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THE_CLUST3R: LUZES DE NATAL (CAP. 05)

Em Nova Iorque, uma canção tocava ao rádio da galeria onde Lautaro estava chegando para conhecer um dos trabalhos de um dos artistas os quais ele se inspirava. Speeding cars da banda irlandesa Walking on Cars.

Estou entendendo, papai. Me perdoe!

Quando isso começou? - Perguntou Bassam se direcionando para Hassam.

Eu não sei, papai. Eu vi tudo isso hoje.

Quando?

No jardim.

No jardim?

Antes do jantar.

Antes do jantar?

Sim. Faruk estava com ele entre os arbustos e deu a ele aquela pulseira de nossa família.

Qual pulseira? A que meu pai deu a vocês?

Sim, papai. - Respondeu Hassam.

Você deu a pulseira de meu pai para o Zyan, Faruk? - Perguntou Hassam partindo para cima de Faruk.

Mourad tentou conter seu pai.

Papai, acalme-se! - Disse Mourad.

A pulseira de meu pai?

Desculpe-me, papai. - Disse Faruk.

Você está me envergonhando com tudo isso, Faruk. Eu não esperava tudo isso de você.

Me perdoe, papai. Isso não vai se repetir mais.

Não mesmo. Você terá que ser castigado pelo o que fez.

Castigado? - Perguntou Faruk.

Hassam ficou em silêncio. Ele sabia que o castigo ao que seu pai se referia estava relacionado aos crimes cometidos por ele ter se relacionado com uma pessoa do mesmo sexo.

Papai, por favor, não faça isso. - Pediu Faruk.

Faruk, por favor, vá para o seu quarto. - Disse Bassam. - Eu já escutei e vi demais por hoje. Amanhã conversarei com as autoridades.

Faruk assentiu com a cabeça e com as mãos na frente do corpo e dedos entrelaçados, ele caminhou em direção ao seu quarto em silêncio sem se direcionar a Mourad e Hassam que o entregaram para o seu próprio pai. Faruk esperava tudo, menos que seus irmãos concordassem com a opinião de seu pai de o entregar para as autoridades para puni-lo por seus comportamentos homossexuais.

Enquanto isso, em Nova Iorque, Lautaro estava se preparando para participar de sua primeira exposição de artes junto com outros três artistas onde faria com que suas artes fossem conhecidas. Em seu guarda roupas, ele escolheu por um suéter em cor preta e abaixo dele, colocou uma camiseta polo em cor cinza onde o colarinho da camiseta ficou do lado de fora. Em frente ao espelho, Lautaro penteou seu cabelo de forma que ficasse penteado de lado, como o de Peter Parker e para finalizar, ele acabou colocando um óculos de armação preta para trazer um ar de sério e mais convincente.

Seu telefone estava do lado da cama e a poucos centímetros de distância dele. Lautaro esticou as mãos e agarrou o telefone onde o desbloqueou com a sua digital e procurou pelo aplicativo de câmera. Ao selecionar o aplicativo, ele buscou pelo ícone de câmera traseira e foi na frente do espelho e tirou uma foto para Zyan. Como eu estou estranho. Acho que foi o cabelo. Lautaro pensou. Mas talvez ele goste. Refletiu ele. Sem hesitar, Lautaro buscou pelo contato de Zyan no telefone e através do ícone de anexar escolheu a última foto tirada e compartilhou com Zyan.

LAUTARO compartilhou uma foto.

LAUTARO: Oi!

LAUTARO: Você está aí?

LAUTARO: Aqui está.

LAUTARO: Estou me preparando para a noite da minha vida!

LAUTARO: Me deseje sorte!

LAUTARO: Minha possível loucura impossível!

LAUTARO: <3

Sorridente, Lautaro guardou o telefone no bolso e buscou por um de seus fones em sua gaveta e pareou o Bluethtooth abrindo o aplicativo de músicas do Spotify e buscando por uma lista de canções que ele tinha favoritado ainda naquela semana.

Descobertas da semana.

Era essa a playlist que Lautaro tinha descoberto e que tinha a sua foto de perfil. Lautaro a selecionou e deu play em um modo aleatório, foi quando começou a música “Speeding Cars” da banda irlandesa “Walking On Cars”. Enquanto a introdução da música começava, Lautaro separava seus desenhos que estavam sob a mesa.

