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Ao encostar a sua cabeça no travesseiro naquela noite, ele tentou manter seu pensamento livre e sua cabeça vazia para que pudesse pegar no sono, mas para qualquer lugar que ele tentasse direcionar a sua mente ele se encontraria com Faruk novamente. Seus olhos estavam fixos no teto e corriam pelas paredes brancas de seu quarto que estavam iluminadas por um vão de sua janela. Ainda desperto, ele viu um clarão iluminar além de suas cortinas. Ao se aproximar da janela, era Khadija chegando com Mourad.
Khadija desceu do carro, deu um beijo em Mourad e entrou pela porta de entrada da mansão. Antes que ela pudesse subir as escadas, Zyan estava à espreita da sacada da sala a esperando.
- Que susto! - Disse ela ao entrar pela sala.
- Oi.
- Tudo bem? O que houve?
- Eu não estou me sentindo muito bem.
- O que aconteceu?
Khadija notou que o irmão estava com o olhar cabisbaixo e subiu as escadas ao seu encontro.
- Você quer conversar?
Zyan balançou a cabeça em silêncio dizendo que não.
- Como foi com Mourad? - Perguntou Zyan.
- Ele é um homem interessante.
- O suficiente para te fazer esquecer Nizar?
- Ah, meu irmão, eles são tão diferentes.
- E o que você quer?
Khadija respirou fundo. Ela se quer sabia que Zyan também estava com a mesma dúvida que ela. Enquanto ela estava na dúvida de deixar-se levar pelo seu relacionamento, arranjado por sua família com Mourad, ou simplesmente ficar com Nizar, Zyan também estava com suas dúvidas em relação a Lautaro e Faruk.
- Estava tudo bem antes dessa família chegar. - Sorriu Zyan.
- Por que você diz isso?
- Eu achava que eu estava apaixonado pelo Lautaro.
- E o que te fez ficar na dúvida agora?
- Faruk.
- Faruk?
- Sem perguntas.
- Faruk!
- OK! - Disse ela tentando conter a respiração. - Vou preparar um chá para a gente. Você quer?
- Por favor. Já desço.
- E você vai me contar tudo.
- Você que precisa me contar tudo.
- A sua vida parece estar muito mais interessante que a minha.
- O que? Você quem vai se casar.
- Um triângulo amoroso gay é muito mais interessante que um triângulo amoroso hétero.
- Khadija... Fala baixo.
- Vou fazer um chá. Você vem?
- Já estou descendo. - Sorriu Zyan.
Era confortante estar junto com sua irmã. Zyan e Khadija sentaram-se no jardim naquela noite e entre conversas e gargalhadas, tomaram um chá e ficaram juntos observando as horas passarem.
- Como você se imagina daqui a dois anos? - Perguntou Zyan.
- Eu me imaginava de todas as formas possíveis, menos casada. E você?
- Eu não sei mais. Eu tento olhar para frente e não consigo mais me imaginar no futuro. É loucura?
- Não, Zyan. - Sorriu Khadija. - Você só parece estar confuso.
- É difícil ser adulto. - Suspirou Zyan.
- Nossa! Se você diz isso aos dezoito, imagina quando eu chegar na sua idade?
- Não queira.
- O que a gente vai fazer?
- Eu não sei. O que você quer fazer?
- Eu também não sei. - Sorriu Khadija.
- Você quer se casar?
- Não.
- Vamos fugir?
- Zyan, nós não somos mais adolescentes.
- Qual foi? Você tem dezessete anos.
- Por isso mesmo.
- Nós podemos ir para Nova Iorque.
- Papai e Mamãe nos mata se fizermos isso.
- Você vai se casar contra a sua vontade?
- Eu estou tentando me apaixonar por Mourad. Não deve ser tão horrível assim.
- As coisas podiam ser diferentes por aqui. Você não acha?
- Não se trata de ser aqui ou ali, Zyan. Somos nós. Nossa sociedade.
- Se pudesse, você faria algo para mudar o seu futuro?
- Qual é o meu futuro?
- Se casar com Mourad e ter uma família assim como Tariq.
- Infelizmente, não. Está fora do meu alcance. - Disse Khadija com o olhar um pouco triste. - Você ainda tem escolha.
- Você acha?
- Você pode partir e ser feliz longe de toda essa confusão com Lautaro e continuar vivendo escondido de nossa sociedade e da nossa família ou você pode ficar e dar uma oportunidade para você e Faruk tentarem mudar as coisas dentro de nossa própria família.
- Você diz como se tudo fosse fácil.
- As coisas não são fáceis, Zyan. Se fossem fáceis, nós não estaríamos aqui.
- Por que eu não nasci hetero? Seria tudo mais fácil.
- Hei, ser hétero não resolve todos os problemas. Eu sou hétero.
- Você entendeu. Poderíamos ser como o Tariq.
- Você acha que o Tariq não tem problemas?
- Sei lá. Ele quase não fala nada.
- Não é por isso que ele não tenha nenhum problema em estar com a Rabie.
- Será que ele também pensa igual a gente?
- Pergunta para ele.
- Ele só volta para o seu casamento.
Khadija respirou fundo.
- Sabe de uma coisa, Zyan?
- O que?
- Uhibuk! - Sorriu Khadija.
- Uhibuk! - Respondeu Zyan deitando sua cabeça no ombro de sua irmã e os dois ficaram sentados no jardim enquanto as horas escorriam pelos ponteiros do relógio.
Ao subir para o seu quarto, Zyan pegou ao telefone e se deparou com algumas mensagens de Lautaro. As mensagens contavam como havia sido o seu dia em Nova Iorque e ao final dizia que ele poderia ligar de volta assim que estivesse disponível por lá. Zyan deitou-se em sua cama e deslizou seu dedo até o ícone de chamada de vídeo.
Zyan está chamando Lautaro...
Chamando...
Chamando...
Chamando...
Lautaro aceitou a sua chamada de vídeo.
- Oi! - Disse Lautaro sorridente.
- Tudo bem?
- Tudo bem e por aí?
- Tudo bem também!
- Estou com saudades!
- Eu também!
- E como foi o seu dia foi aí?
- Cheio. Estava com a minha irmã até agora.
- E como ela está?
- Está bem.
- Que bom! Olha... Deixe-me te mostrar algo. - Disse Lautaro virando a câmera do telefone para mostrar um dos desenhos que havia feito. - O que achou?
Zyan apertou os olhos tentando identificar o desenho. A imagem estava quadriculada.
- O que é? - Perguntou Zyan.
- Somos nós dois.
- Nós dois?
- Sim.
- Eu desenhei hoje.
- Você desenhou a gente?
- Sim. Estamos em baixo de um pinheiro com luzes de natal.
- Eu quero esse desenho. - Sorriu Zyan.
- Esse já é meu.
- Por favor. Não seja rude.
- Tudo bem. Me mande o seu endereço e eu te envio.
- Sério mesmo?
- Claro. Depois eu faço um outro para mim.
- Mas não vai sair a mesma coisa.
- Nunca sai a mesma coisa, mas a gente tenta.
- Você tem certeza?
- Eu que te pergunto. Você tem certeza que você quer?
- Eu quero. Já te disse. Eu quero você também.
- Eu também te quero, minha possível loucura impossível.
Zyan continuou sorridente.
- Quero te mostrar mais algumas coisas.
- O que mais?
- Fiz mais estes desenhos aqui. - Disse Lautaro mostrando outros esboços. - Essa é uma paisagem que eu estou dando vida. Estava desenhando-a enquanto ouvia uma música do Coldplay.
O desenho feito por Lautaro era uma montanha que ao topo era esbranquiçada e tinha um pequeno ponto na lateral que parecia ser um alpinista que a escalava com bastante dificuldades.
- O que você pensou enquanto a desenhava?
- Não sei. Só pensei em alguns obstáculos da vida.
- Você é genial. Sabia?
