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No dia seguinte, Mourad chegou à casa de Khadija para buscá-la para que eles pudessem passar o dia juntos. Junto à Mourad chegou Faruk para que pudesse passar o dia com Zyan. A ideia de seus pais era que eles pudessem se conhecer, dado que eles seriam praticamente irmãos dali em diante. Farah e Bassam queriam unir a sua família de forma que no futuro eles conseguissem cuidar dos negócios e prosperar cada um dos negócios da família.
- Onde está Hassam? - Perguntou Khadija.
- Ele não está se sentindo muito bem hoje. Acho que foi algo que ele comeu ontem que o fez mal. - Respondeu Mourad.
- Mas ele está bem? - Perguntou Ghaith. - Precisamos entender o que foi que ele comeu para que ele não fique assim mais das próximas vezes.
- Não se preocupe, Ghaith. Meus pais já estão vendo isso. - Disse Mourad.
- Tudo bem. Fico mais tranquila. Vou deixá-los a sós. - Disse ela se virando para Faruk. - Vou avisar ao Zyan que você já está aqui em baixo. Tudo bem?
- Tudo bem. Não se preocupe. Vou ficar um pouco no jardim.
Faruk foi caminhando até o jardim, onde se sentou próximo a um dos pinheiros onde tinha conversado com Zyan pela última vez. Enquanto ele aguardava a chegada de Zyan, com seus dedos entrelaçados uns aos outros, ele percorreu seus olhos por toda a mansão tentando pensar quais das janelas seria o quarto de Zyan. Todas elas estavam fechadas. Uma, estava aberta com grandes cortinas brancas e um pequeno vão feito pelo vento que soprava do lado de fora. Pelo vão, dava para ver um pouco dos vultos do lado de dentro. Foi quando ele apertou os olhos e tentou identificar se era Zyan que estava do lado de dentro do quarto se arrumando para descer.
Zyan estava sem camisa e parecia procurar algum objeto pelo quarto, pois andava de um lado para o outro de forma inquieta. Faruk tentava ser discreto enquanto olhava para o andar de cima corria seus olhos até uma das portas que dava para ver também Mourad e Khadija. Seu receio era que o irmão e a noiva vissem que ele estava olhando além das janelas de Zyan pelo jardim. Alguns minutos depois, ele pôde notar que Zyan desceu pelas escadas e parecia procurá-lo pelo lado de dentro até que o avistou pelo jardim.
Faruk estava vestindo uma camiseta branca e uma calça jeans. Diferente da última vez que eles tinham se visto em que Faruk vestia um Thobe branco. Zyan estava vestindo uma camiseta preta e calça cor marrom. Ele estava realmente muito bonito e apresentável aos olhos de Faruk.
- Você gostou mesmo daqui. - Disse Zyan.
- Gostei. Aqui é bem bonito! Eu gosto de jardins. Você não?
- Bom, eu gosto de apreciá-los, mas prefiro mais ficar sentado em baixo de uma árvore em um fim de tarde.
- Passaremos o dia todo juntos hoje. Podemos fazer isso se você quiser.
- Por mim, tudo bem.
- Zyan, queria falar com você a respeito da nossa última conversa.
- Sobre pessoas que se envolvem com outras do mesmo sexo?
- Não. Sobre o que eu te disse ao final. Eu fui um pouco rude. Queria que você me desculpasse.
- Não se preocupe, Faruk. Eu não levei isso para um outro lado.
- Promete não contar para ninguém?
- Prometo. Você tem a minha palavra.
- Obrigado!
- Minha mãe disse que Hassam está indisposto. Está tudo bem com ele?
- Sim. Acho que ele só comeu alguma coisa que não caiu muito bem.
- Ah, tudo bem. Melhoras.
- Ele ficará bem logo.
- E o que você pensou para hoje?
- Estou aqui por você.
- E eu por você.
- Bom, se a ideia é nos conhecermos... Podemos tomar um café juntos. O que você me serviria? Tipo, agora?