Lá estavam as artes que foram criadas propriamente para a exposição. Seis artes que passavam alguma mensagem para todos as pessoas que frequentariam a exposição em algumas horas. Os desenhos foram feitos em uma folha de papel A0, uma das maiores que temos em algumas papelarias para comercializar.

Um dos primeiros desenhos era um deserto. Um homem que caminhava junto ao seu animal até então parceiro como um cachorro, camelo, no deserto. Alguns grãos de areia sobrevoavam ao redor dele enquanto um céu diante dele estava repleto de estrelas. Lautaro tinha colorido o desenho de uma forma tão significativa que ficou um azulado escuro que se misturava completamente ao amarelado e amarronzado da areia do deserto enquanto o homem conduzia seu animal pelo deserto. Lautaro tinha se inspirado no deserto de Riade.

O segundo desenho era um beijo entre dois homens. Um dos homens estava com um casaco molhado de milk shake e o outro estava simplesmente o abraçando sem se preocupar em se sujar com o líquido que escorria pelas mangas de seu casaco. Ao fundo, uma iluminação completamente colorida como se fosse a Times Square. Ao redor do casal, algumas notas musicais o cercavam e letras da canção de Conan Gray, People Watching, estavam escritas ao redor do casal no desenho. Era realmente uma obra de arte para se estar em uma galeria em Nova Iorque.

O terceiro desenho era o rosto de Zyan. Lautaro tinha tirado uma fotografia espontânea de seu rosto enquanto ele gargalhava ao seu lado e aproveitou para desenhar aquela foto em uma tarde em que estava completamente sozinho em casa e se perguntando onde Zyan estava. O desenho era um rabisco esboçado com lápis de carvão que deixava os traços mais fortes e escuros fazendo com que ficassem mais realistas e bonitos. Zyan gargalhando era uma verdadeira obra de arte.

O quarto desenho era uma praia deserta. Uma praia em um dia chuvoso em que mais ao final dela tinha um casal deitado na areia supostamente conversando entre si. Eles pareciam não se importar com a chuva que caia e com a tempestade que se armava diante de si. Os trovões e relâmpagos foram evidenciados com toda a dimensão e realismo que Lautaro podia ter dado. Com cores vivas, pintadas com lápis Faber Castell, ele conseguiu dar a vida e o sentimento que aquela cena precisava.

Por fim, ele tentou em dois únicos desenhos trazer a alma e o sentimento de uma canção que ele gostava bastante de Harry Styles, Sign of the times. Em meio a montanhas, ele desenhou um homem que sobrevoava flutuando estas rochas em busca de algum sentimento ou algo que havia perdido há muito tempo. Ele segurava um mapa do tesouro em mãos e nada melhor do que sobrevoar um mapa para encontrar o baú com o tesouro do que percorrer por ele todo.

Lautaro juntou todos os desenhos e foi caminhando até a porta de saída do apartamento com o telefone em mãos ainda olhando para o contato de Zyan aguardando que ele retornasse a mensagem. Zyan não respondeu e ficou offline durante todo o tempo. Ao descer o elevador, Lautaro foi caminhando até a rua, onde fez sinal para um taxi amarelo típico de Nova Iorque e entrou no banco de trás.

Por favor, estou indo para a rua próxima ao MET na quinta avenida.

OK. Próximo ao Museu de Arte Metropolitano? - Perguntou o motorista.

Claro.

Você quer que ligue o ar?

Não precisa.

Alguma estação de rádio em específica?

Qualquer uma. Vou confiar no seu gosto.

O motorista deixou sintonizada na 94 FM. Aos poucos, Lautaro começou a ouvir a introdução da canção de Noah Kahan, You’re Gonna Go Far. Essa canção fazia com que ele se lembrasse automaticamente do dia em que passou junto a Zyan.

Eu conheço essa canção. - Comentou Lautaro.

Noah Kahan.

Você conhece?

Conheço.

Você tem um ótimo gosto musical.

Obrigado! Pelo visto você também.

É. Essa música me faz transportar para lugares que nem eu consigo imaginar.

Sério? Músicas são boas quando nos fazem viajar. Você não acha?

Vou concordar com o senhor.

Senhor? Assim eu me sinto um homem de quase cinquenta anos.

OK. Me desculpe. Quantos anos você tem? - Riu Lautaro.

Tenho quarenta e três anos.

Você é novo.

Obrigado pelo novo. Você deve ter uns vinte.

Não. Obrigado! - Gargalhou Lautaro. - Tenho trinta e dois anos.

Trinta e dois? Está muito bem para a sua idade.