- Você é um idiota.
- Você me acha um idiota mesmo?
- Não. Eu só estou brincando.
- Qual canção você ouviu?
- Sparks. - Disse ele fazendo menção à canção de Coldplay lançada em 2000.
- Laut, posso te fazer uma pergunta?
- Claro.
- Como é ser gay para você?
- Assim? Do nada?
- É.
- Ser gay para mim é como se eu fosse igual e ao mesmo tão diferente de tudo e de todos. É como se eu fosse um pontinho colorido em uma imensidão de preto e branco. E esse não é um papo sobre cores. - Riu Lautaro. - Às vezes é difícil ser gay, pois há muitos encargos e responsabilidades que devemos trazer conosco e isso nos faz responsáveis por tudo que falamos e por todas as coisas e pessoas que cativamos ao nosso redor. Sabia?
- Não sei se eu entendi.
- Nós temos uma história de superação. Não só nós homens gays, como também as mulheres gays, transgêneros e travestis, todos nós temos uma história a ser superada ou que superamos. Seja dentro de casa ou em uma sociedade. Sempre há problemas que devemos enfrentar e isso é o que nos faz fortes e mágicos ao mesmo tempo.
Zyan ficou em silêncio.
- Por que a pergunta?
- Eu estive pensando bastante sobre isso.
- E como é ser gay para você?
- Eu estou tentando descobrir.
- Qualquer coisa eu estou por aqui, minha possível loucura impossível.
- Você é apaixonante.
- Eu sei. Você também é. - Sorriu Lautaro. - Não vejo a hora de estar com você de novo.
- E eu também.
- Sabe de uma coisa?
- O que?
- Eu só penso em você o tempo inteiro.
- Eu também tenho pensado bastante em você.
- Bastante ou o tempo inteiro?
- Não é a mesma coisa?
- Ah, eu acho que é diferente.
- Diferente como?
- Diferente.
- E o que é melhor para você? Bastante ou o tempo inteiro?
- Pode pensar em mim bastante e o tempo inteiro também. Por favor. - Disse Lautaro.
- Tudo bem!
- Você parece cansado.
- Sim, preciso dormir. Já são quase três da manhã por aqui.
- Posso te ver dormir?
- Você quer me ver dormir?
- Sim. Se não tiver problemas para você.
- Eu nunca fiz isso.
- É só deixar a câmera ligada.
- Tudo bem. Vamos lá.
Zyan colocou o telefone em um dos aparadores ao lado de sua cama e deixou a câmera frontal apontada para o seu rosto enquanto observava Lautaro.
- Você está lindo. - Disse ele.
Lautaro sorriu. Era tarde em Nova Iorque, Lautaro colocou o seu telefone em sua frente e enquanto desenhava admirava Zyan pegar ao sono. Zyan parecia cansado. Não levou um minuto e ele fechou os seus olhos e sua respiração começou a ficar cada vez mais forte. Ele tinha pegado no sono. Lautaro deixou o lápis de lado, por cima da folha, com metade de um desenho rabiscado e se debruçou em cima da mesa onde ficou durante horas o observando.
Assistir Zyan dormindo o trazia uma sensação de paz. Era como se o mundo todo ao seu redor estivesse acabando e ele fosse a pessoa que pudesse salvá-lo. Era como se ele estivesse em Nova Iorque em um dos quadrinhos do Stan Lee, onde ele poderia ser Gwen Stacey, Mary Jane ou até mesmo uma das menos conhecidas Carlie Cooper.
Lautaro pegou um dos seus lápis de carvão e uma folha em branco. Enquanto Zyan dormia, ele começou a rabiscar seus traços naquela folha dando vida a um esboço realista de seu rosto. Ele era um verdadeiro artista e usava isso para passar o seu tempo durante as tardes em Nova Iorque ou madrugadas em que perdia o sono. Esse seria um dos desenhos que ele guardaria para si e não mostraria para ninguém, nem mesmo para Zyan, por enquanto. Ele pretendia fazer uma surpresa para que quando o encontrasse novamente o entregasse em mãos. Enquanto Zyan tinha essa incerteza e insegurança percorrendo suas veias, Lautaro tinha a certeza de que eles com certeza se encontrariam novamente.
Era como se Zyan fosse o caos e Lautaro a solução. Ele se quer conseguia imaginar ou entender a indecisão de Zyan por chamada de vídeo. Será que Lautaro ficaria chateado se soubesse das dúvidas que percorrem a cabeça de Zyan? Será que ele choraria? Será que ele desistiria ou o encorajaria? Zyan estava aprendendo muito em contato com Lautaro, principalmente a se aceitar como realmente é e saber se importar consigo mesmo.
Cada traço na folha de papel, fazia com que o coração de Lautaro batesse ainda mais forte. Seus olhos fechados. Seus cílios pretos e sobrancelhas escuras. Cabelos bagunçados e lisos. Sua boca entre aberta, quase babando. Era uma coisa linda de se ver. Era realmente um espetáculo. Se Lautaro fosse um artista, ele realmente colocaria aquela imagem em uma de suas galerias, porém uma de suas galerias particulares, pois era assim que ele gostaria de manter Zyan. Seguro e para si.
A partir daquela noite, Zyan e Lautaro criaram uma rotina de se verem todas as noites antes de dormir. O combinado entre eles foi que sempre que Zyan terminasse de fazer todas as suas coisas em Riade, ele ligaria de chamada de vídeo para Lautaro e eles conversariam até ele ou eles pegarem no sono juntos. Com oito horas de diferença no fuso horário era realmente um desafio para Lautaro manter-se disponível para falar com Zyan de acordo com a rotina dele. Lautaro simplesmente se esqueceu que vivia em um fuso horário de Nova Iorque e virou-se por completo para atender todas as chamadas e estar sempre disponível nos horários de Zyan. Isso aconteceu de uma forma tão espontânea que ele se quer pôde ver a gravidade que isso poderia ter.
Por mais que Lautaro pudesse gostar de Zyan, ele não deveria se eliminar para caber na rotina de Zyan. Era como se ele estivesse se esquecendo que vivesse em um dos filmes das gêmeas Olsen “No Pique de Nova Iorque” lançado em 2004 e começasse a viver em um “Bruxas de Blair” completamente gravado em primeira pessoa e lançado em 1999.
Os dias foram se passando e todas as vezes que Zyan chegava em casa, lá estava Lautaro o esperando com o famoso sorriso largo típico da Argentina que Zyan gostava tanto e que o fez se apaixonar à primeira vista. As conversas sempre começavam com ambos compartilhando o que havia acontecido durante o dia de cada um e depois eles começavam a rasgar elogios um com o outro e falavam de coisas aleatórias como filmes, séries e até mesmo músicas. Zyan gostava de ouvir o que Lautaro sempre tinha para compartilhar.
Zyan nunca tinha muita coisa para compartilhar. A vida de Zyan parecia ser sempre um pouco mais sem graça que a de Lautaro e com isso ele não falava muito a não ser os detalhes e os preparativos do casamento de Khadija que estavam a todo vapor. Lautaro se mostrava curioso por cada detalhe do casamento e de como aconteceria e como os preparativos estavam sendo feitos. Zyan compartilhava tudo e com entusiasmo ele pegava no sono e Lautaro sempre estava ali, o admirando. Seus olhos se fechavam lentamente, ao final do dia, de cansaço, enquanto Lautaro estava com seus olhos brilhantes observando cada detalhe daquele mundo que ele nunca pisaria.
As semanas foram se passando e os preparativos do casamento começaram a tomar conta da rotina não só de Farah e Ghaith como também da rotina de Zyan que estava judando Khadija em alguns detalhes. Ao voltar de uma viagem de negócios, Bassam convidou todos para um jantar em sua casa. Era o primeiro jantar na casa da família de Mourad. Era a oportunidade que Khadija teria de conhecer um pouco mais da rotina de Mourad e sua família e também inserir a sua família naquele universo.
