha me contado.

Nem você me contou de Ravid.

Tudo bem, Zyan você venceu.

Não. Não é uma discussão de quem vence ou não.

Está parecendo.

Porque você a criou, meu Deus! Você não está vendo que eu estou tentando conversar com você?

Faruk ficou em silêncio se segurando para não gargalhar enquanto Zyan estava um pouco aflito.

Acalme-se. - Disse Faruk. - E como você está?

Eu acho que eu estou bem.

Você acha mesmo?

Não sei, eu gostava do Lautaro.

Eu sei que você gostava dele ou gosta dele, eu não sei. Você precisa lidar com isso.

Mas é novidade para mim.

Pra todo mundo, Zyan. É o só o seu primeiro.

Você já teve o seu primeiro?

Faruk deu de ombros. Zyan não conseguia nem imaginar que o primeiro amor de Faruk tinha sido Ravid.

Já entendi. - Zyan deu de ombros.

Primeiro amor às vezes é assim. Pode platônico, pode não ser. O fato é que machuca e dói. E a gente chora e sofre e é isso. Mas você precisa entender que é só uma fase. Tudo bem?

Mas eu não estou chorando.

Mas uma hora você pode chorar.

Eu não sei se eu vou chorar.

Zyan, em que mundo você vive?

Ele me perguntava isso.

OK. Isso é ruim?

Não. Me faz lembrar.

OK. Então é péssimo.

Faruk agarrou a mochila e foi caminhando em direção a Zyan.

Vamos dar uma volta.

Tem certeza?

Vamos! Quero que você vá comigo.

Sua mãe está em casa?

Não sei e se ela estiver, eu peço o Hassam para pegar algumas roupas e a gente espera lá fora.

E por que quer que eu vá junto?

Ela não vai me expulsar na sua frente.

Você acha que não?

Não. Não mesmo. Vamos. - Chamou Faruk.

Zyan agarrou as chaves do carro e desceu as escadas e avisou à Khadija que estava indo na casa de Faruk com ele pegar algumas mudas de roupas. Mourad fez sinal para que Faruk se comportasse e ficasse de olho em Hassam, pois ele sabia que Hassam era a confusão da casa. Zohar e Ravid caminharam atrás conversando com Faruk e Zyan enquanto Hassam pegava o carro e ligando girando a chave na ignição.

Zyan foi em seu carro com Faruk enquanto Hassam foi no outro carro com Zohar e Ravid.

Como aquela família é bonita. - Comentou Ravid.

Eu os adorei também. Mourad fez uma ótima escolha. - Comentou Zohar.

Sim, eles são super legais.

Não senti muita firmeza. - Riu Ravid.

Relaxa. Ainda estou me acostumando com tudo que está acontecendo.

Você acha mesmo que eles estão... - Ravid deu uma pausa.

Pode falar, Ravid. Hassam precisa se acostumar. - Gargalhou Zohar. - Estamos em 2024, Hassam. Tudo bem que você foi criado de uma forma que não permite se adaptar com certos costumes e culturas, mas você precisa respeita-los.

Eu sei, Zohar, para vocês é mais fácil.

Mais fácil? - Ravid Gargalhou.

Para vocês que moram em Tel Aviv, que é considerada a capital homossexual do Oriente Médio é super tranquilo vocês falarem isso. - Disse Hassam.

Hassam, olha o que você acabou de falar.

Mas é verdade. O que é você é, afinal? - Perguntou Hassam enquanto dirigia.

Sou Bissexual. - Afirmou Ravid.

Você já definiu? - Perguntou Zohar.

Talvez eu seja bissexual. Eu não sei. Talvez eu só esteja confuso ainda.

Eu sou hetero. - Disse Zohar.

Eu sei que você é hetero.

Eu também. - Afirmou Hassam.

Eu sei, mas por que isso agora?

O que faz uma pessoa ser Bi? - Perguntou Hassam.

Sentir interesse em ambos os sexos.

De forma igual?

Pode ser que sim e pode ser que não.

Tudo bem. - Hassam virou os olhos.

Você precisa conversar com o seu irmão. - Disse Ravid.

Nós vamos conversar.

E parem com isso. Ele é a única pessoa que você vai ter a partir de agora. - Disse Zohar. - Eu nunca tive nenhum irmão e você tem dois.

Hassam ficou em silêncio durante um tempo após ouvir o que Zohar havia dito. Ele não sabia a dor que Zohar enfrentava por ser um filho único e sozinho dentro de casa na ausência de seus pais. Ter um irmão, muitas vezes é ter um amigo e ele sabia disso, pois teve Mourad por muito tempo em sua vida e Faruk que sempre foi ligado a ele. Hassam não tinha amigos fora de casa, além de Zohar e Ravid.

Já no portão da casa de Hassam e Faruk, Zyan estacionou o carro e aguardou que Hassam chegasse logo atrás. Hassam chegou com o carro e abriu o portão e passou direto, em seguida, Zyan e Faruk desceram e foram caminhando até as escadas que levavam para dentro da mansão. Faruk ainda estava apreensivo devido à discussão que teve com a sua mãe dias atrás e não queria ultrapassar os limites daquela casa. Afinal, ela havia o colocado para fora.

Ravid saiu do carro primeiro e colocou suas mochilas em seus ombros. Em seguida, Zohar fez o mesmo e logo por último desceu Hassam que olhava fixamente para Faruk.

Pode entrar, Faruk. Mamãe não está em casa. - Disse ele.

Faruk assentiu com a cabeça e entrou pelas portas enquanto Zyan foi atrás. Hassam, Zohar e Ravid foram andando enquanto Ravid admirava o jardim da mansão de Hassam e elogiava cada canto do lugar.

Tem uma piscina aqui. - Comentou Zohar.

Sério? - Vibrou Ravid.

Logo ali atrás. - Disse Hassam.

Ravid não hesitou em apertar os passos para conhecer a piscina que ficava logo atrás da mansão em um local mais aberto e amplo com uma vista maior para a cidade de Riade.