Obrigado!

E o que tem na sua mão?

São desenhos.

Desenhos? Você desenha?

Desenho. - Riu Lautaro.

Para onde você vai tem muitas galerias de artes.

Sim. Vou expor meus desenhos lá hoje.

Você vai longe. - Comentou o motorista.

Obrigado, mas eu não acho que eles sejam tão bons assim.

Por que não? Você precisa valorizar o que você faz se você quiser ir longe.

Eu não acho que eu vou conseguir ir muito longe com isso.

Então o que você está indo fazer em uma galeria de artes? Vou dar meia volta.

Não precisa. - Riu Lautaro.

Você só pode estar brincando comigo. Está indo só passar o seu tempo?

Não. Estou indo expor minha arte.

Então você quer ir longe.

Eu não sei se vou.

Não foi isso que eu te perguntei.

Tá bom! Eu quero!

É isso aí. Agora sim ouvi um campeão de verdade.

Lautaro gargalhou.

Eu tenho um filho de dezessete anos. Ele quer ser médico.

Médico?

É. Ele tem um longo caminho pela frente.

Mas é uma profissão legal. Assisto apenas em Grey’s Anatomy.

O que é isso? - Perguntou o motorista.

É uma série.

Deve ser uma das que provavelmente ele assiste. Ele adora assistir séries médicas.

Ela é mais velha que o seu filho inclusive.

Sério?

Sim. Grey’s Anatomy está na sua vigésima temporada. - Disse Lautaro comentando a respeito da quantidade de temporadas da série estrelada por Ellen Pompeo.

Não me diga... - Riu o motorista.

Enquanto eles conversavam, a canção fazia com que Lautaro se lembrasse de Zyan e também o fazia se perguntar sobre o que ele estava fazendo que até aquele momento não havia respondido e nem visualizado a sua mensagem.

Em Riade, Zyan estava sentado no banco de passageiro do lado de seu pai que dirigia até em casa. Os dois estavam em silêncio e Zyan começava a notar algum clima estranho entre ele e seu pai naquele momento.

Está tudo bem? - Perguntou Zyan.

Não. Não está, Zyan. - Respondeu Farah.

O que aconteceu, papai?

Sabe Zyan?! Eu sinto uma falta do meu pai. - Comentou Farah que havia perdido o seu pai muito cedo. - Você sabe que o meu pai morreu muito cedo. Eu tinha apenas onze anos de idade e minha mãe precisou me criar sozinho e depois teve um segundo casamento e o meu padrasto me tratava bem e tentava repor a imagem de um pai na minha vida, mas não era a mesma coisa. Você sabe o que é a imagem de um pai na vida de um homem, Zyan?

Papai, eu sei.

Você sabe mesmo, Zyan?

Sei, papai. É como ter você.

E como é me ter, Zyan, como pai?

É saber que eu tenho você para o que der e vier.

É isso mesmo que você pensa de mim, Zyan?

É, papai. Você sempre esteve disponível para Tariq.

Você acha mesmo que eu estive disponível para o Tariq quando ele precisou de mim, Zyan?

Sim, papai. Vocês saiam muito juntos. Não saiam?

Sim. E quanto eu e você, Zyan?

Nós não saíamos como você e Tariq.

E você acha que nós próximos, Zyan?

Sim, papai. Eu te amo!

Você me ama quanto, Zyan?

Eu te amo muito. Você é o meu pai.

Eu sou seu pai, Zyan e você é o meu filho.

Eu sei, papai, mas por que você está falando isso?

Quando eu era mais novo e tinha meus vinte anos de idade, eu queria ter tido um momento com o meu pai de me sentar e explicar para ele que eu tinha escolhido a sua mãe para passar o resto da minha vida com ela e eu percebi o quanto um pai faz falta na vida de um filho. Tentei conversar com meu padrasto, mas não era a mesma coisa. Eu queria o meu pai, Zyan.

E como você se sente hoje, papai?

Eu me sinto mal.

Por que?

Porque o meu filho esconde as coisas de mim.

O que aconteceu, papai? Tariq fez alguma coisa?

Não foi Tariq que fez. Foi você, Zyan.

Eu não sei do que você está falando, papai.

Zyan, hoje enquanto eu estava no escritório do Bassam eu ouvi uma coisa muito desrespeitosa de nossa família. Eu me senti realmente traído, mas não por eles, nem por você, mas sim por mim mesmo de ao ponto nunca ter visto as coisas dentro da minha própria casa. Onde eu estava todo esse tempo que eu não percebi o quanto você precisava de atenção e de cuidados?