O jantar foi marcado para uma sexta-feira à noite. Como sempre, eles deveriam se vestir conforme as regras do islã. Khadija vestiu um Hijab branco com detalhes vermelhos e Zyan um Thobe em cor preta.
- Você está linda. - Disse Zyan sorrindo.
- Obrigada! Você também. Aliás, adorei o preto. Faruk vai ficar enlouquecido.
- Khadija...
- Que foi?
- Papai e mamãe vão ouvir.
- Relaxa. Eles estão lá em baixo.
- Vamos. Estamos atrasados.
Como sempre, a noite de Riade estava lindamente iluminada. Farah dirigia o carro ao lado de Ghaith e logo atrás estavam Khadija e Zyan em um outro automóvel. Os carros entraram pelos portões da casa de Farah e Najat que estavam na porta esperando por eles. Khadija desceu do carro junto a Zyan, como sempre juntos. Mourad que estava encostado em um dos pilares da entrada da mansão sentiu seus olhos se iluminarem com a beleza de sua noiva. Ela estava realmente muito bonita. Faruk estava do outro lado dos pilares de braços cruzados observando Zyan que acompanhava Khadija. Seus olhos correram por todo o corpo de Zyan que estava de preto. Ele estava realmente muito bonito com Thobe em cor preta. Era uma das cores favoritas de Faruk. Hassam, por sua vez estava em seu quarto se preparando para descer e um pouco atrasado para o jantar em família.
- Você está linda. - Disse Mourad pegando nas mãos de Khadija.
- Obrigada!
- Venham, vou apresentar vocês o nosso jardim. - Disse Mourad.
Zyan assentiu com a cabeça e ao sentir falta de Faruk, ele correu seus olhos por todo o local até encontrá-lo do outro lado da pilastra. Seus lábios se encheram de felicidade e ele deu um sorriso aberto para Faruk que estava de pé às sombras do outro lado. Faruk fez um sinal com a cabeça de que já estava descendo e piscou um dos olhos para Zyan que abaixou a cabeça discretamente para que Mourad não percebesse nada.
O jardim da casa de Mourad era bem grande. Eles tinham alguns bancos espalhados pelo pátio e alguns pinheiros também que se enchiam ao redor da casa. Um pouco mais a frente eles possuíam um chafariz e um labirinto de arbustos.
- E aí, como estão? - Perguntou Faruk se achegando próximo de Zyan, Khadija e Mourad.
- Estamos bem e você? - Respondeu Khadija.
- Bem também. É sempre um prazer te ver. Você está linda.
- Obrigada! Você também. Gostei do cabelo. - Respondeu ela elogiando o topete feito por Faruk para impressionar provavelmente Zyan.
- Obrigado!
- Zyan, quer vir comigo para te apresentar a área da piscina? - Perguntou Faruk.
- Ah, claro. Por que não?
- Venha.
Zyan e Faruk foram caminhando em direção ao labirinto de arbustos enquanto Khadija e Mourad ficaram atrás.
- Eles estão se dando muito bem. - Comentou Mourad.
- Sim. Isso é muito bom.
- Já somos uma família.
- E quanto ao Hassam? Onde ele está?
- Está no quarto dele. Ele tem ficado um pouco mais sozinho.
- Ele está bem?
- Sim. Está estudando para algumas coisas. Não sei.
- Não o vejo desde muito tempo.
- Ele é mais reservado.
Khadija sentia que poderia ter algo errado com Hassam, mas ao mesmo tempo não na possibilidade de ele não estar bem naquele momento. Sua família deveria conhecê-lo muito mais que ela que tinha o visto apenas uma única vez na vida.
Do lado de dentro da mansão, Hassam desceu as escadas e se deparou com Farah e Ghaith. Ele tentou se esquivar dos pais de Khadija para não conversar. Era como se ele estivesse evitando algum tipo de socialização naquele momento. Ghaith percebeu que havia alguma coisa de errado com Hassam, mas simplesmente deu de ombros e não deu muita importância para o que poderia estar acontecendo. Ele parecia um pouco inquieto.
- Najat, está tudo bem com Hassam? - Perguntou Ghaith.
- Está sim.
- Ele parece um pouco inquieto.
- É ansiedade dos jovens de hoje. Você já foi jovem. Sabe como é. - Sorriu Najat.
Ghaith assentiu com a cabeça e continuou observando Hassam que caminhou até a sala e depois foi andando até a parte externa da mansão onde ficou sentado um pouco sozinho. Khadija e Mourad se aproximaram de Hassam que abaixou a cabeça para que não pudesse dar abertura para que eles pudessem conversar com ele.
- Boa noite, Hassam! Tudo bem? - Sorriu Khadija.
- Tudo bem. E você?
- Tudo bem também.
- Você está linda. - Elogiou ele.
- Obrigada.
Bassam interrompeu a conversa de Khadija e Hassam colocando as mãos no ombro do filho e chamando a atenção do casal.
- Tenho uma surpresa para vocês.
- O que é? - Perguntou Mourad.
- Contratei uma empresa para dar uma consultoria de viagem para a lua de mel do casal.
- Isso me parece muito interessante. - Sorriu Mourad entusiasmado.
- Acalme-se, meu filho. Quem decide a viagem é a sua mulher, Khadija.
- Eu? - Disse Khadija surpresa.
- Sim. Você. Eles devem ir à sua casa amanhã para conversarem e você escolher o local. Fique tranquila que a viagem será paga por nós. É um presente da família do noivo. - Sorriu Bassam.
- Obrigada, Bassam. - Agradeceu Khadija.
- Não precisa agradecer, você tem sido incrível com o nosso filho e nós quem precisamos te agradecer. Mourad realmente acertou em cheio quando te escolheu. - Sorriu Bassam. - Você não acha, Hassam?
Hassam foi pego de surpresa enquanto estava perdido em seus pensamentos.
- Sim, com certeza. Khadija é incrível. - Respondeu ele.
- Os próximos a se casarem serão Hassam, Faruk ou Zyan. Vamos ver quem ganha. - Sorriu Bassam. - Estou realmente ensusiasmado.
Hassam sorriu sem graça enquanto Khadija percebeu o desconforto do irmão de Mourad. Como Mourad não percebia que seus irmãos eram tão diferentes dele e um do outro. Hassam parecia estar com problemas e não contar para ninguém. O mesmo acontecia com Faruk que tinha problemas em confiar a sua homossexualidade em outra pessoa. O que estava de errado com aquela família? Se perguntava Khadija em pensamento.
Um pouco mais a frente, no meio dos arbustos estavam Zyan e Faruk. Zyan caminhava na frente enquanto extasiado com o que via do jardim e Faruk caminhava um pouco atrás com as mãos no bolso enquanto o observava em silêncio.
- É lindo aqui.
- É um dos meus lugares favoritos aqui de casa. Quando eu era pequeno eu e Hassam nos perdíamos aqui no meio e fazíamos nossos pais nos encontrarem e eles ficavam horas nos gritando no meio dos arbustos. Era engraçado. - Sorriu Faruk com um semblante nostálgico.
- Deve ser bom ter um irmão gêmeo.
- Nem tanto. A gente briga muito.
Zyan sorriu.
- Eu tenho uma coisa para te dar. - Disse Faruk retirando uma pulseira do bolso. - Essa pulseira eu trouxe de Israel quando fui visitar meus tios. - A pulseira era de aço e tinha uma estrela fixada em uma de suas peças.
- Uma estrela.
- É. Estrela de Davi.
- Significa proteção contra o mal.
- Obrigado, Faruk, mas não precisa.
- Eu quero te presentear. Para que você sempre se lembre de mim.
- Obrigado. Você coloca para mim?
Zyan estendeu as mãos e deixou com que as marcas em seu pulso ficassem para fora das mangas do Thobe.