- Você quer mesmo que eu prepare um café para você?
- Sou visita.
- Tudo bem. Vamos?! Por aqui... - Disse Zyan bufando enquanto Faruk deu um sorriso de canto de boca totalmente convencido.
Os dois entraram pela porta da mansão e caminharam até a cozinha. Farah e Ghaith já tinham saído de casa e Mourad e Khadija estavam saindo para passar o dia visitando alguns lugares de Riad.
- E então? O que você quer comer? - Perguntou Zyan.
- Eu estou cansado do nosso café da manhã. Por que não me faz algo que tenha comido em Nova Iorque?
- Ah, um café da manhã americano?
- Pode ser. Nunca estive em Nova Iorque.
- Eu comi lá Ovo mexido com Bacon.
- Me parece melhor do que pães e kibes.
- Eu gosto de Kibes.
- Eu fico enjoado às vezes.
- Sério? Como alguém pode se enjoar de kibes?
- Minha mãe faz kibes o tempo inteiro em casa.
- Não é diferente aqui em casa. Bom, vamos lá, você quer aprender como se faz ovos e bacon?
- Eu sei como se faz ovos.
- Ovo mexido típico americano. Duvido que saiba.
- Vamos lá. Me mostre. - Disse Faruk levantando-se e caminhando até Zyan que estava próximo ao fogão.
Zyan separou alguns ovos, leite e bacon ao seu lado enquanto buscava uma panela para colocá-la em cima do fogão.
- Você cozinha bem?
- Eu tento.
- Com qual frequência você cozinha?
- Acho que boa parte do meu tempo. Como você pôde ver, aqui não temos ajudante. Somos só eu, Khadija e meus pais. Tariq vive em Tabuque e só vem nos visitar uma ou duas vezes ao mês.
- Sua família é bem interessante. É diferente da minha.
- Diferente como?
- Sei lá, seus pais parecem se preocupar mais com vocês.
- Os seus não?
- Não temos muito diálogo em casa.
- Eu lamento.
- Não se preocupe. Quero saber como são feitos os ovos.
- Sério que você não sabe?
- Eu só vejo na TV.
- Então venha, você quem vai preparar hoje.
- Eu? Mas eu nunca... - Antes que Faruk pudesse completar, Zyan colocou a frigideira em suas mãos e alguns ovos. - O que eu faço com tudo isso?
- Primeiro você vai acender o fogo, depois colocar a frigideira ali, deixar esquentar, jogar um pouco azeite e depois quebrar os ovos ali.
- É simples assim?
- Você achou simples?
- Até agora sim.
- Então vai... Deixe-me ver. - Zyan cruzou os braços e esperou que Faruk começasse a fazer o café da manhã.
Faruk seguiu os passos orientados por Zyan e ao colocar os ovos na frigideira ficou olhando para Zyan como se esperasse mais coordenadas.
- E agora? - Perguntou ele.
- E agora você joga um pouco leite e mistura com a colher de pau.
- Colher de pau? - Riu Faruk.
- Você entendeu, Faruk.
- E quanto ao bacon?
- Você precisa colocá-lo em uma frigideira e esperar ele fritar.
- É fácil assim?
- Muito. - Sorriu Zyan. - O que você quer beber?
- Podemos beber um suco.
- Então você irá prepará-lo.
- Eu vou fazer tudo?
- Sim. Você não queria preparar um café da manhã americano?
- E quanto a você?
- Eu só estou coordenando.
- Um ótimo coordenador de cozinha.
- Obrigado?!
Os dois ficaram em silêncio até que Faruk quebrou o silêncio mais uma vez retornando no assunto do dia anterior na conversa que eles tiveram no jardim.
- Zyan, quanto à ontem...
- Esquece o que aconteceu ontem.
- Eu só queria te agradecer.
- Me agradecer?
- É. Você tem sido uma pessoa muito gentil e eu queria agradecer por me aceitar do jeito que eu sou. Você poderia ter me entregado para os meus pais ou para a sua família.