Do que você está falando, papai?

O que aconteceu no seu pulso, Zyan? - Perguntou Farah que tinha observado o pulso de Zyan há um tempo enquanto dirigia.

Nada.

O que aconteceu no seu pulso? Isso é um corte, Zyan.

Papai, não foi nada.

Você vai mesmo continuar mentindo para mim?

Eu já te disse, papai.

Farah deu meia volta com o carro e dirigiu até uma das vias que os levariam até a saída de Riade.

O que você está fazendo, papai?

Eu estou te levando em um lugar.

Papai, está tudo bem?

Zyan, eu quero que você veja uma coisa.

Enquanto Farah dirigia até a saída de Riade, Zyan tentou buscar seu telefone no bolso tentando ser o mais discreto possível para que seu pai não percebesse. Ele estava com receios de que seu pai fizesse alguma burrada e acabou enviando discretamente uma mensagem para Khadija.

Zyan: S.O.S

Zyan compartilhou sua localização em tempo real.

Khadija que estava voltando com a sua mãe para casa, sentiu o telefone vibrar no bolso e ao agarrá-lo em mãos, viu que era uma mensagem de Zyan.

É Mourad? - Perguntou Ghaith.

Não. É um amigo. - Respondeu Khadija que tentou disfarçar.

Um amigo? Falando em amigo, como está Nizar?

Está bem, mamãe, mas por que está falando de Nizar agora?

Estou só perguntando, Khadija. Parece que nunca mais nos falamos.

Você está sempre muito ocupada.

E você também.

Eu sempre estou em casa, mamãe.

Eu sei, minha filha.

Então...

Por que você está sendo rude comigo?

Não estou sendo rude com você.

Está, Khadija.

Mamãe, por favor...

Está vendo? Olha como você está falando comigo.

Eu estou falando normal com você.

Não está.

Estou.

Tudo bem, Khadija. - Disse Ghaith. - Só estou preocupada.

Preocupada? Por que preocupada?

Quero saber como você está com relação a tudo que está acontecendo. Seu casamento, tudo...

Estou bem.

Está bem mesmo?

Estou. Não parece?

E apaixonada?

Apaixonada?

Sim.

Você está mesmo preocupada com isso a essa altura?

Khadija, seja mais gentil comigo.

Mamãe, você me arranjou um casamento e está preocupada se realmente eu estou apaixonada às vésperas do casamento acontecer?

Khadija, eu só quero que você saiba que eu também sou mulher.

Eu sei.

Eu também passei por isso.

Você está dizendo que não era apaixonada pelo papai antes de se casar?

Não. Eu nem o conhecia.

E como se apaixonou?

A paixão vem no meio caminho, Khadija, é isso que eu quero conseguir te passar ou te entender.

Me entender, mamãe? Você quer mesmo me entender? Eu perdi completamente o meu futuro. Eu queria morar fora e fazer minha faculdade e agora eu vou ter que ficar presa na Arábia pelo resto da minha vida e se eu tiver a falta de sorte ficarei grávida dentro de alguns meses e você vem me dizer que ainda quer me entender.

Khadija, por que você nunca me falou isso?

Mamãe?! Eu preciso mesmo falar tudo isso para você?

Khadija, eu não consigo adivinhar o que está na sua mente.

Você não consegue, mas você não conhece a filha que você tem dentro de casa?

Khadija...

Mamãe... Você está sendo egoísta.

Me perdoe. - Disse Ghaith começando a se sentir mal.

Por que você está me perguntando tudo isso?

Porque eu percebi que Mourad está muito mais apaixonado por você do que você mesmo.

Você percebeu isso?

Não. Foi pior ainda. Foi Najat que percebeu.

Najat?

Sim. Ela tentou ainda me dizer isso dentro da cozinha da casa dela.

Ela tentou te falar?

Sim. De uma forma muito indelicada.

E você? Disse o que?

Tentei me fazer de sonsa.

Sonsa?

Sim. Ela me disse outra coisa também.

O que?

Sobre o seu irmão.

Sobre Tariq?

Não. Tariq é o de menos. Ele nem me causa preocupação, mas Zyan sim.

O que ela disse sobre Zyan?

Ela disse que Zyan seria o próximo a se casar.

Zyan?

Sim, porque ela percebeu que ele estava trocando mensagens apaixonadas com alguém em baixo da mesa.