- O que é isso? - Perguntou Faruk passando os dedos nas cicatrizes no pulso de Zyan.
- Não é nada. - Sorriu Zyan tentando não falar a respeito do que aconteceu no passado.
- Como não é nada? São cicatrizes.
- Eu me cortei há dois anos e foi isso.
- Você se cortou há dois anos? Não pode ser só isso, Zyan?
- Já passou. É uma coisa minha que ficou para trás.
Faruk permaneceu em silêncio e respeito que Zyan não queria falar sobre aquilo naquele momento, então envolveu com a sua mão, ele envolveu o seu pulso colocando a pulseira em Zyan que brilhou com a luz noturna do jardim.
- É linda.
Os dedos de Faruk ainda estavam encostados na pele do braço de Zyan que por sua vez estava com o seu braço estendido de uma forma que seu punho se encostava levemente na barriga de Faruk e ele pôde sentir a rigidez dos músculos do abdômen de Faruk. Seus olhos que estavam fixos na pulseira subiram levemente até os olhos de Faruk que ainda estavam fixados no plug da pulseira. Faruk tentava deixar a pulseira firme de uma forma que ela não fosse se soltar facilmente. Enquanto ele estava concentrado tentando em prender os lados da pulseira, Zyan percorria seus olhos por todo o rosto de Faruk.
Ao terminar de abotoar a pulseira, Faruk passou seus dedos acariciando o braço de Zyan que abriu a palma de sua mão e a colocou totalmente aberta na barriga de Faruk que o olhou fixamente nos olhos. Lá estavam eles, Zyan com a mão aberta, totalmente apoiada no corpo de Faruk enquanto olhavam tão fixamente que ambos puderam sentir seus olhares se penetrarem de uma forma tão única que Zyan sentiu um arrepio percorrendo por toda a sua espinha até a nuca. Faruk colocou uma de suas mãos em cima da mão de Zyan e a puxou até o meio de seu peito para que ele pudesse sentir seu coração que palpitava.
- Está sentindo isso?
- Seu coração bate forte.
- É assim toda vez que você se aproxima de mim.
Sentir o coração de Faruk bombear na palma de suas mãos e percorrer por toda a sua veia era uma sensação que Zyan nunca tinha sentido na vida. Era como se eles estivessem se conectando de alguma forma que nem ele conseguia explicar. Era um sentimento tão diferente do que ele havia sentido em Nova Iorque com Lautaro que ao mesmo tempo que ele queria fugir dali e correr em direção contrária ao de Faruk, ele pretendia apenas agarrar a nuca de Faruk e puxá-lo contra seus lábios e encontrá-lo em um beijo ardentemente caliente.
Enquanto os dois se olhavam fixamente e Faruk segurava as mãos de Zyan contra o seu peito, Hassam chegou no meio dos arbustos e interrompeu a conversa dos dois.
- Ei! - Disse Hassam.
Zyan retirou as mãos rapidamente e as colocou no bolso enquanto Faruk pigarreou e abaixou a cabeça.
- O jantar está na mesa. - Avisou Hassam.
- Obrigado! - Agradeceu Faruk.
Zyan abaixou a cabeça e passou por Hassam em silêncio. Em seguida, Faruk tentou passar por Hassam que o segurou pelo braço.
- O que está acontecendo aqui? - Perguntou Hassam.
- Nada. Estávamos conversando.
- Conversando?
- É. Conversando, Hassam.
- Com a mão um no outro?
- Hassam, estávamos conversando.
- Você precisa tomar mais cuidado.
- Do que você está falando.
- Papai não verá com bons olhos este tipo de comportamento.
- Que tipo de comportamento você está falando?
- Vocês pareciam dois homossexuais juntos aqui no escuro.
- Hassam, por favor, não viaje. - Disse Faruk retirando as mãos do irmão de si e seguindo em direção a entrada da mansão.
Enquanto Faruk caminhava, Hassam o observava de trás. Ele sabia o que estava acontecendo, mas ao mesmo tempo que tinha a certeza de que eles poderiam estar totalmente envolvidos entre si, ele ainda tinha dúvidas se o que ele tinha visto era realmente toques e caricias entre dois homens que nutriam um sentimento um pelo outro ou apenas uma conversa calorosa entre dois amigos.
O encontro na mesa de jantar naquela noite foi um pouco mais frio do que os anteriores, devido a Hassam ter interrompido a conversa de Zyan e Faruk. Faruk estava constrangido pelo irmão ter o pego em uma situação de vulnerabilidade com outro homem e Zyan estava preocupado pensando se aquilo poderia prejudica-los perante às suas famílias. Khadija por sua vez estava mais envolvida com Mourad e aos poucos seus olhos estavam voltando-se mais para o seu noivo que para as outras pessoas ao seu redor. Ela, que com dificuldades estava para se entregar, aos poucos estava cedendo às seduções feitas por Mourad. Ele não parecia ser uma má escolha e ela sabia disso. Aos poucos ela começava a sentir que talvez ele pudesse ser o amor da sua vida. Aliás, muitas vezes os amores acontecem e ela estava começando a descobrir isso. Suas lembranças com Nizar estavam ficando cada vez mais e mais distantes e consequentemente o seu futuro com Mourad estava se aproximando cada vez mais e ela conseguia olhar para frente e vê-los juntos. Um dos únicos problemas que ela precisaria trabalhar internamente todavia seria o fato de engravidar. Ela sentia que era nova demais para dar luz a uma criança e sentia que isso deveria ser conversado com Mourad. Mas como todo o casamento, o anúncio da gravidez sempre vem após a lua de mel e ela sabia que precisaria se arriscar e deixar o seu futuro de lado para construir uma família.
Em baixo da mesa, Faruk tentava chamar a atenção de Zyan que evitava olhar em sua direção devido a Hassam estar atento aos dois. Seus pés tentavam ir de encontro com o de Zyan que estava logo em sua frente. Dessa vez, eles acabaram sentando-se um pouco mais afastados em direção opostas. Zyan sentia que Faruk estava acariciando sua perna com os pés em baixo da mesa, mas tentava esquivar e ao mesmo tempo que se esquivava evitava olhar em direção a ele.
O jantar terminou e enquanto os noivos e seus pais conversavam na mesa a respeito do preparativos e ansiedade para o casamento, Khadija sorria forçadamente de nervoso e nem sua Ghaith que tinha passado por isso no passado, conseguia identificar o sorriso de nervosismo de sua filha. Ela só pensava que Khadija estava feliz em se casar com um bom pretendente. Era o que ela via em Mourad enquanto ele estava sentado na mesa, segurando uma taça de vinho importado, indo completamente contra as regras do islã porque ele conseguia também ser liberal com algumas coisas em relação à sua religião e Ghaith nem se quer imaginava isso, mas ela via em Mourad um bom pretendente.
Zyan estava calado e não conseguia prestar a atenção em nada, pois o seu pensamento estava longe. Ele pensava em Lautaro enquanto todas as pessoas ao seu redor conversavam e Faruk que estava à sua frente, sentado à mesa, o observava enquanto seu pensamento viajava longe. Faruk tinha curiosidade em saber por qual motivo Zyan parecia tão distante e ele começou a analisar cada movimento de Zyan na mesa. Hassam que havia presenciado um momento intimo dos dois, ficou com seus olhos atentos ao seu irmão que não parava de analisar indiscretamente Zyan que começara a chamar a atenção de Najat e Bassam que ao verem o filho olhar diretamente para Zyan começaram também a reparar em alguns comportamentos de Zyan, principalmente enquanto ele mexia ao celular, em baixo da mesa, sendo completamente incoveniente.
- Eu acho que eu vou me sentar lá fora. - Comentou Zyan que se referia a se sentar no jardim.
- Tudo bem! - Respondeu Najat.