- Faruk, você não precisa agradecer. Posso te fazer uma pergunta?
- Claro.
- Quando foi que você percebeu tudo isso?
- O que?
- Com relação a você mesmo.
- A mim mesmo?
- Sobre se interessar por outros homens.
- Desde muito novo, não sei ao certo.
- Mas você já ficou com outros rapazes antes?
- Nunca.
- E por que eu?
- Eu senti que você poderia ser igual a mim e eu quis tentar.
- Mas justo comigo?
- Zyan, você já parou para se olhar no espelho? Você é um cara lindo. Sabe que chama a atenção por onde passa.
- Não sei de nada disso.
- Pois deveria saber.
- Você também é bonito, Faruk.
- Não tanto quanto você.
- Qual foi? Olha só a sua barba, toda fechada.
- Você acha que isso é sinônimo de beleza?
- Seu maxilar é quadrado. Você é o típico de cara que todo o americano gostaria de conhecer.
- Mas nós não estamos na América.
Zyan ficou em silêncio.
- E o que achou do café da manhã? Estou aprovado?
- Está ótimo!
- Sério que é só isso um café da manhã americano?
- Eles podem olhar para o nosso e se perguntar a mesma coisa.
- Verdade. Melhor eu ficar calado.
Os dois riram. Tariq chegou na cozinha interrompendo a conversa de Zyan e Faruk.
- E aí? Quais são os planos para hoje?
- Estamos pensando em dar uma volta por Riad. - Respondeu Zyan.
- Sério? Onde vão?
- Pensei de irmos ao Kingdom Centre no final da tarde.
- Legal. O que estão comendo? - Perguntou Tariq.
- Faruk quis saber como era o café da manhã em Nova Iorque e dei a ideia de fazermos ovos com bacon.
- Que legal. A cultura americana chama bastante a atenção de vocês.
- Sim, Tariq. Sou apaixonado por viagem. - Respondeu Zyan.
- Você deveria mostrar para o meu irmão mais um pouco da nossa cultura, Faruk. Melhor do que perguntar o que os americanos comem no café da manhã. Você não acha?
- Tariq... - Chamou Rabie que estava na porta da cozinha. - Deixa seu irmão.
- Bom, eu vim me despedir. Estamos indo para Tabuque agora de manhã e voltaremos para o casamento.
- Tudo bem. Quer tomar um café? - Perguntou Zyan.
- Algo que não seja americano.
- Podemos fazer um pão para você. - Disse Faruk tentando contornar a situação. Zyan o olhou fixamente e sentiu um certo orgulho da forma com a qual Faruk puxou o assunto para si. - O que mais você gosta de comer? Kibe?
- Me parece uma boa! - Suspirou Tariq.
Com a ajuda de Zyan, Faruk preparou um café da manhã árabe de forma única para Tariq. Em um pão Sírio, eles serviram um recheio misto de carne e salada com um suco de laranja típico da Arábia. Tariq estava com o voo marcado para o início da tarde, mas ficou o suficiente para conhecer um pouco mais de Faruk que por sua vez se mostrou muito disponível. Após se despedir do irmão e de Faruk, e simpático. Tariq e Rabie se despediram de Zyan e Faruk e aguardaram Farah para os levarem até o aeroporto.
- Se cuida, irmão. - Disse Tariq dando um abraço em Zyan.
- Você pedou o seu livro?
- Está na bolsa da Rabie. Da próxima traga alguma coisa mais útil. Sei lá, uma caneca, por exemplo.
Zyan sorriu.
- Prazer em te conhecer, Faruk! Até a próxima. - Disse ele pegando as malas e caminhando até o carro estacionado do lado de fora da mansão.
Zyan e Faruk ficaram do lado de dentro observando o irmão que entrou no carro de Farah e logo depois deram partida em direção ao aeroporto.
- Você trouxe um livro para ele? - Perguntou Faruk.
- Sim. Um livro fotografias.
- Sério?