Ela disse isso?

Sim.

Khadija ficou em silêncio.

Seu irmão está se encontrando com alguém? - Perguntou Ghaith.

Com alguém?

É. Alguma pessoa? - Perguntou Ghaith. Ela usou o termo pessoa e não alguma garota. Ela já sentia que talvez Zyan pudesse estar tendo comportamentos inadequados para a sociedade em que eles estavam inseridos.

Alguma pessoa, mamãe?

Sim. Ele foi para Nova Iorque recentemente. Ele comentou algo?

Comentou, mamãe.

O que foi que ele falou com você.

Khadija engoliu em seco. Ela estava prestes a contar para a sua mãe o que estava acontecendo em baixo do teto da família Bassam e que Zyan precisava de ajuda, pois a família de Mourad, com certeza, àquela altura já tinha descoberto dele e de Faruk.

Um pouco distante dali, Faruk estava trancado em seu quarto e enquanto suas lágrimas corriam em seu rosto, ele tentava pensar no que ele poderia fazer com o que o irmão havia falado para ele alguns minutos antes. As palavras de Hassam ainda ecoavam pelos ouvidos de Faruk. Por que você não se mata, Faruk? Essas eram as palavras que ecoavam na cabeça de Faruk que começava lentamente a procurar em seu quarto por algo que o fizesse desistir de sua própria vida.

Ele foi caminhando até o banheiro de seu quarto e buscou por uma lâmina de barbear e pensou em passá-la em seus pulsos. Automaticamente, ele se lembrou da marca no pulso de Zyan. Zyan já havia tentado aquilo antes e não obteve sucesso. Enquanto se olhava no espelho, ele refletiu que talvez aquela não seria uma das melhores opções para se matar, pois ele se lembrava fortemente da cicatriz no pulso de Zyan. Foi então que, caminhando até o seu guarda roupas, ele agarrou por algumas pílulas de ansiedade que ele havia roubado de sua mãe semanas atrás e aquelas talvez fosse uma das melhores opções para se matar.

Ele agarrou o frasco e rodopiou a tampa jogando algumas pílulas na palma de sua mão e pensando em quantas ele deveria tomar para que elas fossem responsáveis por terminar com a sua vida ali. Quantas pílulas? Faruk se perguntou. Ele não sabia quantas seriam responsáveis por acabar com a sua vida e foi então que ele sentiu um frescor de vento soprar pela janela e suas cortinas se movimentaram em uma onda lenta e ao mesmo tempo sedutora que o convidou a olhar para a janela de seu quarto que ficava no segundo andar da mansão.

Faruk foi caminhando até a janela que estava aberta e ao chegar na sacada sentiu o vento que soprava naquela noite passar pelo seu rosto de uma forma tão bruta que parecia uma tempestade em uma tarde de outono. Era confortante estar vivo e ao mesmo tempo era doloroso estar ali, em sua casa. Faruk olhou para baixo e viu que era alto o suficiente para que ele pudesse apenas se jogar e bater com a sua cabeça em uma das pedras que levavam para o caminho do jardim em frente à sua casa e pensou que poderia ser ali o lugar e o momento perfeito para que ele pudesse se matar.

Decidido, Faruk foi caminhando até o seu guarda roupas e agarrou uma de suas melhores roupas onde escolheu uma camiseta de banda que ele gostava muito. Placebo. A mais diferente de todas. Esse era o nome da banda que fez com que Faruk pensasse um pouco a respeito do que ele estava prestes a fazer quando vestiu uma das camisetas da banda que dizia “Every Me And Every You”.

Ao vestir aquela camiseta, Faruk começou a se lembrar de quando era mais novo e tinha apenas treze anos de idade e conheceu a banda Placebo assistindo ao seu concerto ao vivo e acústico lançado no ano de 2015 intitulado MTV Unplugged junto com Mourad. Placebo era uma das bandas favoritas de Mourad que gostava de ouvir algumas canções americanas além de dar prioridade para músicas árabes como as do cantor israelense Ivri Lider.  

Faruk buscou pelo seu telefone e em seu aplicativo de músicas e videos do YouTube, onde buscou no campo de pesquisa por “Placebo MTV Unplugged” e encontrou em uma das opções de resultado o álbum completo. Seus dedos deslizaram pelo a barra de rolagens, onde ele selecionou o ícone do álbum e deu play na primeira canção.