Zyan se levantou empurrando a cadeira fazendo um leve barulho da madeira que se arrastou na mármore ao chão tirando um pouco da atenção de todos que conversavam sobre o casamento. Com o telefone em mãos, com o visor virado para si, as pessoas sentadas à mesa viram o clarão que iluminava o seu thobe em cor preta e não precisaram de muito para entender que algo estava roubando a atenção de Zyan e que aquilo estava no celular.
Zyan foi caminhando até a porta de entrada e sentou em um dos degraus do meio da escada que levava até a mansão de Faruk. Najat ficou curiosa para saber o que tanto Zyan fazia no telefone e cutucou discretamente Ghaith que estava um pouco próxima de si na mesa.
- Ei! - Disse Najat. - Parece que teremos um outro casamento na família.
- Sério? - Perguntou Ghaith entusiasmada. - Hassam ou Faruk vão se casar? - Perguntou Ghaith que não havia entendido que Najat estava alfinetando o seu filho.
- Não, eu me refiro ao Zyan.
- Por que ao Zyan?
- Eu conheço um olhar apaixonado. - Disse Najat sorrindo.
- Ao que você se refere?
- Olha só para a Khadija. - Alfinetou Najat novamente. - E olhe agora para Mourad.
- Eles estão realmente apaixonados. - Comentou Ghaith completamente cega ao ponto de não perceber o quanto a filha estava distante daquele sentimento por Mourad que estava tão envolvido com ela naquele momento.
- Ghaith, você me ajuda com algo na cozinha? - Perguntou Najat chamando-a para o privado e seus maridos Farah e Bassam reconheceram Najat queria um momento a sós com Ghaith.
- Assuntos de mulheres. - Comentou Bassam. - Vamos subir até o meu escritório. - Bassam convidou Farah para subir até o segundo andar de sua mansão para conhecer o seu famoso escritório.
Faruk ao perceber que o pai estava se levantando da mesa, logo após a sua mãe, decidiu também se levantar deixando os demais sozinhos. Hassam olhou fixamente para o irmão que se levantou e foi caminhando em silêncio com o pescoço inclinado para identificar onde Zyan estava sentado do lado de fora da casa. Hassam se levantou e foi atrás do irmão discretamente deixando Khadija e Mourad sozinhos. Khadija que estava sentada do lado de Mourad prestava a atenção em tudo que acontecia na mesa, menos na conversa de seu futuro esposo. Para ela, ele só estava mexendo a boca enquanto nenhum som saia de seus lábios porque ela não prestava a atenção em nada do que ele falava apenas no quanto seu irmão estava prestes a ser observado pelos irmãos de Mourad.
Zyan estava sentado em um dos degraus no meio da escada e não percebeu que Faruk havia chegado atrás dele e estava em pé na porta da entrada observando tudo que ele fazia no telefone e inclusive em sua conversa que estava prestes a acontecer com Lautaro. Hassam, que chegou discretamente do andar de cima, também estava atento ao que estava acontecendo logo em baixo de seus pés onde seu irmão, Faruk estava atento aos comportamentos e a conversa de Zyan ao telefone.
Sem perceber que tinha companhia, Zyan entrou no aplicativo comunicador do WhatsApp e buscou pelo contato de Lautaro selecionando o ícone de chamada de vídeo.
Zyan está iniciando uma chamada de vídeo.
Chamando...
Chamando...
Chamando...
Lautaro aceitou a sua chamada de vídeo.
- Oi, minha possível loucura impossível! - Sorriu Lautaro que desenhava enquanto atendia Zyan.
- Oi! Eu gosto de te ver sorrindo assim. - Comentou Zyan.
Faruk que escutava tudo enquanto estava em pé nas costas de Zyan, tentou se esconder atrás do vão da porta no escuro para que não fosse descoberto e continuasse prestando a atenção na conversa enquanto em cima dele, Hassam se debruçou na sacada do segundo andar e ficou ainda mais interessado na conversa homossexual de Zyan com o americano. Só podia ser americano. Pensou Hassam.
- Você tem sido a razão pela qual tenho sorrido ultimamente. Sabia? - Comentou Lautaro. - Preciso de mostrar algo. - Disse ele selecionando a câmera traseira de seu telefone para mostrar os desenhos que ele fazia naquele momento – Olha esse! - Comentou Lautaro que mostrava os rabiscos feitos para desenhar um padre no sexo feminino em um altar na igreja provavelmente católica.
- Um padre? - Perguntou Zyan que não conseguia entender a mensagem do desenho.
- Uma padre mulher. - Comentou Lautaro. - Nós não temos mulheres em papeis de pregações em igrejas católicas hoje. Temos apenas as freiras que estão ali para servir e para ler uma bíblia e pregar uma mensagem em frente às pessoas? Mulheres não conseguem também transmitir uma mensagem ou levar uma mensagem? Porque são só padres os homens? - Perguntou Lautaro achando totalmente engraçado o que ele estava se questionando em seu desenho.
Hassam que estava no segundo andar, arrancou o telefone do bolso e ligou a câmera selecionando a opção de vídeo e apertou no ícone de gravar deslizando seu dedo indicador e polegar em sentidos contrários para fazer o maior zoom possível na câmera e chegar mais próximo à Zyan e seu telefone para mostrar a chamada e a conversa tão íntima e despretenciosa de Lautaro e Zyan naquele momento, dentro de sua casa.
- Nossa! - Comentou Zyan. - Como você conseguiu imaginar tudo isso?
- Eu não sei. Só estava pensando e comecei a desenhar enquanto escutava uma canção.
- Que canção?
- Macklemore, Same Love. - Comentou Lautaro fazendo menção à canção feita por Macklemore e lançada em 2012 a favor do casamento igualitário entre pessoas do mesmo sexo.
- Não conheço.
- Assiste.
- OK! Me dá um minuto. Vou procurar. - Disse Zyan alternando a sua chamada de vídeo com o aplicativo do YouTube e no campo de pesquisa buscando por “Macklemore Same Love” tudo junto e espaçado. Na primeira relação da pesquisa, lá estava Macklemore com a sua produção a favor do casamento igualitário. Zyan deu play na canção.
Faruk cruzou os braços no escuro e esticou o pescoço para tentar identificar que música era e o que Zyan assistia naquele momento, enquanto Hassam filmava tudo nos mínimos detalhes do segundo andar, usando a câmera seu telefone enquanto Ghaith conversava com Najat na cozinha.
- Você já se perguntou o que o seu filho faz sozinho dentro de casa? - Perguntou Najat.
- O Zyan? Não. Ele tem vinte e oito anos.
- Mas você deveria saber. Eu me preocupo com Mourad assim como me preocupo com meus dois filhos mais novos Hassam e Faruk.
- Mas, Najat, seus filhos mais novos têm apenas dezoito anos. É normal se preocupar tanto. - Pontuou Ghaith.
- É normal, mas quando ele parece estar apaixonado mexendo ao telefone sem ao menos nunca ter apresentado nenhuma garota em casa, para vocês, é no mínimo questionável. Você não acha?
- Quando seus filhos tem uma idade para que você se preocupe com eles, acredito que sim, Najat. - Pontuou Ghaith. - Mas, você reparou alguma coisa?
Najat ficou em silêncio pensando em como aquilo poderia ser respondido para Ghaith.
- Eu reparei um sorriso apaixonado. E eu conheço sorrisos apaixonados.
- Eu também os conheço.
- Conhece? - Perguntou Najat mais uma vez surpresa.
- Conheço.
- Tente reparar um pouco mais nos seus filhos, Ghaith. Você os conhecerá melhor. Quanto tempo você tem passado com Khadija e Zyan ultimamente?
Ghaith demorou um tempo para responder aquela pergunta, pois ela estava pensando na resposta. E quando se parar para pensar em uma resposta é porque ela não se sabe o tempo que se passou até ali ou está tentando mensurá-lo contando na cabeça até o responder. Najat ficou sentada à sua frente, de braços cruzados, esperando por uma resposta enquanto analisava o comportamento de Ghaith.