Nossa! Está muito diferente de quando viemos aqui mais novos. - Disse Ravid.

Meu pai fez uma reforma aqui há um tempo. - Disse Hassam comentando a respeito da reforma que a casa tinha passado há uns anos.

Ficou incrível.

Enquanto Zohar e Ravid observavam a vista de Riade, Hassam se adentrou para a casa e começou a buscar alguma coisa para que eles pudessem comer antes de começarem a se arrumar para a comemoração na casa de Khadija. Ao chegar na cozinha, ele começou a abrir algumas portas do armário e buscar por algumas coisas para montar um sanduíche para ele e os amigos. Faruk desceu as escadas com uma mochila e algumas roupas em mãos enquanto Zyan carregava uma outra mochila também.

Já estou indo. Tudo bem? - Disse Faruk.

Tudo bem. - Assentiu Hassam.

Faruk abaixou a cabeça e foi seguindo em direção ao corredor.

Faruk... - Chamou Hassam. - Se cuide!

Você também. - Assentiu ele.

Zyan abriu a porta para que Faruk pudesse passar e em seguida a fechou atrás de si. Os dois foram caminhando juntos para o carro, onde colocaram as roupas no banco de trás e as mochilas no porta malas. Enquanto Zyan fechava a porta de trás do carro, Faruk estava em pé observando a sua casa que iluminada com o sol da tarde, fazia com que ele sentisse um pouco de nostalgia por viver ali.

Está com saudades de casa?

Estou. - Disse Faruk. - Sinto saudaes do meu pai. Do meu irmão. Da minha mãe. Da minha família.

Eu sei. Eu sinto muito.

Não precisa.

As coisas vão se resolver.

Tomara. - Sorriu ele olhando para Zyan.

Bom, vamos, porque temos que almoçar com Khadija ainda.

Vamos.

Os dois entraram no carro e partiram em direção ao destino combinado com Khadija e Mourad. Khadija tinha combinado um almoço com os mais chegados a ela e Mourad em um dos restaurantes próximos ao Kingdom Centre. Ela queria fazer alguns agradecimentos às pessoas que estavam ali com ela e Mourad e ter um momento um pouco mais íntimo com eles, já que a festa seria para todos os familiares e amigos.

Khadija já estava sentada ao lado de Mourad quando Nizar e Rana chegaram. Os casais se abraçaram e Rana a entregou um presente a ela. Era uma pulseira com alguns pingentes que fazia menção ao fundo do mar. Khadija abriu e ficou surpresa com a beleza e os brilhos de algumas das pedras que se misturavam aos pingentes que ali estavam.

Deixe-me colocar para você. - Disse Rana.

Khadija estendeu a mão e Rana envolveu seu pulso com a pulseira e a prendeu.

É linda! - Sorriu Khadija. - Obrigada. - Agradeceu ela dando um beijo e um abraço em Rana.

Poucos segundos depois, chegaram Zohar, Hassam e Ravid. Eles também levaram alguns presentes para Mourad. Os presentes variavam entre relógios, cordões e uma camiseta. Para Khadija, eles deram um anel que também a surpreendeu e combinou com a pulseira dada por Rana. Tariq e Rabie chegaram logo em seguida e aos cumprimentos também presentearam Mourad e Khadija. Para os dois, eles deram dois tipos de perfumes com fragrâncias diferentes para ambos e acompanhado de chocolates importados que eram os favoritos de Khadija.

Você lembrou. - Sorriu Khadija ao receber a caixa de bombons de Tariq.

Claro que eu lembrei. Você sempre pedia o papai para trazer quando voltava de viagem.

Obrigada. - Disse ela abraçando o irmão.

Alguns minutos depois, Zyan estacionou o carro em um dos estacionamentos do Kingdom Centre.

Foi aqui. Lembra? - Sorriu Faruk.

Como esquecer? - Sorriu ele olhando para Faruk.

Os dois desceram do carro e foram caminhando até um dos elevadores com o telefone em mãos tentando contato com Khadija que logo em seguida fez um sinal para eles de uma das entradas do restaurante. Zyan então apertou os passos e foi de encontro à irmã. Os dois entraram e se sentaram juntos aos demais.

Aquele almoço foi um dos mais importantes do dia para Khadija. Além de ela conseguir juntar todos os seus amigos ali, naquele momento especial, ela conseguia também manter uma conexão com todos eles. Seria diferente de estarem juntos em uma festa como a que estava para acontecer naquele momento. Ao mesmo tempo que ela conseguia conversar com Nizar que estava do outro lado da mesa, ela conseguia ouvir o que Ravid falava com Zohar na outra ponta e aquela interação era o que ela precisava para que todos eles pudessem estar juntos e se conhecerem cada vez mais. Afinal, aquelas eram as pessoas mais ligadas ao casal naquele momento.

E quanto aos seus amigos, Mourad? - Perguntou Tariq.

Meus amigos deixaram para vir na parte da noite. - Respondeu Mourad sorrindo.

Eu ainda não conheci nenhum deles. - Sorriu Khadija.

São todos legais. - Afirmou Mourad.

Espero. - Assentiu Khadija.

E aí? - Perguntou Ravid para Faruk. - Está calado.

Estou um pouco cansado.

Cansado? E temos uma festa para hoje à noite. - Disse Ravid.

Acho que é melhor alguém descansar. - Sorriu Khadija.

Todos sorriram juntos.

E o que vocês fazem por aqui? - Perguntou Ravid.

Por aqui... Em Riade? - Respondeu Nizar.

Sim. Em Riade.

Bom, nós não temos praia como Tel Aviv, mas temos um deserto para andar. Temos restaurantes, bares e bastante coisas para fazer. - Sorriu Rana.

Como são as praias de Tel Aviv? - Perguntou Rabie.

São bonitas. Eu gosto bastante de Jesuralem Beach. - Comentou Ravid.

É um dos cartões postais de Tel Aviv, não é?

Creio que sim, mas não um dos melhores. - Sorriu Zohar.