Descalço, ele foi caminhando até a janela enquanto seus pés suados deixavam marcas pelo chão que esboçados ficavam com seus dedos marcados na mármore gelada do chão de seu quarto. Ao chegar próximo da janela, ele debruçou o seu corpo para baixo para confirmar se não havia ninguém no primeiro andar. Luzes acesas, ambiente silencioso, ninguém por lá. Faruk então deslizou as portas da sacada de seu quarto lentamente para que não fizesse nenhum barulho e olhando para as estrelas, ele se debruçou na sacada e sentiu seu corpo se bambear de uma forma que ele pudesse facilmente cair. Era ali. Era aquele o momento certo. Ele pensou.

Aos poucos, enquanto ainda debruçado na sacada de seu quarto, ele começou a pensar no quanto aqueles últimos acontecimentos haviam mexido com ele e a verdade era que nem tanto. Ele se sentia tão frio e ao mesmo tempo tão emotivo que nem ele conseguia se achar no meio de tantas emoções. Ele estava completamente perdido em meio às suas próprias emoções e aquilo para ele que sempre conseguia saber, mesmo que com dezoito anos de idade, o que ele sentia e o que ele queria e esperava para a sua vida era uma loucura ele simplesmente pensar em sua história e não conseguir nem ao menos refletir para que conseguisse pensar rapidamente e saber onde queria chegar e com quem estar.

Ele pensou em Zyan. Quem era o rapaz que falava com Zyan ao telefone? Aos poucos, ele foi sentindo a emoção de ouvir Zyan ao telefone com Lautaro e o quanto ele queria aquela conversa e emoção fossem para ele. Ele queria toda a emoção e sentir todo aquele amor e entusiasmo para ele. Ele queria que tudo aquilo fosse transportado para ele, mas talvez fosse impossível. Zyan talvez já estivesse totalmente envolvido com aquele rapaz totalmente americano que Faruk se quer sabia o nome, mas tinha notado que pela forma de se vestir e falar talvez fosse um americano e que eles tivessem se conhecido em Nova Iorque. Nova Iorque. O livro das fotografias de Anne Steves, a fotógrafa do livro que ele comprou em sua exposição em Nova Iorque. O livro. Aquele livro que ele nem tinha se interessado em ler o nome, mas para ele que não entendia era apenas um livro de fotos.

Faruk queria ser tudo para Zyan, mas sabia que pela sua diferença de idade talvez a sua história de amor nunca fosse possível ser traçada e desenhada da forma que ele queria. Ele queria ouvir de Zyan o que o levou a rasgar o próprio pulso e qual era a história por trás daquela cicatriz. Ele queria poder beijar aquela cicatriz e cuidar de Zyan ao ponto de ele nunca mais poder fazer mais nenhuma em seu corpo, mas como acreditar em um garoto de dezoito anos de idade? Zyan tinha dez anos a mais que Faruk e ele simplesmente já tinha vivido tantas coisas e viajado para Egito e Estados Unidos e Faruk nunca tinha colocado os pés para fora de Riade a não ser quando eles foram visitar seus tios em Tel Aviv, em Israel. Aquela viagem foi de longe a melhor que ele e Hassam tinham feito desde então e foi o lugar mais diferente que ele já tinha pisado e foi lá que ele teve a sua primeira atração homossexual, com Ravid. Ravid era o melhor amigo de seu primo Zohar e eles tinham vinte anos de idade e Ravid parecia ser um ícone fenomenal de cultura não só de corpo mas de mente que Zyan pretendia alcançar quando tivesse a idade de Ravid.

Ao lembrar de Ravid, Faruk balançou a cabeça em sentido de negação de forma que não quisesse acreditar que ele em algum momento de sua vida teve alguma relevância para que ele se construísse como pessoa até aquele momento. Ele preferia pensar em Zyan e no quanto Zyan havia cuidado dele quando ele foi atacado na noite em que visitaram o Kingdom Centre. Sentar com Zyan na cama e assistir ao seu filme favorito “As vantagens de ser invisível” e falar de coisas aleatórias tinha sido um dos melhores momentos de sua vida até aquele momento. Ele certamente lutaria por Zyan, mas será que Zyan estava lutando por ele naquele momento? O que Zyan estava fazendo? Faruk se perguntava enquanto ouvia passos pelo corredor e a voz de seu irmão Hassam gritando por sua mãe.