- É de uma fotografa de Chicago. Anne Steves. Eu a conheci lá enquanto andava por uma das ruas paralelas à Times. - Disse Zyan caminhando até uma das estantes da sala e agarrando o mesmo que havia dado de presente para Tariq. - É esse.
- Posso ver?
- Claro.
Faruk sentou-se ao sofá e começou a folhear o livro enquanto observava cada uma das fotografias.
- Nossa. Ela tem bons olhos. - Elogiou Faruk.
- Você gosta de artes?
- Eu prefiro músicas.
- Que tipo de músicas você gosta?
- Eu prefiro ouvir músicos como Andrea Vanzo. - Disse Faruk mencionando o compositor e pianista italiano Andrea Vanzo que é conhecido por suas canções como Amélie e Soulmate.
- Não conheço.
- Nada parecido com Andrea Vanzo Beetoven.
- Qual foi? Você está zoando com a minha cara?
- Não. Achei interessante o seu gosto peculiar.
- Por que?
- Sei lá. Não esperava.
- O que você esperava de mim?
- Eu esperava que você fosse menos interessante e mais desinteressante.
- Uau.
- Pois é.
- Bom, vou me arrumar e já vamos. Tudo bem?
- Claro.
- Quer ouvir alguma coisa?
- Coloque algo que você tenha escutado em Nova Iorque.
- Você gosta de Nova Iorque.
- Eu sou apaixonado. Acho que nunca vou pisar lá, mas todas as vezes que eu vejo aquela cidade eu sinto uma sensação tão boa e única. Eu não sei explicar.
- Por que você diz isso?
- Não sei. Você já tentou olhar para o futuro e imaginar como você seria daqui dois ou cinco anos? Quando eu tento, eu simplesmente não consigo ver nada.
- Mas por que você acha isso?
- Você pergunta muito. - Faruk sorriu.
- Desculpa.
- Não precisa se desculpar. Vai se arrumar. - Disse Faruk piscando um dos olhos para Zyan.
Zyan assentiu com a cabeça e subiu as escadas até o seu quarto para começar a se arrumar. Enquanto estava sozinho, Faruk caminhou até o jardim onde se sentou e ficou com os dedos entrelaçados aguardando Zyan que provavelmente estava em um dos quartos do andar de cima se arrumando. Seus olhos correram discretamente por cada uma das janelas como quem buscava encontrar alguém lá em cima. Não que ele estivesse bisbilhotando, ele só estava sentindo-se entediado, sozinho.
Alguns minutos se passaram e Zyan desceu as escadas procurando por Faruk que estava no meio jardim.
- Você gosta mesmo daqui.
- Eu me sinto em paz quando estou andando por aqui.
- Quero conhecer o jardim da casa de vocês.
- Podemos ir quando voltarmos do Kingdom Centre.
- Claro. Aliás, vamos, pois quero ver o pôr do sol de lá de cima ainda.
Os dois foram caminhando até o estacionamento onde entre seis carros, Zyan buscou pelo seu. Seu pai gostava de colecionar carros. Zyan, Ghaith e Khadija tinham o seu próprio carro. Farah gostava de ter opções para sair de casa e com isso tinha inúmeras opções de carros no estacionamento. Não era muito diferente de seu pai, Bassam, que além de uma coleção de carros tinha outros imóveis não só em Riade como também em Tabuque.
As horas foram se passando e eles já estavam prestes a subir até o mirante do Kingdom Centre, que é um dos arranhas céu com uma das vistas mais privilegiadas da cidade de Riade. Zyan tinha programado de ir com Faruk para juntos verem o pôr do sol e depois jantarem em um dos restaurantes internos do prédio.
- Olha essa vista. - Vibrou Faruk.
- Nunca tinha vindo aqui?
- Quando pequeno. Não me lembrava de que a cidade era tão incrível assim vista daqui de cima.
- É lindo mesmo. O contraste com o pôr do sol ainda é mais bonito.
- Cara, é muito incrível. Obrigado por ter me trazido aqui. Vou tirar uma foto para Hassam. - Disse ele tirando o telefone do bolso e abrindo a câmera traseira.