E qual é melhor? - Indagou Tariq. - Temos algum?

Claro que temos. Que ofensa. - Gargalhou Ravid. - Temos o calçadão de Tel Aviv, por exemplo. É ótimo para um fim de tarde.

O que mais vocês têm por lá? - Riu Tariq.

Temos o porto também. - Riu Ravid.

O porto de Tel Aviv é muito bonito. - Pontuou Faruk.

Você já esteve lá? - Perguntou Zyan.

Uma vez. - Respondeu Faruk olhando para Zyan e correndo o olhar pelas pessoas na mesa. - Foi com o Ravid.

Sim. Fomos juntos. Lembra da sua cara quando eu te contei sobre os segredos ocultos do farol de Jaffa que do alto da colina dava-se para ver os piratas chegando ao porto de Tel Aviv? - Gargalhou Ravir ao perceber a cara de Faruk e Hassam.

Eu me lembro dessa história. - Comentou Hassam. - Ele chegou aqui em Riade contando isso e saiu pesquisando sobre ataques de piratas no porto de Tel Aviv.

Ele fez isso mesmo? - Perguntou Zohar. - Eu achei que vocês estivessem brincando.

Faruk acredita em tudo. - Sorriu Ravid passando suas mãos em volta aos ombros de Faruk que, sem graça, abaixou a cabeça e olhou para Zyan.

E o que mais nós temos lá? - Perguntou Zyan.

O que nós temos aqui? - Perguntou Ravid.

Temos o Kingdom Centre que é este local inclusive que você está nele e que nós fomos expulsos por estarmos próximos demais um do outro e que você pode ser chamado a atenção inclusive por estar com as mãos em cima de Faruk, neste exato momento. - Riu Zyan.

Isso não aconteceu. - Disse Khadija.

Aconteceu sim. - Insistiu Zyan.

Quando? - Já tem um tempo. - Nós nos metemos em uma confusão aqui.

Por causa disso? - Disse Ravid puxando Faruk um pouco mais para perto.

Por favor, Ravid, aqui não. - Pediu Faruk.

Qual é o problema, Faruk? Eu estou cansado. Por favor, me respeite. - Sorriu ele.

Tudo bem. - Ravid revirou os olhos.

Os demais ficaram em silêncio.

E como foi Nova Iorque? - Perguntou Nizar se direcionando para Zyan.

Você esteve em Nova Iorque? - Perguntou Ravid.

Sim. Estive, tem uns meses.

Sério? - Perguntou Zohar.  - E como foi? É como no cinema?

É como no cinema só que melhor. - Riu Zyan.

Imagino. - Sorriu Hassam. - Digo, a cultura deve ser incrível. Não é?

Com certeza. O que há de errado com a cultura dos americanos? - Perguntou Rana.

Nada. Eu prefiro muito mais a nossa.

É a sua cultura, Hassam. - Sorriu Rana. - Todos nós temos uma cultura. Somos criados e construídos em uma sociedade com base em uma cultura e é isso que nos faz quem nós somos. Você pode conhecer outras culturas e pessoas, mas isso não faz de você melhor do que uma outra pessoa ou vice versa. - Pontuou Rana.

Talvez seja por isso que ainda temos muitas desavenças pelo mundo. - Concluiu Nizar.

Vocês são um casal e tanto. - Disse Ravid. - Olha estes dois.

Eu falei com Khadija ontem. - Riu Mourad.

O que você disse? - Sorriu Rana.

Que vocês formam um casal incrível e que isso é muito raro de se ver. - Elogiou Mourad.

Vocês também. São um dos nossos primeiros amigos como casal. - Disse Rana.

Vocês são o primeiro casal. - Disse ele. - E o que usaremos como referência.

Khadija que estava com o olhar baixo naquele momento, percorreu o olhar até Nizar que estava olhando diretamente para ela e ao perceber que ela o notou, ele desviou o olhar rapidamente para o lado onde estava Rana.

E quanto a você, Ravid? É solteiro também? - Perguntou Tariq.

Sim, sou solteiro. Aliás, sou bissexual. - Sorriu Ravid olhando para todos na mesa.

Mourad engoliu em seco e continuou em silêncio enquanto Hassam fingiu não ter escutado.

Bissexual. - Sorriu Tariq. - Isso é interessante.

Um pouco. - Comentou Zohar. - Você não acha?

Com a resposta de Zohar, Tariq se sentiu um pouco alfinetado e decidiu ficar em silêncio. Zyan que prestava a atenção na conversa na mesa, abaixou o olhar e fingiu procurar algo no cardápio. Ele começava a suar frio e pensava no quanto para Ravid era fácil falar sobre a sua bissexualidade assim em uma mesa com pessoas desconhecidas. Ele queria ser daquele jeito. Faruk ao seu lado, se levantou e pediu licença para se ausentar durante alguns segundos.

Licença. Preciso ir ao banheiro. - Disse Faruk.

Enquanto Faruk caminhava até o banheiro, Ravid corria seus olhos atentos por Faruk enquanto ele ia em direção ao corredor que o levaria até uma das cabines masculinas. Não demorou alguns segundos para que ele se levantasse também com o telefone em mãos.

Vou atender uma ligação. Com licença.

No banheiro, enquanto Faruk tentava fechar a porta, ele sentia a o vão da porta se agarrar ao chão.

Merda. - Sussurrou ele ao tentar fechar a porta novamente.

Ao puxar a porta para si, ele viu que o tênis de Ravid estava do outro lado da porta impedindo-o e de fechá-la. Foi quando Ravid empurrou a porta, agarrou Faruk e a fechou atrás de si. Ao som da banda americana Twenty One Pilots, Tear in my Heart, Faruk e Ravid se agarraram durante longos minutos no banheiro.

Aquele foi o primeiro beijo entre Faruk e Ravid, embora a atração sexual entre eles tivesse sido grande desde que eles se conheceram anos atrás, Ravid sabia que era mais velho que Faruk e nunca tinha se quer pensado em ultrapassar os limites entre ele e o primo de seu melhor amigo Zohar.