Sem entender o que estava acontecendo, Faruk caminhou na ponta dos pés até a porta do quarto e colocou seus ouvidos na madeira lisa da porta e contendo a respiração tentava ouvir o que acontecia pelo corredor. Foi quando ele ouviu o barulho dos sapatos de sua mãe pelo corredor e um grito dela chamando por Bassam. Ainda com o rosto colado na porta, Faruk sentiu seu coração acelerar e enquanto ele tentava ouvir o que acontecia lá fora o palpitar de seu coração se misturava com o barulho externo e ele simplesmente se perdia no que ele estava tentando ouvir de dentro e de fora. Do lado de fora, Hassam socou a porta do quarto de seu quarto enquanto Faruk estava com o rosto colado na madeira e ele sentiu o impacto do murro de Hassam do lado de fora enquanto ele gritava pelo seu nome.

O que aconteceu? - Faruk abriu a porta assustado.

Papai está caído no escritório. - Disse Hassam assustado.

Faruk empurrou Hassam e correu até o escritório de seu pai e lá estava o corpo de Bassam estirado no chão, sem vida, e ao seu lado, sua mãe ajoelhada enquanto segurava o tronco de Bassam no colo tentando reanimá-lo. Najat chorava e gritava por Mourad para que ele fosse até o escritório. Rapidamente, ele ouviu os passos largos de Mourad pelo corredor e sentiu o impacto do empurrão de Mourad em suas costas. Mourad correu rapidamente e se ajoelhou deslizando seus joelhos pelo chão até à sua mãe. O que aconteceu? Mourad perguntava enquanto ela chorava e pedia para que ele chamasse logo uma ambulância. Mourad agarrou o telefone no bolso e discou o número da emergência.

Faruk ficou ali. Parado. Em pé, com o seu corpo completamente imerso e encostado ao lado da porta enquanto observava toda aquela cena. Ao olhar para trás, lá estava Hassam chorando desesperadamente enquanto Najat gritava com o rosto de seu pai colado ao seu peito completamente desacordado e Mourad passava o endereço para a emergência que logo desligou a chamada confirmando que estavam enviando uma ambulância.

De braços cruzados, Faruk continuou, enquanto sem reação observava seu pai caído ao chão lembrando da última conversa que tiveram e da forma que ele aceitou que Hassam falasse com ele. Mourad buscava pela pulsação em seu pulso enquanto sua mãe gritava que Bassam não estava respirando. Hassam do lado de fora, no corredor, pedia para Faruk fazer alguma coisa. Faruk então, de braços cruzados, olhou para o irmão e querendo tranquilizá-lo perguntou disse que era melhor ele se sentar e ficar um pouco tranquilo. Hassam não conseguia se tranquilizar e foi caminhando em direção a Faruk como se fosse abraçá-lo. Faruk, ao perceber que o irmão viria abraçá-lo simplesmente se esquivou do abraço e puxou uma das poltronas do escritório do pai.

Sente-se aqui! - Disse Faruk que não pensava em abraçar o irmão depois de tudo que havia acontecido ali.

Papai não está respirando. - Dizia Hassam aos prantos.

Eu sei. Você precisa ser forte.

Papai morreu.

Faruk respirou fundo e tentando tranquilizar o irmão, disse que desceria para buscar uma garrafa de água para que eles pudessem tomar. Hassam assentiu com a cabeça. Faruk foi caminhando pelo corredor, enquanto vestia a camiseta da banda Placebo com a canção “Every Me And Every You” na cabeça ele caminhou até a cozinha e ao abrir a geladeira agarrou uma garrafa de água. Faruk colocou a garrafa na bancada da cozinha e ficou ali parado durante alguns minutos pensando em tudo que havia acontecido até que ouviu o barulho da ambulância que se aproximava dos portões grandes de sua casa. Faruk abriu os portões que correram pela entrada deixando a abertura para que a ambulância passasse.

Deixando a água de lado, ele foi caminhando até a porta de entrada e abriu a porta para que os paramédicos fossem até ele.

Ele está lá em cima. - Disse Faruk apontando para as escadas.

Os paramédicos então passaram por ele e caminharam até as escadas que levavam para o segundo andar. Faruk foi até a cozinha e agarrou dois copos de cristal e a garrafa de água e foi subindo lentamente as escadas até o seu irmão, Hassam, que já estava em pé do lado de fora do escritório. Faruk estendeu a mão para o irmão entregando a ele um copo vazio e Hassam o agarrou enquanto trêmulo tentava sustentá-lo entre os dedos.