- Tenho passado bastante tempo com eles. - Respondeu Ghaith após não conseguir mensurar quanto tempo tinha que ela não passava tempo com seus filhos, mais próxima deles. Ela estava muito mais preocupada em casar Khadija e nos preparativos para o casamento e na representatividade para a sua família, que ela se quer estava se preocupando com o sorriso da filha naquele momento.
- Que bom! Então desconsidere tudo que eu falei. Eu acho que eu talvez tenha me preocupado demais. - Respondeu Najat com um sorriso tão falso que se Ghaith quisesse um pouco interpreta-lo, ela saberia que Najat estava sendo sincera. Najat teria se importado com Khadija e Zyan e só por eles ter uma mãe que não se importa com eles, ela se perguntou naquele momento sobre quem seria ela para se importar.
Do outro lado da mansão, Khadija tentava chegar mais próxima da entrada para ver o que Zyan estava fazendo enquanto Mourad tentava impedi-la segurando-a com seu charme e tentando convencê-la a se encaixar em um dos cantos dos pilares que sustentavam a sala com ele e no escuro desse um beijo ardente. Khadija tentava se esquivar empurrando Mourad que a segurava firmemente contra um dos pilares forçando um beijo enquanto ela o pedia para parar. Mourad silenciou Khadija que não terminou de falar a sua frase de “Pare, por favor, Mourad” dando um beijo em seus lábios que ficaram cerrados enquanto ele forçava um beijo de língua tentando encaixar a sua língua em sua boca.
No andar de cima, Hassam ainda filmava a conversa de Zyan com Lautaro que mostrava mais um desenho para ele. Dessa vez ele ilustrava um dos desertos próximos à Riade.
- O que é isso? - Perguntou Zyan.
- Este é um deserto. - Disse Lautaro deslizando um de seus dedos pelo desenho onde mostrava a areia sendo empurrada pelo vento seco do deserto. - E aqui, temos um homem passeando com o seu camelo no deserto, em meio a uma noite estrelada e fria. O deserto é quente durante o dia e frio durante à noite.
- Uau. Isso é lindo.
- Você acha? Fiz pensando em você.
- Em mim?
- Sim.
- Tem um deserto aqui. Sabia?
- Sério?
- Sério!
- Deve ser lindo o pôr do sol por lá.
- Você gostaria de vê-lo um dia?
- Se eu tivesse a oportunidade, gostaria, com certeza. - Sorriu Lautaro que ativou a câmera frontal para o seu rosto naquele momento.
- Eu te traria para cá se eu pudesse.
- E porque não pode?
- Porque aqui não é o melhor lugar para nós dois.
- Pelos motivos pelos quais você já me contou.
- Sim.
- Eu entendo.
Os dois ficaram em silêncio.
- Nós nunca ficaremos juntos então?
- Ficaremos!
- E como você pretende fazê-lo.
- Eu vou até você. Em Nova Iorque.
- Disso eu sei, mas a gente não definiu nenhuma data ainda.
- Mas eu vou. Em breve.
- Em breve quando, Zyan?
- No natal.
- Natal?
- Natal!
- Mas natal está logo aí. Faltam dois meses para o natal.
- Está chegando.
- Eu não acredito.
- Eu quero conhecer o natal.
- Você nunca esteve em um natal?
- Não.
- Como assim?
- Aqui nós não temos o costume de comemorar o natal.
- Sério? Mas o Natal é algo tão...
- É uma realidade para você, mas para muita gente não.
Lautaro simplesmente ficou em silêncio imaginando como seria viver sonhando com o natal. Natal para ele era uma data tão mágica. Ele conseguia se reunir com a sua família e seus amigos onde recebia e dava presentes e conseguia se encher da presença de pessoas queridas, onde conversas aconteciam de forma tão aleatórias que todos gostavam, mas no fundo reclamavam quando elas existiam e essa era a parte mais legal do Natal, observar os grupos que eram formados nas salas de família onde os primos mais próximos ficavam sempre juntos se dividindo em grupos e os pais com mais assunto se juntavam de um lado e as mães do outro e as crianças corriam pela casa, onde depois alguém se vestia com uma roupa vermelha e um cinto preto com um saco vermelho cheio de presentes e com uma barba branca de fio de nylon pendurada no rosto, ondulada, imitando cachos dava risadas de “Ho Ho Ho” distribuindo presentes para as crianças que vibravam com os mais derivados brinquedos, sendo eles os mais baratos da loja comprados por adultos ou os mais caros como uma bicicleta, um patinete ou até mesmo um patins. No caso mais raro de alguns adolescentes, eles ganhavam um console de video game e instalavam na TV da sala e ficavam jogando durante a noite toda enquanto os adultos tomavam vinho e recebiam roupas entre eles e se apaixonavam por cada peça recebida.
- O que foi? - Perguntou Zyan que percebeu o silêncio de Lautaro que ficou sem formar frases por longos segundos e um rosto de quem se recordava de alguma sensação boa.
- Nada. Eu lembrei da minha família.
- Sua família?
- Sim. Eu não os verei neste natal e me deu uma saudade deles.
- E como é o natal para vocês?
- É como na TV, nos comerciais da Coca Cola, só que um pouco diferente.
- Eu nunca assisti aos comerciais da Coca Cola. Não os de natal.
- Assista depois.
- Vou assistir. - Comentou Zyan que ficou ansioso para chegar em casa e pesquisar os comerciais da coca cola.
Faruk já tinha decidido que Zyan não chegaria em casa tão cedo naquela noite. Foi quando ele se aproximou de Zyan e colocou sua mão em seu ombro fazendo com que Zyan se assustasse e escondesse o telefone.
- Ei!
- Que susto!
- O que está fazendo? - Perguntou Faruk sentando-se ao lado de Zyan.
Hassam imediatamente interrompeu a filmagem do segundo andar e continuou observando o comportamento do irmão com Zyan.
- Estava apenas mexendo ao telefone. - Respondeu Zyan que discretamente deslizou seu dedo no botão de encerramento da chamada.
- A noite está linda. - Disse Faruk sorrindo.
- Está. Eu vejo algumas estrelas daqui. - Pontuou Zyan olhando para o céu.
- Também. O céu está limpo. Sem nuvens. - Comentou Faruk.
- Sim.
- O que você achou da pulseira? Você não comentou nada.
- Eu gostei do presente.
- Que bom. Foi de coração. Sabia?
- Eu sei. Obrigado.
- Eu não tive a oportunidade de te dizer porque o meu irmão acabou chegando, mas eu gosto de você, Zyan.
- Obrigado, Faruk.
- Obrigado por ter cuidado de mim aquele dia.
- Eu fiz o que eu gostaria que teriam feito se fosse comigo.
- Por isso decidi te dar um presente. Aquilo foi muito importante para mim.
- E como você está hoje?
- Estou bem.
- Gostou do jantar?
- Gostei que você veio e você está lindo de preto.
- Obrigado!
- Gostou que também vesti preto? - Perguntou Faruk.
- Gostei. Você também está bonito de preto. - Comentou Zyan.
- Obrigado. Vesti por você.
- Por mim?
- Sim. Eu vi que você gosta de roupas escuras e decidi me vestir para você.
- Para mim?
- Sim. Para você notar em mim.
- Você não precisa fazer isso, Faruk. Eu já notei você.
- Notou?
- Notei. Você nem imagina o quanto. - Disse Zyan olhando rente aos olhos de Faruk.
- Sério? E o que você notou?
Zyan ficou em silêncio.
- Faruk, nós temos muita coisa em comum. - Comentou Zyan. - Eu sou igual a você.
Faruk engoliu em seco a resposta de Zyan.
- Igual a mim? Em que sentido?
- Igual e você. Você sabe qual é o sentido em que eu estou falando.
- Não sei, mas eu posso imaginar.
- É nesse sentido mesmo. Eu também sou gay.