Em uma das primeiras vezes que eles se viram, Faruk tinha dezesseis anos de idade e Ravid tinha já dezenove anos e já sabia o que buscava e o que queria para a sua vida. Hoje, com dezoito anos, prestes a completar dezenove, a mesma idade que Ravid tinha quando se conheceram, Faruk já sabia um pouco o que gostava e o que buscava para a sua vida.

Aquele foi um dos momentos mais loucos de Ravid naquela viagem. Ravid nunca foi o tipo de rapaz que mediu suas ações e as consequências que elas poderiam trazê-lo. Por isso que, naquele momento, ele se levantou e foi atrás de Faruk no banheiro o agarrou ali mesmo, sem que ninguém pudesse saber ou desconfiar.

Dentro da cabine estavam os dois, que se beijavam de forma ardente e silenciosa. Enquanto Ravid tentava controlar a sua respiração, Faruk tentava não fazer nenhum barulho com os pés ou encostar em nada que pudesse ecoar algum barulho pela cabine e despertar algum tipo de atenção das pessoas ao redor.

Você está lindo. Sabia? - Disse Ravid.

Obrigado.

Eu não ia conseguir me segurar até o final do dia. Me desculpe.

Tudo bem.

Você e o Zyan...

Não... Nós não temos nada.

Vocês parecem dois namorados.

Não somos nada. Zyan não sabe o que quer da vida.

Isso é bom. Bom que sobra você para mim.

Faruk sorriu.

Eu acho melhor você sair daqui. - Disse Faruk. - Se alguém ver a gente aqui, pode dar problemas. Eu digo sério. Não estamos em Tel Aviv.

Tudo bem. Eu entendo. - Sorriu Ravid. - Me dá mais um beijo?

Não, Ravid. - Faruk tentou empurrar Ravid que o segurou firmemente contra a parede.

Só um beijo.

Tudo bem. - Faruk revirou os olhos e encostou seus lábios nos lábios de Ravid. - Pronto! Sai daqui.

Hoje à noite você é meu. - Disse Ravid piscando os olhos antes de sair da cabine.

Faruk balançou a cabeça e ainda incrédulo ficou dentro da cabine enquanto tentava ouvir os passos de Ravid que se distanciava dali. Ele então abriu a porta, olhou discretamente diante do vão da porta e saiu da cabine em direção a um dos espelhos.

Na mesa, Khadija aguardava Faruk voltar para começar a fazer os agradecimentos aos amigos que estavam ali. Faruk se aproximou da mesa e sentou-se junto aos demais enquanto Khadija começava a falar.

Bom, eu não sei como começar a falar sobre tudo isso. Eu juro que eu tentei ensaiar em casa para não ficar insegura aqui ou me esquecer do que eu vou falar e falar alguma besteira, enfim, mas hoje eu decidi reunir todos vocês aqui porque é um dia especial não só para mim como também para ele, o homem da minha vida, Mourad. - Mourad então sorriu e agarrou as mãos de Khadija que estava em pé. - Quando nossos pais me disseram que eu me casaria, me pegou de surpresa, eu confesso. Eu estava completamente dispersa conversando com Zyan sobre coisas aleatórias e então meu pai Farah e minha Ghaith me chamaram até o andar de baixo de nossa casa e me disseram que tinham uma conversa um pouco séria comigo. Eu, então, assenti. Não foi, Zyan? - Sorriu ela em direção ao irmão que concordou com ela. - E desci as escadas até papai e mamãe que estavam já sentados em uma das poltronas da sala e eles me disseram que tinham algo para me dizer. Eu já esperava que talvez fosse um casamento, mas não que ele aconteceria tão rápido e da forma que tem acontecido na minha vida. Naquele dia, eu subi para o meu quarto e chorei durante horas e horas seguidas e passei uma noite acordada até o dia que conheci Mourad. Ele tinha, em seus olhos, o mesmo medo que eu. Medo de estar se relacionando com alguém arranjado pela família e que ele se quer conhecia, mas ainda assim, eu tinha sido uma escolha dele e para ele. E o tempo foi se passando e eu me perguntando como vou me apaixonar por essa pessoa? - Ela se perguntou e Nizar automaticamente abaixou o olhar. - E a resposta estava na minha frente o tempo. Todas as vezes que eu olhava para Mourad e ele estava ali, sorridente para mim, eu já tinha uma das minhas maiores certezas de que o amor entre a gente já estava acontecendo. Hoje, eu quis trazê-los aqui para dizer a todos que, cada um de vocês são muito importantes para cada um de nós e que a partir de agora, nós somos todos uma única família. Então, vamos brindar e aproveitar a nossa tarde e um brinde à nossa noite que será repleta de músicas e muita comemoração. - Sorriu Khadija levantando uma das taças enquanto os demais brindavam juntos à ela.

Um brinde. - Sorriu Mourad.

Todos brindaram em um único movimento, juntando todas as taças e sorrindo uns para os outros enquanto ao meio de sorrisos desejavam felicidades à Khadija e Mourad. O almoço passou rápido naquela tarde, todos eles já tinham ido para casa e estavam se preparando para a festa de comemoração que muito estava sendo falada entre eles. Hassam sentia saudades de aproveitar uma noite e uma festa ao lado do primo Zohar e Zohar, por sua vez, também sentia falta dos primos Hassam e Faruk. Estar com Ravid era fundamental para que toda a diversão acontecesse. Ravid acostumava ser o mais animado entre ele e Zohar e eles juntos acostumavam ser fundamental para toda e qualquer diversão em uma noite.

Ravid e Zohar estavam sentados em uma das poltronas no quarto de Hassam que caminhou até a porta e gritou por Najat que logo em seguida apareceu no quarto.

Oi, meninos! Tudo bem?

Mamãe, acho que Zohar e Ravid já irão se arrumar.

Ah, claro. - Disse ela com um sorriso misterioso. - Temos um presente para vocês.