- Aliás, como ele está?
- Está bem. Está se recuperando.
- Que bom.
Enquanto Faruk focava a câmera no horizonte para tirar uma sequência de fotos, Zyan tentava não se deixar hipnotizar com a beleza de Faruk que se iluminava com os raios alaranjados do entardecer da cidade. A barba de Faruk era tão negra, mas tão negra, que seus pêlos brilhavam com os toques da luz solar que rasgava o seu rosto. Seus olhos eram castanhos escuros que com o entardecer de frente para o pôr do sol pareciam cor de mel.
- O que foi? - Perguntou Faruk olhando para Zyan.
- Nada. - Disse Zyan um pouco tímido.
- Você está me olhando. Estou muito turista? - Perguntou.
Aquela pergunta. Nossa. Aquela pergunta. Ela não poderia ter vindo em um momento melhor. Aquela fala fez com que Zyan se transportasse automaticamente para os dias que passou ao lado de Lautaro. Ver em sua frente Faruk que tirava algumas fotos do horizonte em sua frente, fazia com que ele se lembrasse dele e de Lautaro em Nova Iorque. Aquilo fez com que seu coração disparasse e ao mesmo tempo seu olhar ficasse tão longe, mas tão longe, que fixos eles se desviaram de Faruk e foram para o horizonte em sua frente e se olhar se perdeu em meio aos prédios abaixo de si.
- Está tudo bem? - Perguntou Faruk.
- Sim. Está. Eu só estou pensando.
- Pensando em que?
- Em como é bonito aqui. - Mentiu Zyan. Na verdade, ele queria dizer o quanto Faruk estava bonito ali. Sua boca mentiu, mas seus olhos possivelmente tenham falado a verdade.
Faruk assentiu com a cabeça.
- Você tá legal aí. Deixe-me tirar uma foto sua. - Disse Faruk apontando a câmera para Zyan.
- Não. Por favor. Minha não. - Riu Zyan.
- Por que não? Está bonito!
- Não estou. Olha minha cara.
- Para de ser idiota. Deixa eu tirar uma foto sua.
- Não. Por favor. Tira você.
- Não. Deixa.
As mãos de Zyan e de Faruk começaram a brigar no ar para ver quem conseguiria tirar uma foto de si primeiro. Os dois estavam se esquivando da câmera quando um homem apareceu entre eles e interrompeu a brincadeira de ambos.
- Por favor, sem viadagem aqui em cima. - Disse o rapaz que também era um dos visitantes.
- Sem o que? - Perguntou Faruk.
- Viadagem.
- Viadagem?
- Sim. Vocês não são homossexuais? Precisam respeitar aqui ou eu chamarei os seguranças.
Faruk colocou o telefone no bolso e cerrou os punhos enquanto seus olhos levemente ficaram apertados. Zyan podia sentir que ele supostamente golpearia o rosto do homem que estava ali. Tentando acalmá-lo, Zyan colocou a mão em seu peitoral e o empurrou levemente para trás para que ele pudesse a afastar do rapaz que ao ver que Faruk estava prestes a golpeá-lo partiu para cima de Faruk dando nele um empurrão. Seu telefone então caiu de seu bolso e escorregou pelo chão batendo no sapato de um dos seguranças do local que abaixou e pegou o telefone enquanto Faruk puxou os cutuvelos para trás e impulsionando o punho para frente golpeou o queixo do rapaz que cambaleou para trás quase perdendo o equilíbrio e caindo ao chão. Zyan assustado segurou Faruk com os dois braços e o puxou para trás não se atentando que o rapaz estava vindo para cima e deu dois golpes no rosto de Faruk que caiu ao chão. O segurança então foi para cima do rapaz e o deteve. Faruk ficou ao chão com as mãos no rosto enquanto o canto de sua boca levemente cortado sangrava.
- Porra! Você está sangrando. - Disse Zyan. - Você está bem?
- Estou. Só preciso sair daqui.