Hassam que estava ouvindo a conversa do segundo andar, se afastou da sacada e colocou uma das mãos na boca para tampar a respiração que começara a ficar ofegante. Ele não podia imaginar que seu irmão também tinha interesse por pessoas do mesmo sexo e ele repudiava aquele tipo de comportamento ao ponto de cogitar a contar para o próprio pai que segue as regras do ancorão que diante a lei proíbe tradicionalmente as relações homossexuais no islã.
Enquanto Hassam cogitava a hipótese de entregar Zyan para o seu pai, Khadija tentava se desvencilhar do abraço de Mourad.
- Por favor, aqui não. Nossos pais podem chegar. - Pediu Khadija.
- Só um beijo, Khadija.
- Não. Eu já disse não.
- Tudo bem! - Mourad revirou os olhos. - Vamos lá fora? - Sugeriu ele.
- Vamos pegar um ar. Eu preciso. - Sorriu Khadija.
Enquanto estavam sentados no mesmo degrau, Faruk passou seu braço em volta das costas de Zyan e se aproximou lentamente de seu rosto.
- O que você está fazendo? - Perguntou Zyan.
Faruk passou sua outra mão em torno da nuca de Zyan e o forçou contra seus lábios dando-o um beijo apertado e com os olhos fechados enquanto Zyan se assustou tentando pressioná-lo em sentido contrário enquanto Faruk o apertava contra seu próprio corpo. Atrás deles, chegaram Khadija e Mourad que flagraram o beijo dos dois interrompendo Faruk que forçava Zyan a beijá-lo.
- Faruk? - Chamou Mourad.
Faruk se assustou e soltou Zyan que olhou rapidamente para trás.
- Zyan? - Chamou Khadija.
- O que vocês estão fazendo? - Perguntou Mourad.
Hassam que estava no segundo andar, correu até o escritório de seu pai e o chamou rapidamente.
- Pai!
- O que foi, Hassam? Estou conversando!
- Por favor, venha até aqui.
- Não. Agora eu não posso. Me dê licença.
- Pai, por favor, vocês precisam ver algo.
- O que foi, Hassam?
- Tem algo muito sério acontecendo aqui em casa e que vai contra tudo que está no Alcorão. - Comentou ele fazendo menção ao livro que serve de inspiração para Sharia, o código das leis do islamismo.
- O que está acontecendo de tão importante aqui em casa, Hassam que não pode esperar nossos convidados irem embora?
- Vejam por vocês. - Disse Hassam entregando o telefone nas mãos de seu pai com o vídeo aberto. - Está vendo? Este é Zyan com comentários e comportamentos homossexuais em baixo do nosso teto.
- Do que você está falando, Hassam? - Perguntou Farah. - Estas acusações são muito sérias.
- Eu sei, vejam! Ele está com um americano.
- Americano? - Perguntou Farah.
- Foi isso que ele foi fazer em Nova Iorque. - Comentou Hassam.
- Farah, fique calmo. - Disse Bassam.
- Eu estou calmo, mas eu preciso encontrar Ghaith.
- Espera! - Disse Bassam indo atrás de Farah que estava indo em direção à porta. - Nós precisamos tomar providências com relação a isso.
- Providências? - Perguntou Farah virando-se para Bassam.
- Sim. Precisamos corrigir estes comportamentos. Eles não são normais para um homem de verdade. Você concorda?
Farah ficou em silêncio. Ele sabia o que significava corrigir aqueles comportamentos no sentido que Farah o disse.
- Eu te entendo, Farah, mas eu preciso resolver isso em minha casa primeiro.
- Tudo bem. Depois conversamos sobre o comportamento que aconteceu em baixo do meu teto que foi completamente desrespeitoso. Eu consigo imaginar pelo o que vocês têm passado em baixo do teto de vocês.
- Do que você se refere?
- A isso tudo. Você e Ghaith não sabiam?
- Não. Nós não podíamos nem imaginar. O Zyan tem vinte e oito anos de idade. Não ficamos o tempo todo preocupado com o que Zyan está fazendo.
- Acredito que agora devam mudar um pouco o tratamento com o filho de vocês. Certo?
- Desculpe, Bassam, você está tentando me ensinar como eu educo os meus próprios filhos dentro da minha casa?
- Não. Desculpe-me, eu jamais diria esse tipo de coisa para um homem de família como você. Afinal, vendo o comportamento de Khadija e toda a sua educação, eu vejo o quanto você consegue conduzir bem uma família. Tariq é impecável com a sua família também. Não tenho dúvidas de que você consegue ser um bom homem para a sua família. - Disse Bassam tentando se explicar.
- Você precisa que te enviemos o vídeo, Farah? - Perguntou Hassam.
- Não precisa, Hassam. Eu já vi o suficiente. Só gostaria de te pedir uma coisa, se possível, claro. - Farah disse um pouco pausadamente para que Hassam e Bassam tentassem entender o nível de preocupação que ele tinha com aquele tipo de conteúdo que havia sido gravado. - Vocês podem, por favor, apagar esse vídeo da galeria de vocês?
- Desculpe-me, Farah, mas o que você está me pedindo é um absurdo. Isso aconteceu dentro da nossa própria casa, sendo um desacato contra a nossa própria família. Foi desrespeitoso. - Disse Bassam.
- Desrespeitoso?
- Você não acha?
- E quanto à nossa família.
- Desculpe-me, mas neste atual momento estou prezando pelo respeito de toda a nossa família. Inclusive da família que Mourad e Khadija construirão. Você não concorda?
Farah ficou em silêncio e engoliu em seco o que Bassam acabara de falar.
- Tudo bem! - Assentiu Farah. - Onde está Zyan?
- Está lá em baixo com Faruk. - Disse Hassam.
- Inclusive depois disso eu começo a me perguntar se Zyan é mesmo a melhor companhia para Faruk neste momento. Ele pode ser uma péssima influência para ele.
Farah saiu do escritório e desceu as escadas até o andar de baixo onde estava Khadija e Mourad em pé olhando para Faruk e Zyan que por sua vez estavam do lado de fora com olhares assustados.
- Está tudo bem aqui? - Perguntou Farah.
- Está sim. - Respondeu Khadija olhando fixamente para Mourad para que ele concordasse com o que ela havia dito naquele momento.
Mourad assentiu com a cabeça ao perceber o olhar de Khadija para ele.
- Vamos para casa. - Chamou Farah.
- Está tudo bem, papai? - Perguntou Khadija.
- Está sim. Onde está sua mãe?
Ghaith que estava na cozinha com Najat, caminhou em direção a entrada ao notar que todos estavam reunidos na porta aparentemente em uma conversa.
- Oi, Farah! Está tudo bem? - Perguntou ela percebendo a aflição de Farah.
- Está sim. Vamos para casa? - Chamou ele.
- Vamos.
- Vou pegar o meu carro. - Disse Zyan descendo as escadas.
- Zyan, você pode ir comigo, por favor? - Perguntou Farah.
Zyan sem entender o motivo pelo qual o pai o convidou para ir no mesmo carro que ele, abaixou a cabeça e assentiu com olhar confirmando que sim.
- Khadija, pegue as chaves de Zyan e vá com a sua mãe no outro carro. - Pediu Farah.
- Tudo bem. - Assentiu Khadija caminhando até Zyan.
Khadija tentou manter o olhar abaixado e estendeu as mãos para que Zyan colocasse as chaves em suas mãos.
- Uhibuk! - Disse Zyan entregando as chaves para Khadija.
- Uhibuk! - Sussurrou Khadija ao pegar as chaves.
Hassam que estava na sacada do segundo andar observando tudo, gritou por Faruk e o pediu para que subisse até o escritório de seu pai. Faruk assentiu com a cabeça e subiu as escadas rapidamente tentando não olhar para trás enquanto Zyan segurava as chaves nas mãos na porta de entrada da mansão.