Um presente, tia? - Sorriu Zohar.

Um presente. - Enfatizou ela abrindo o guarda roupas de Hassam. - Compramos para vocês dois thobes para que vocês possam usá-los essa noite. Se ficar um pouco apertado, briguem com Hassam, por favor. Ele quem os escolheu. - Disse ela entregando um em cor vermelha para Ravid e outro em tons azuis marinhos para Zohar.

Que lindo! - Riu Ravid. - Obrigado, Senhora Najat.

Não precisa agradecer, Ravid. Obrigado a vocês por serem incríveis com Hassam e... - Ela deu uma pausa. - Faruk. Bom, eu vou terminar de me arrumar e fiquem à vontade. E comportem-se na casa de Farah e Ghaith, por favor. Ouviu, Hassam?

Ouvi. - Assentiu ele.

Agora sim, sou árabe de verdade. - Sorriu Ravid se olhando no espelho enquanto segurava a peça de roupa em frente a si.

Vai se trocar. - Brincou Zohar.

A roupa de Hassam tinha uma tonalidade branca com detalhes dourados. Foi assim que eles tinham combinado com Mourad. Os irmãos iriam vestir tonalidades mais claras e parecidas com a do noivo.

Olha, está parecendo gente grande. - Brincou Zohar.

Que bom que você gostou. - Sorriu Hassam.

Hassam, você está bem mesmo?

Estou bem. É que...

Esquece tudo que passou, Hassam.

Aproveite a sua noite e que estamos aqui. Vamos nos divertir. Tudo bem? - Zohar sorriu e abraçou seu primo que assentiu com a cabeça.

Hassam estava bem relutante em aceitar todas as mudanças que começara a ter em sua família de um tempo pra cá. Primeiro, o casamento de seu irmão e a junção com uma nova família. Depois, a morte de seu pai e o lance todo com Faruk ter saído de casa. Então, sua cabeça estava um pouco bagunçada com relação a tudo e a todos. Ele estava tentando aos poucos manter-se mais tranquilo e não deixar isso transparecer para as outras pessoas, mas em alguns momentos ele acabava falhando consigo mesmo.

Distante dali, Zyan terminava de se vestir enquanto Faruk saía do banho. A roupa de Zyan era escura, tonalidade preta, com um branco realçado e detalhes dourados no braço, em baixo do pescoço e por baixo da roupa, ele vestia uma calça e tênis branco. Faruk saiu do banho e deu de cara com Zyan que já estava pronto e passava um pouco perfume para dar um toque final.

Uau! - Disse Faruk.

Que foi? - Sorriu Zyan.

Você.

Faruk deu uma pausa.

Você está lindo. - Elogiou.

Obrigado! - Sorriu Zyan. - Eu estou com uma cara de cansado. Nem consegui arrumar a minha barba direito. - A barba de Zyan estava completamente desenhada e perfeita. Sem nenhuma imperfeição.

Você também está bonito. - Elogiou Zyan.

Para. Eu gostei, mas tonalidade mais clara para mim me deixou um pouco baixo. Você não acha?

Claro que não. É coisa da sua cabeça. - Disse Zyan tentando brincar com Faruk e se aproximando dele de uma forma que eles ficassem mais próximos um do outro. Faruk se afastou.

Bom, se você acha. - Sorriu ele. - Vou terminar de arrumar.

Tudo bem. - Estranhou Zyan. - Bom, vou descendo então. Qualquer coisa me avisa.

Tudo bem. - Assentiu Faruk.

Zyan saiu de seu quarto e foi caminhando até o quarto de sua irmã Khadija que terminava de se arrumar junto com mais três amigas. Ele bateu à porta.

Posso entrar?

Uma delas quase disse não, mas foi interrompida por Khadija.

Venha, irmão. - Khadija puxou Zyan pelo braço.

Como você está linda. - Disse Zyan com um brilho nos olhos enquanto admirava a beleza da irmã.

A roupa de Khadija cobria todo o seu corpo em um tecido totalmente preto com detalhes dourados nas pontas e próximo ao rosto. Seu rosto ficava todo descoberto e o tecido era totalmente pesado e fazia com que o seu corpo tomasse um certo formato em baixo da roupa. Ela estava realmente muito linda e ao lado de Zyan, fez com que ela percebesse que havia escolhido a melhor cor para se juntar a Zyan e a Tariq.

Onde está Tariq? - Perguntou Khadija.

Deve estar se arrumando.

Espero que ele tenha gostado da roupa dele.

Com certeza.

Vamos descer?

Vamos!

Khadija foi andando na frente com suas amigas e Zyan atrás. Ao passarem pelo corredor, elas se encontraram com Faruk que deu um abraço em Khadija e disse o quanto ela estava linda naquela noite. Em seguida, eles se encontraram com Tariq que estava saindo do quarto também de roupa com tonalidade preta e dourada, no mesmo estilo que Zyan, porém com sapatos amarronzados.

Vamos descer? - Chamou Khadija.

Vamos. - Sorriu Tariq. - Você está linda. Aproveite a sua noite.

Obrigado, meu irmão.

Eles foram seguindo em direção ao corredor e desceram as escadas onde alguns convidados já estavam dentro da mansão e outros dispersos do lado de fora. Um carro estacionava em frente a mansão e era Nizar com Rana. Nizar havia escolhido uma roupa em tons verdeados bem escuros e com um Ghutra claro mesclado com uma cor bege que fazia com que as cores ficassem completamente em harmonia. Rana decidiu optar por uma cor mais lilás e um pouco mais discreta. Ela não gostava daquele tipo de vestimenta, mas tentou ao máximo impressionar Nizar para que ficasse linda aos olhos dele.

Mourad já esperava Khadija na porta da mansão enquanto conversa com Farah e alguns amigos. Khadija se aproximou e aos poucos ele foi se afastando dos amigos e de Farah e foi caminhando em direção à Khadija e a deu um beijo.

Você está linda!

Você também está lindo.