- Vem! - Disse Zyan levantando Faruk e pegando o telefone nas mãos do segurança.
Zyan foi caminhando até um dos elevadores e apertou o botão para que o elevador chegasse até o andar do mirante. Os visitantes do local ficaram assustados com o movimento causado entre Faruk e o rapaz. Faruk estava com as mãos na queixo a fim de tampar o fecho do canto da boca que sangrava. O elevador chegou no andar e o barulho das portas que se arrastaram no metal ao chão da entrada ecoaram pelo pátio do mirante.
- Vem! Vamos descer. - Disse Zyan colocando as mãos no ombro de Faruk.
Ao entrarem no estacionamento, Zyan correu até o carro e abriu a porta do passageiro para que Faruk pudesse entrar. Assim que ele entrou, Zyan fechou a porta e deu a volta pela frente correndo e entrou na porta do motorista.
- Vamos para um hospital.
- Hospital? - Riu Faruk.
- Você está sangrando.
- Não é nada demais, Zyan.
- Deixe-me ver.
Zyan se aproximou de Faruk que ficou parado com o rosto inclinado para trás esperando que suas mãos tocassem em seu rosto.
- Ai. - Resmungou ele. - Está doendo aqui. - Disse Faruk quando Zyan encostou em seu rosto um pouco acima de sua bochecha.
- E aqui? Dói também? - Perguntou Zyan massageando próximo ao olho.
Faruk ficou em silêncio enquanto sentia os dedos de Zyan massagearem seu rosto em movimentos circulares como se estivesse espalhando um creme facial.
- Vamos para a minha casa. É aqui do lado. - Disse Faruk.
- Coloque no GPS. Eu vou dirigindo.
Faruk assentiu com a cabeça enquanto colocava o endereço no GPS do telefone e o deixava pronto para que Zyan pudesse seguir suas coordenadas.
- É aqui do lado. Vinte minutos. - Disse Zyan. - Dá para aguentar?
- Zyan, eu não estou morrendo.
- Você tomou um soco na cara.
- Dois.
- Então...
- Você nunca brigou na vida?
- Não. Eu nunca apanhei na rua.
- Isso não é apanhar. Eu não apanhei.
- Apanhou sim. Você tomou dois socos.
- É porque você não viu a cara dele.
- Eu vi a cara dele. Você viu como ele ficou assustado? - Gargalhou Zyan.
- Viadagem. Quem ele pensa que é? - Riu Faruk.
- “Para de viadagem aqui.”. - Zyan gesticulou imitando o rapaz.
- Ele é só um desses riquinhos babacas espalhados por aí.
- Eu achei que você fosse um deles.
- Riquinho ou babaca?
- Os dois.
- Você definitivamente precisa conhecer a minha vida, Zyan.
- Eu vou te deixar em casa e depois nós combinamos. Tudo bem?
- Sobe comigo?
- Você não disse que está bem?
- Sobe comigo e a gente pede alguma coisa. Meus pais viajaram hoje e Hassam está medicado.
- E quanto ao Mourad?
- Ele está com a sua irmã. Quem se importa?
- Eu não quero confusão.
- Por que teríamos confusão, Zyan? Não entendi. Somos amigos. Não somos?
- Sim, Faruk. Somos amigos. - Assentiu Zyan.
Zyan estacionou o carro ao lado do portão da casa de Faruk. Era um portão grande e automático que dava de entrada para um estacionamento aberto a luz do dia e um imenso jardim em frente à mansão de dois andares com janelas e portas enormes.
- Uau! Que casa!
- Obrigado! Bem vindo ao meu inferno particular. - Disse Faruk descendo do carro.
Os dois caminharam em direção a porta de entrada da casa onde Faruk passou a digital e a porta se abriu. Diferente da casa da de Zyan alguns detalhes internos da mansão eram finalizados a ouro. Era coisa de outro mundo estar ali, realmente era uma família muito privilegiada. Não que a de Zyan não fosse, mas a família de Faruk estava com certeza entre as dez famílias mais ricas de Riade.