- Estou aqui, papai. - Disse Faruk ao entrar no escritório.
- O que está acontecendo, Hassam?
- Conte para ele, Faruk. - Disse Hassam.
- Contar o que? - Perguntou Faruk com um tom mais ríspido.
- O que aconteceu lá em baixo.
- Não aconteceu nada.
- Tem certeza?
- Absoluta, Hassam. - Afirmou Faruk.
- Papai, mostre para ele. - Disse Hassam pegando o telefone e mostrando o vídeo filmado por ele.
Faruk apertou os olhos e ficou em silêncio enquanto assistia ao vídeo.
- Não estou entendendo. - Disse Faruk.
- Zyan está com comportamentos homossexuais em baixo do nosso teto desrespeitando a nossa família. - Disse Hassam.
- O que? - Perguntou Faruk assustado.
- O que aconteceu depois disso foi que Faruk e Zyan se beijaram na escada da entrada de nossa casa.
- O que? - Perguntou Bassam assustado.
- Isso nunca aconteceu. - Mentiu Faruk.
- Não minta para o papai.
- Não estou mentindo.
- Chame o Mourad aqui. Ele viu tudo. - Disse Hassam.
- O que? Mourad viu? - Perguntou Bassam.
- Sim.
Bassam abriu a porta do escritório e gritou por Mourad que subiu as escadas correndo.
- O que foi, papai?
- Por favor, feche as portas. - Pediu Bassam.
- O que está acontecendo? - Perguntou Mourad ao perceber que seus irmãos estavam em pé ao lado de Bassam e calados com o olhar baixo.
- Hassam está fazendo uma acusação contra Faruk a respeito de comportamentos homossexuais em baixo do meu teto. Você viu alguma coisa lá em baixo?
Mourad ficou em silêncio.
- Responda, por favor! - Pediu Bassam.
- Zyan e Faruk estavam próximos demais, papai. Foi a única coisa que eu vi.
- Próximos como?
- Eles estavam se beijando. - Respondeu Mourad.
Bassam não hesitou e estendeu o braço e com a palma da mão a virou de uma só vez contra o rosto de Faruk que ao sentir o impacto da palma da mão de seu pai em seu rosto, fechou os olhos e continuou em pé, firme e em silêncio com as mãos em frente ao seu corpo e seus dedos entrelaçados uns aos outros. Faruk continuou com os olhos fechados por longos segundos até que o abriu novamente. Hassam e Mourad estavam assustados com o barulho do tapa que seu pai deu em Faruk e no quanto o irmão havia sido forte continuado de pé, imóvel sem se mexer.
- Eu não vou aceitar este tipo de comportamento em baixo do meu teto. - Disse Bassam. - Você está me entendendo, Faruk?
Faruk continuou em silêncio.
- Você está me entendendo Faruk? - Perguntou novamente Bassam.
Faruk continuou em silêncio e dessa vez, seus olhos que estavam abaixados, voltaram-se para o seu pai.
- Você está me entendendo, Faruk?
Dessa vez, Faruk decidiu responder a pergunta de seu pai.
- Estou te entendendo. - Disse ele. - Me perdoe!
- Quando isso começou? - Perguntou Bassam.
Faruk, mais uma vez, ficou em silêncio. Ele não queria responder quando aquilo havia começado. Era como se ele estivesse à frente de autoridades e precisasse de algum advogado para ajudá-lo a se proteger naquele momento.
- Hassam, quando isso começou a acontecer?
- Eu não sei, papai! Eu os vi hoje enquanto eles estavam no jardim.
- No jardim?
- Sim. No jardim de nossa casa, entre os arbustos.
- Entre os arbustos?
- Sim, papai. Entre os arbustos.
- O que eles estavam fazendo lá?
- Eu não sei, mas estavam conversando.
- Conversando?
- Sim.
- Entre os arbustos?
- Sim. Zyan estava com o braço estendido e Faruk estava segurando o seu braço, colocando uma pulseira em seu braço, papai.
- Que pulseira, Hassam? - Perguntou Mourad interrompendo a conversa.
- A pulseira que vovô nos deu quando criança.
- A pulseira de nossa família? - Perguntou Bassam. - Você deu a pulseira de nossa família para um afeto homossexual seu?
Faruk continuou em silêncio.
- Responda, Faruk! - Gritou Bassam.
- Dei, papai.
- Você deu a pulseira de nossa família para aquele rapaz? - Perguntou novamente dessa vez se sentindo completamente desorientado e triste. Bassam não conseguia acreditar que seu filho estava tendo relações homossexuais dentro de sua própria casa.
Bassam começou a respirar com dificuldade e colocou uma de suas mãos no peito enquanto grunhia como se estivesse sentindo alguma dor no meio do peito. Mourad e Hassam se apressaram e foram em direção ao seu pai que parecia sentir dificuldade para estar de pé e colocou uma de suas mãos em cima do móvel ao seu lado como se estivesse tentando manter o equilíbrio. Mourad e Hassam colocaram suas mãos em seu pai de uma forma que conseguissem sustentá-lo seguro ao chão naquele momento. Bassam simplesmente pegou uma de suas mãos e empurrou os dois filhos, distanciando-os dele mesmo como se ele não precisasse de nenhuma ajuda para se manter em pé no chão.
- Acalme-se, papai. - Disse Hassam.
- Você está bem, papai? - Perguntou Mourad.
- Estou apenas com dificuldade para respirar.
Eles nunca tinham visto o pai daquela forma e aquilo estava os assustando. Faruk ficou sem reação em pé em frente aos irmãos.
- Está vendo só o que você fez, sua aberração? - Perguntou Hassam.
- Hassam, não fale assim com ele. - Pediu Mourad.
- Deixe, Mourad! Ele precisa aprender! - Disse Bassam permitindo com que Hassam continuasse a humilhar Faruk.
- Você está sendo uma vergonha para mim, para o meu irmão e para os nossos pais, Faruk. Por que você não se mata logo? - Perguntou Hassam.
Faruk continuou em silêncio.
- Eu digo sério, Faruk, suba as escadas, vá para o seu quarto e corte os seus pulsos e se mate. Vai ser melhor do que ser castigado por ser o que você é. Seu nojento. - Disse Hassam.
- Hassam... - Pediu novamente Mourad.
- Eu disse para deixar. - Disse Bassam.
- Vá! Suba para o seu quarto agora e mostre que você tem coragem e que você nos ama e corte os seus pulsos e se mate logo. - Disse Hassam.
- É o que vocês querem? - Perguntou Faruk.
- Vá logo, Faruk, para o seu quarto! - Ordenou Bassam.
Ao abrir a porta do escritório, Faruk se deparou com a sua mãe, Najat, que estava parada rente à porta ouvindo toda a conversa. Najat tinha escutado tudo que havia acontecido dentro do escritório e podia simplesmente interromper e dizer tudo que pensava a respeito do que os homens daquela família estavam falando e proteger seu filho, ao contrário disso, ela simplesmente ficou em silêncio enquanto Faruk a olhava da porta.
- Mãe? - Chamou Faruk como se quisesse ouvir alguma palavra de conforto ou de proteção vinda de sua mãe.
- Faruk, por favor, agora não. Você me decepcionou. - Disse Najat abaixando o olhar.
Faruk abaixou sua cabeça e foi andando pelo corredor e, sem olhar para trás, seguiu até o seu quarto. Sem pensar no que deixava para trás, Faruk fechou a porta atrás de si girando a chave de segurança por duas vezes trancando-se no quarto e se sentou em sua cama. Em silêncio, ele colocou suas mãos na boca e soltou um choro contido. Seu choro começou a se misturar aos soluços e suas lágrimas começaram a rasgar o seu rosto.
[PARTE V] 24.12.24
[PARTE VI] 01.01.25
[PARTE VII] 10.01.25
[PARTE VIII] 15.01.25
[PARTE IX] 20.01.25
[FINAL] 25.01.25
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