Eu te amo!

Eu também te amo!

Hassam se aproximou de Khadija e também a elogiou juntamente com Zohar. Ravid logo atrás veio caminhando tirando um pouco da atenção que Zyan estava sob Khadija voltando somente para ele.

Oi! Tudo bem? Onde está Faruk? - Perguntou Ravid.

Logo ali trás. - Apontou Zyan.

Ah, gostei da roupa. - Disse Ravid.

Obrigado.

Não. A dele. Ficou boa. Não é?

Ah, sim. - Zyan deu de ombros. - Ficou ótima. Aliás, você também ficou bem de vermelho.

Obrigado!

Ravid foi se aproximando de Faruk que pegava alguns petiscos na mesa.

Oi! - Disse ele se acercando de Faruk.

Oi, Ravid!

Você está bonito!

Obrigado! - Assentiu Faruk. - Você também.

Agora eu estou um Árabe.

Sim, agora sim. Está bonito.

Vamos beber alguma coisa?

Vamos. Me dá uns minutos. Preciso comer algo.

Enquanto eles conversavam, Najat se aproximou e observou a conversa de Ravid e Faruk. Atenta, ela ficou de pé distante prestando a atenção no que o filho conversava com Ravid. Eles pareciam próximos demais. Mais próximos que Zyan que estava um pouco mais a frente e de costas. Najat então apertou os olhos e foi caminhando em direção a Faruk.

Faruk, posso conversar com você?

Oi, mamãe. - Disse Faruk. - Claro.

Vou deixá-los a sós. - Disse Ravid.

Os dois foram caminhando em direção a um canto da sala onde conseguiam conversar um pouco melhor e longe de outras conversas que percorriam os cantos da sala.

Você está bem? - Perguntou Faruk.

Estou bem, Faruk. - Najat abaixou o olhar. - E você?

Estou bem também.

Que bom. - Assentiu Najat. - Eu queria te pedir um favor.

Claro.

Tente não ter aquele tipo de comportamento aqui também.

Do que você está falando?

Eu vi você conversando com Ravid agora. Primeiro foi Zyan e agora o amigo de Zohar que veio com ele de Tel Aviv. Quantos mais serão necessários, Faruk?

Mamãe? - Faruk estranhou.

Eu não sou tola, Faruk.

O que você está insinuando com isso?

Você está com Zyan em baixo do teto de Ghaith e conversando com Ravid daquela forma?

Eu não estou com Zyan se é isso que te interessa.

Não? E o que você está fazendo aqui?

Você me expulsou de casa. Você se lembra?

E você tinha que vir justo pra cá?

Eu não tinha para onde ir, mamãe.

Faruk, não minta para mim mais uma vez. Por favor...

Eu não estou mentindo.

Tudo bem, Faruk. Eu não quero mais falar disso com você.

Mas foi você que...

Faruk... por favor... aqui não.

Najat discretamente sorriu e deixou Faruk no canto da sala e foi caminhando até o pátio passando por Zyan que o procurava pela sala.

Está tudo bem? - Perguntou Zyan.

Está.

E por que essa cara?

Nada, Zyan.

Faruk, conversa comigo.

Faruk revirou os olhos para Zyan.

Zyan, está tudo bem. Fique tranquilo.

Mas você está assim o dia todo.

Eu sei, me desculpa. Eu não queria te incomodar.

Você não está incomodando eu que estou pensando que eu estou te incomodando.

Os dois ficaram em silêncio.

Olha, eu não quero ser um chato para você. Tudo bem? - Disse Zyan. - Eu só estou me preocupando com você e eu não consigo explicar o que é isso. Eu nunca me preocupei assim com alguém como estou me preocupando com você. Querendo saber se você se você está bem o que você está sentindo e o que está passando pela sua cabeça.

Faruk ficou em silêncio enquanto segurava algumas lágrimas que estavam contidas em seus olhos.

Eu sei que você passou por muita coisa ultimamente, Faruk, mas eu quero estar ao seu lado. Eu já te disse, você é a minha família agora.

Eu sou a sua família?

Sim. Nós somos uma família agora. Precisamos cuidar um do outro.

Tudo bem, Zyan. - Não era o que Faruk gostaria de ter escutado naquele momento. Então Faruk apenas revirou os olhos e foi caminhando até a mesa onde tinham alguns petíscos. - Vamos nos juntar aos meninos.

Faruk foi caminhando na frente enquanto ele ficou atrás imaginando se poderia ter dito algo que não deveria. Sozinho, no canto, Zyan passou a mão no rosto e foi caminhando em direção a Faruk que já estava ao lado de Zohar, Hassam e Ravid. Ravid estava sempre alegre e com o humor muito elevador. Ele conseguia fazer todos ao seu redor rir. Era como se ele conseguisse encher um ambiente totalmente escuro de luz e tornar um ambiente triste, alegre.

Faruk se aproximou de Ravid com um semblante um pouco triste e em poucos segundos já estava rindo do que Ravid conversava. Parecia que Ravid estava sempre contando piadas. Zyan então começou a se afastar lentamente dos quatro e foi caminhando em outra direção.

Ao avistar Khadija e Mourad, Zyan se esquivou para que não fosse visto e simplesmente fugiu da direção dos olhos da irmã. Mais uma vez, no canto de uma pilastra, ali estava ele, sozinho. Era quase automático. Todas as vezes que Zyan ficava sozinho, ele buscava seu telefone ao bolso e pensava em mandar alguma mensagem para Lautaro. Lautaro era a pessoa que estava sempre ali para ele, custasse o que custar, era Lautaro. Ao se sentir sozinho, ele poderia pegar o telefone e escrever facilmente uma mensagem para Lautaro.

Encostado em uma das pilastras, Zyan ainda estava com o olhar baixo e com as mãos no bolso. Enquanto pensava em Lautaro, ele agarrou o telefone e ao retira-lo do bolso, virou o visor do telefone para si. Em meio de um monte de aplicativos, ele buscou então o aplicativo comunicador do WhatsApp e no campo de busca de contatos, digitou pelo nome de Lautaro.