A casa estava vazia. Faruk foi caminhando até a cozinha e pegou algumas garrafas de água e os dois foram caminhando até o quarto.
- Você precisa se limpar. - Disse Zyan caminhando em direção a Faruk enquanto observava o machucado próximo ao seu rosto. - Está ficando meio roxo.
- Tenho alguns paramédicos na gaveta. - Apontou Faruk.
Zyan esticou as mãos e abriu a gaveta onde com os dedos agarrou uma maleta com alguns paramédicos. Ao abri-la, ele pegou alguns gases e um spray anti séptico e limpou a ferida no canto dos lábios de Faruk que apertou os olhos com a ardência do medicamento que limpava a sua pele.
- Está doendo? - Perguntou Zyan.
- Um pouco.
- Se quiser, eu posso parar.
- Não. Dá para aguentar.
Zyan continuou limpando a ferida até que buscou por um pequeno band aid e o colocou na lateral de seus lábios para que pudesse tampar a ferida. Faruk correu seus olhos pelo rosto de Zyan e pairou seu olhar em suas sobrancelhas e descendo levemente sem perceber encontrou seus olhos com os de Zyan que também o olhava fixamente. Sem piscar. Os dois em silêncio. Zyan sentiu seus lábios ficarem ressecados e lentamente os molhou apertando seus lábios para dentro.
- Bom... Já vimos o pôr do sol, tiramos algumas fotos, nos metemos em confusão. O que mais precisamos para nos conhecer? - Perguntou Zyan tentando quebrar um pouco o silêncio entre eles.
- Vamos assistir alguma coisa. O que você acha?
- Por mim, tudo bem. Estou com fome.
- Podemos pedir algo também.
- Me parece uma boa.
- O que você quer assistir?
- Eu estou aqui para te conhecer. Vamos lá, o que o Faruk gosta de assistir?
- Já assistiu “As vantagens de ser invisível?”? - Perguntou Faruk fazendo menção à adaptação da obra de Stephen Chbosky, que teve o seu livro publicado em 2007 e seu filme lançado cinco anos depois, em 2012.
Faruk ligou a TV e buscou o filme em uma plataforma de streaming e apertou o play. Enquanto o filme se iniciava, ele buscou em seus contatos o número de um delivery que fizesse a entrega de algumas esfirras e fez um pedido para dois. Os dois ficaram sentados em cima da cama de Faruk em meio às almofadas enquanto assistiam ao filme e encostados na cabeceira fixada à parede. As esfirras chegaram e eles levaram a comida para cama como dois adolescentes. Enquanto comia, Faruk alternava seus olhos entre os acontecimentos do filme com Zyan que estava ao seu lado vidrado com a atuação de Emma Watson na produção cinematográfica de Stephen Chbosky.
- É estranho ver a Hermione assim. Não é? - Perguntou Zyan.
- É estranho. Eu gosto da Emma Watson em outros papeis.
- Eu não sou muito de assistir a filmes.
- Nossa! Sério? O que você normalmente faz?
- Como assim?
- Quando está sozinho ou aos finais de semana. Sei lá.
- Eu estudo. Tenho estudado línguas.
- Que legal. E quais línguas atualmente você sabe?
- Arábe, que é minha língua nativa, óbvio. Inglês, Espanhol, Francês, Alemão e um pouquinho de mandarim.
- Uau.
Sorriu Zyan.
- Você é muito inteligente. - Sussurrou Faruk.
- Que nada! Eu só não tenho muita coisa para fazer em casa e acabo lendo bastante sobre culturas ao redor do mundo e com isso aprendo bastante línguas.
- E que tipo de música você ouve?
- Eu não sou de escutar músicas.
- Nenhuma?
Zyan balançou a cabeça em negação.
- Você só estuda? - Perguntou Faruk erguendo as sobrancelhas.
- Às vezes. De vez em quando saio com Khadija e vamos ao shopping, essas coisas, mas na maior parte do tempo fico sozinho no meu quarto lendo. Quero conhecer outras cidades ao redor do mundo.
- Você gosta mesmo de viajar. Não é?
- Gosto. Sou apaixonado por viagens.
- Onde mais você já esteve?
- Já estive no Egito.
- Egito?
- Sim. Egito.
- Quando eu era criança, eu assistia ao filme “A Múmia” e era apaixonado por tudo aquilo e cresci me encantando pela cultura do Egito. É lindo. Os câmelos, seus desertos, suas obras, escritas, seus mitos. Tudo. E agora, depois conheci Nova Iorque. É apaixonante.
- Eu imagino.
- E você? Tem vontade de viajar?
- Eu gostaria de conhecer o Brasil.
- O Brasil?
- Sim. Rio de Janeiro, suas praias, o carnaval... Tudo.
- Eu já li sobre os carnavais do Brasil. São festas maravilhosas.
- Eu gostaria de estar lá um dia.
- Por que não vai?
- Minha mãe acha que eu preciso me dedicar a um casamento. Não agora, mas logo depois de Mourad.
- E o que você acha disso?
- Eu não gostaria de me casar. Com quem eu gostaria de viver, aqui, não seria possível.
Os dois ficaram em silêncio.
- Sabe? Eu sempre tentei lutar contra tudo isso e tentava não aceitar os meus próprios sentimentos achando que esse lance de me sentir atraído por um outro rapaz era algo errado, mas aí eu percebi que talvez não fosse tão errado assim para mim e sim para os outros. Aos poucos eu comecei a me aceitar e parar de buscar respostas no que estava escancarado na minha frente. Eu nunca me senti atraído por outras garotas.
Zyan permaneceu em silêncio com o olhar baixo enquanto escutava Faruk falar.
- Quando eu te vi pela primeira vez, eu senti que você poderia ser igual a mim. Por isso, eu tentei me aproximar de você. Talvez de uma forma equivocada em uma primeira conversa, mas eu queria estar próximo de você. Eu não sei. Como um amigo. Eu vi que eu poderia confiar em você. Eu não sei explicar. - Disse Faruk.
- Faruk, eu acho que está ficando tarde. Preciso ir.
- Eu falei algo de errado?
- Não.
- Me desculpe, Zyan. Eu achei que poderia me abrir com você.
- Fique tranquilo, Faruk.
- Posso te pedir uma coisa?
- Claro.
- Queria que você guardasse tudo isso entre a gente.
- Não precisa me pedir esse tipo de coisa.
- Eu sei. É que...
- Eu sei. Não precisa se explicar.
Zyan se levantou e foi caminhando até a porta do quarto.
- Zyan, passa a noite aqui comigo?
- Olha o que você está me pedindo.
- E daí? Nós somos uma família. Não somos?
- Sim. Nós somos uma família.
- Então... Dorme aqui.
- Eu não posso, Faruk.
- Tudo bem.
Faruk assentiu com a cabeça. Zyan se levantou, colocou os sapatos e ficou de pé esperando que Faruk se despedisse dele. Faruk ficou em silêncio e de cabeça baixa. O silêncio entre eles era um pouco constrangedor.
- Bom, vou indo. A gente vai se falando. - Disse Zyan se despedindo.
Faruk continuou em silêncio enquanto Zyan saiu pela porta do quarto e desceu as escadas até a porta de entrada que o levaria até o estacionamento. Por alguns segundos, Zyan pensou em voltar e passar a noite com Faruk, mas ao mesmo tempo que ele gostaria de ficar ali, ele pensava que seria um erro caso ele permanecesse com Faruk durante a noite. O que Lautaro pensaria? Será que Lautaro estaria esperando por ele? Esse foi o momento que Zyan começou a se questionar sobre seus reais sentimentos por Lautaro. O que esperar de Lautaro? Será que eu deveria continuar esperando por ele? Zyan dirigiu para casa naquela noite se fazendo estas perguntas.
[PARTE IV] 21.12.24
[PARTE FINAL] 24.12.24
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