Lá estava Lautaro e seu último histórico de conversação com ele de dias atrás. Zyan então com um dos dedos enquanto os outros se seguravam ao telefone, deslizou a barra de rolagem da conversa para ler cada uma das mensagens que eles trocaram ao longo de todo o tempo que se conheciam. E sem hesitar, começou a escrever.

Saudades. Escreveu Zyan. O clarão da tela refletia no seu rosto de uma forma tão forte que no escuro se tornava um incômodo para ele, mas mesmo assim, ele ficou ali, parado, lendo a palavra “Saudades” que era o que ele gostaria de enviar para Lautaro e dizer para ele em uma única palavra o quanto Lautaro fazia falta nos seus dias ali, completamente perdido, em Riade.

Enquanto as pessoas ao seu redor se divertiam em comemoração ao noivado de Khadija e Mourad, Zyan apenas deixava seus olhos brilharem com o clarão do telefone que com a palavra saudades o fazia pensar se ele apertava ou não o botão de “Enviar” do aplicativo. Era um único botão e ele poderia envia-lo ou não. Saudades. Era o que Zyan sentia naquele exato momento por Lautaro.

Zyan: Saudades.

Lautaro está Offline.

Zyan olhou o telefone mais uma vez e o guardou no bolso. Do outro lado do pátio, Zohar conversava com Hassam e Ravid.

E aí, Hassam, o que você vai fazer daqui três semanas? - Perguntou Zohar.

Não pensei ainda. Talvez me dedique a ficar um pouco mais com a minha mãe.

Por que não passa um tempo em Tel Aviv?

Não sei. Não pensei sobre isso.

Seria ótimo para você e também para a sua mãe. Chame ela. Lá tem a minha mãe. Tem o meu pai. Ela não vai ficar sozinha e você também pode sair comigo e com o... - Ao olhar para o lado, Zohar viu que Ravid não estava mais ao seu lado.

Ravid?

Sim. Ravid.

Ele é assim o tempo todo? - Perguntou Hassam.

Sempre foi.

Eu não me lembro de ele ser assim tão doidão.

Ele é engraçado, é maluco, mas tem um coração gigante. - Sorriu Zohar.

Eu sei. Ele é um ótimo amigo para você.

Sempre foi.

E quanto a bissexualidade dele? Não te incomoda?

Na verdade não. Por que incomodaria?

Não sei. Não tem medo de ele te agarrar?

Hassam, não é assim que acontece. Ele só vai te agarrar se sentir uma atração por você.

Mas e se ele sentir uma atração do nada?

Não tem atração do nada. Ou ela existe e está ali ou ela nunca existiu. - Riu Zohar.

Hassam ficou em silêncio.

É difícil você entender. - Zohar continuou sorrindo. - Vamos para Tel Aviv. Talvez seja bom para você descansar e conseguir compreender não só o Ravid como também o seu próprio irmão.

O que tem o meu irmão?

Ele não é gay?

Não. Ele só beijou o Zyan.

Mas eles estão juntos.

Eles não estão juntos.

Estão. - Disse Zohar. - Onde estão eles agora?

Hassam correu os olhos por todo o pátio afim de encontrar Faruk e Zyan e sem sucesso voltou o seu olhar para Zohar.

Foda-se.

Devem estar transando no andar de cima. - Bufou Zohar.

Hassam o olhou de imediato.

O que foi? Gays transam. Nós não que não transamos.

Cala a sua boca, Zohar.

Os dois gargalharam. Najat se aproximou deles.

Estão se divertindo? - Sorriu ela.

Sim. Venha aqui, tia. - Chamou Zohar.

Os dois se abraçaram.

Eu estou tão feliz que você está aqui compartilhando este momento com a gente.

Eu também. - Assentiu Zohar. - Queria meus pais também tivessem aqui.

Eles virão para o casamento.

Daqui três semanas.

Sim.

E eu estava dizendo exatamente isso para Hassam de vocês irem conosco para Tel Aviv e passarem umas semanas com a gente. O que acham?

Tel Aviv? - Najat revirou os olhos.

Qual foi? Vamos...

Não sei. Vou pensar sobre isso. - Sorriu ela abraçando Zohar.

Hassam ficou um pouco distante e foi puxado pela mãe.

Venha aqui. Estou carente. - Disse ela tão baixo e tão alto ao ponto de fazer com que Mourad escutasse.

Agora está carente? - Disse Mourad se aproximando da família.

Como assim agora? Vem aqui também. - Chamou Najat.

Depois de ter colocado Faruk para fora, mamãe. - Repudiuou Mourad que abraçou sua mãe.

Me perdoem, por favor. - Disse Najat. - Eu não sabia como agir.

Todos eles ficaram em silêncio.

Tia, eu não sei se tenho algo a ver com isso... - Disse Zohar.

Você contou para o Zohar? - Perguntaram Mourad e Najat juntos olhando para Hassam.

Contei. - Disse Hassam gaguejando. - Ele estava indo ficar lá em casa. Não tinha como não contar.

Tudo bem. Está perdoado. - Disse Najat.

Tente trazê-lo de volta. - Disse Zohar.

Não sei se este é o momento, Zohar, mas vou tentar me aproximar dele. - Assentiu ela.

Por favor, mamãe. Estou saindo de casa em breve. Logo será Hassam. - Disse Mourad.

Você acha que Faruk já não saiu?

Você o mandou embora.

Ele jamais voltará. - Assentiu ela. Najat sabia que mesmo se ela chamasse Faruk de volta, aquela casa jamais seria dele novamente. Ele já tinha saído uma vez.

Farah e Ghaith estavam próximos ao jardim da casa admirando a festa que havia sido produzida por Khadija. Zyan se aproximou dos pais naquele momento.

Ei, Zyan! Que cara é essa? - Perguntou Farah.

Estou cansado, papai.

Mas já? - Disse Ghaith. - Onde está Faruk?

Não sei. Ele deve estar com Hassam.

Hassam está logo ali. - Disse ela pontando para Hassam e Zohar.

Então eu não sei. - Respondeu ele com o olhar baixo.

Você está bem mesmo, Zyan?

Zyan ficou em silêncio.

Vou dar licença para vocês conversarem. - Disse Ghaith se retirando.

Zyan ficou sozinho com pai e os dois ficaram em silêncio.

E então Zyan?

Zyan começou a chorar e abraçou o pai. Farah ficou em silêncio abraçando o filho e então prosseguiu.

Zyan, acalme-se. - Pediu Farah sentando-se com Zyan em um dos bancos ao lado de uma das árvores do jardim da mansão. - O que está acontecendo?

Zyan tentava conter o choro e sua respiração para que conseguisse falar.

Eu estou um pouco confuso.

Com relação ao que, meu filho?

Não sei.

Quer ser mais específico?

O Lautaro me ligou esses dias e disse que está com uma outra pessoa em Nova Iorque.

O artista?

É.

E quanto ao Faruk?

Eu estou começando a ver ele com outros olhos, mas eu não sei se vamos dar certo.

Por que você pensa assim?

Sei lá. Acho que nós somos um pouco diferentes.

Como assim “diferentes”, Zyan?

Eu sou mais velho que ele. Parece que eu me preocupo mais e estou enchendo a paciência dele com algumas questões. Sabe?

Eu entendo, Zyan, mas o pai dele faleceu recentemente e ele teve que sair de casa. Não foi?

Foi.

Vocês estão juntos?

Não. Nós não estamos juntos.

Tem certeza?

Absoluta, papai. Por que eu mentiria depois daquela conversa que tivemos?

Tudo bem. Eu acredito. - Farah respirou fundo. - Meu filho, eu quero que você saiba que independente do que você escolher, eu estarei ao seu lado. Tudo bem? Seja estar com Faruk, estando com aquele artista, pintor, sei lá...

Zyan sorriu.

Ou estando sozinho. Eu estarei ao seu lado. Até o meu último suspiro de vida.

Obrigado! Eu queria que todos os pais fossem assim como você e mamãe.

Sua mãe é um pouco mais complicada.

Eu sei.

Ela já sabe, mas não está muito preparada para ver você e Faruk juntos ainda não.

Mas nós não estamos juntos, papai.

Mas ela está achando que sim.

Zyan começou a rir novamente.

Ela está aprovando. O pior é que ela está aprovando. - Ele afirmou.

Você está falando sério?

Estou. Sua mãe é mais calada, mas ela tem seus sentimentos também. - Disse ele. - Veja como ela dança com Khadija e Nizar. - Apontou ele.

Khadija está mais aliviada. - Comentou ele com o pai.

Eu imagino. Que bom que ela se acertou com o Nizar.

Sim.

Onde está a namorada dele? - Perguntou Farah.

A Rana?

Sim. Ela é bem bonita. Não é?

Sim, papai. - Gargalhou.

Estou dando falta do Mourad também. - Disse Farah se levantando. - Vem. Vamos comer alguma coisa.

Vamos. - Assentiu Zyan que se levantou e foi caminhando com o seu pai em direção a Khadija e Nizar.

Khadija que estava dançando com Nizar, deixou o amigo e correu em direção ao pai para abraçá-lo.

Te amo, papai!

Também te amo, minha filha. - Disse Farah.

Bom, eu já volto. Vou aqui no banheiro. - Disse Zyan abaixando a cabeça e se esquivando de Farah e Khadija que se abraçavam no meio da pista.

Zyan passou pelo pátio e parou em um dos pilares da entrada da sala e ficou observando cada uma das pessoas que estavam ali e principalmente Khadija que dançava abraçada com Farah e Ghaith que conversava com Tariq e Rabie junto ao seu sobrinho. Ele deu um sorriso de alegria e embora estivesse um tanto um pouco triste, ele estava realizado por ter a família que tinha e ver em sua frente as melhores com as quais ele poderia estar naquele momento.

Com as mãos no bolso, Zyan subiu as escadas que levavam até o segundo andar de sua casa e foi caminhando pelo corredor que o levava até o seu quarto. Seu telefone vibrou, ele rapidamente agarrou o telefone e olhou o visor, era uma notificação de um aplicativo aleatório. Nenhuma mensagem de resposta de Lautaro. Que era o que ele mais esperava.

Em passos largos, Zyan caminhou até a porta de seu quarto e colocou as mãos na maçaneta e a abriu. A porta correu pelo chão e bateu no móvel que nunca esteve atrás da porta. Foi então que ele forçou novamente para que a porta abrisse e então, ao meio do quarto escuro estava Faruk que surpreso olhou para Zyan que correu seus olhos por todo o corpo nu de Faruk. Aquele era o corpo nu. Totalmente nu de Faruk. Que ele sempre quis ver. Ao seu lado, havia uma outra pessoa em pé. Rapidamente ele pôde ver após um clarão de luz iluminá-los pela janela e as cortinas rodopiarem com um fluxo de vento forte que vinha de fora. Era Ravid que estava com ele.

Yaman que cantava alguns covers de bandas americanas, trazia a sensatez e a forma brilhante de descrever os sentimentos cantados na canção da banda “New West”, Those Eyes, lançada em 2023 ao redor do mundo.  Em meio a uma narração sentimental envolvendo o relacionamento entre duas pessoas, a música, em sua letra, nos faz entender o real motivo pelo qual nos apaixonamos pela pessoa amada. Que são os pequenos gestos que nos fazem nos apaixonar. Cada dia mais e mais.

Quanto a Zyan? Ele colocou as mãos no rosto e aos poucos, andando de costas, tentou se retirar do quarto. Ao fechar a porta, ele ficou em silêncio tentando recuperar o fôlego, a respiração e então ajeitou a roupa que estava um pouco desajeitada ao ombro e seguiu o corredor novamente em direção às escadas. 

[FINAL] 25.01.25

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