Fique calmo. - Disse Faruk. - Vai ficar tudo bem.

Enquanto ele enchia o copo de Hassam com a água que gelada embaçava o cristal do copo, seus olhos corriam pelo ambiente lentamente e foram até Mourad que estava segurando as mãos de Najat enquanto os paramédicos examinavam o corpo de Bassam. Najat afundou seu rosto no abraço de Mourad que a apertou fortemente enquanto Faruk levava outro copo até ela.

Toma, mamãe. - Disse Faruk.

Assim que Faruk se aproximou, Mourad identificou rapidamente a camiseta que havia comprado escondido de seus pais quando tinha completado dezoito anos de idade. Seu pai não era adepto à cultura de músicas americanas e tentava fazer com que seus filhos seguissem o mesmo caminho que ele. Mourad que era apaixonado por Placebo desde mais novo, comprou a camiseta e quando ela parou de vesti-lo, ele a deu para Faruk que a guardou bem em seu guarda roupas por um bom tempo. Tinha muito tempo que Mourad não via aquela camisa. Era a primeira vez desde anos que ele não a via no corpo de Faruk. Foi realmente uma surpresa para ele se deparar com a camiseta naquele momento e justo após a discussão tão calorosa que eles tiveram minutos antes de estarem reunidos naquele cenário.

Faruk ficou em silêncio do lado de Mourad que tentava fazer com que Najat se acalmasse. Ele estendeu a mão para Najat e a entregou um copo de água cheio para que ela pudesse bebê-lo e se acalmar. Seu marido estava jogado ao chão completamente sem vida e ela precisava se acalmar. Ela nunca tinha enfrentado aquele tipo de situação antes e aquilo realmente os deixava completamente assustados. Bassam nunca tinha apresentado nenhum quadro sério de problemas de saúde antes e ter tido aquele desmaio fazia com que Faruk se perguntasse se talvez a culpa não tivesse sido dele.

Será que eles também estão se perguntando se eu sou o culpado pelo o que aconteceu com o meu pai? Faruk se perguntava em silêncio enquanto observava Mourad e Najat que, aflitos, esperavam notícias vindas dos paramédicos que tentavam reanimar o corpo de Bassam que estava ainda caído ao chão. Um dos paramédicos pediu através do comunicador que estava em sua cintura para que o outro entrasse com a maca dentro da mansão e assim que desligou, olhou para Mourad e Najat e pediu para que eles se acalmassem, pois todos eles deveriam ser fortes naquele momento.

Ao ouvir as palavras que saíram da boca do paramédico que tentava acalmar Najat, Hassam se desequilibrou e caiu de joelhos ao chão fazendo com que Faruk corresse até ele. Não precisou de muito para que ele entendesse que seu pai não acordaria mais e que ele não sairia daquela vivo. O que aconteceu? Perguntava Faruk enquanto ele tentava apoiar Hassam para que se levantasse. Um dos paramédicos respondeu que Bassam teve um ataque cardíaco e que infelizmente não tiveram sucesso ao tentar reanimá-lo.

Najat que segurava o copo em mãos, deixou com que ele caísse ao chão fazendo com que o vidro se estilhaçasse pela mármore e o líquido se espalhasse por baixo de seus pés. Mourad que estava segurando Najat, sentiu o corpo de sua mãe pesar em seu colo e tentou segura-la para que ela não se desequilibrasse e caísse ao chão. Ela tinha perdido completamente os sentidos e desolada, começava a chorar pela morte do marido enquanto chamava por seu nome. Hassam do outro lado pedia a um dos paramédicos que fizesse alguma coisa enquanto Faruk continuava sem reação e tentava manter seu irmão calmo.

Vocês precisam ser fortes. - Repetiu novamente um dos paramédicos fazendo com que Hassam entendesse que não havia mais nada a ser feito naquele momento.

Enquanto isso, na exposição de artes em Nova Iorque, de uma forma um tanto inusitada tocava a canção Special Needs da banda Placebo. A canção na voz do vocalista Brian Molko, nos traz uma relação nostalgica que em busca por um reconhecimento nos transcorre o sentimento de alguém que está prestes a alcançar a fama nos fazendo mergulhar em sentimentos de uma junventude que muitas vezes é marcada pelo desejo de busca por seus próprios sonhos enquanto se misturam às mudanças que o sucesso e o tempo podem nos trazer.

Oi! Tudo bem? - Chamou uma voz feminina.

Lautaro se virou e era Anne Steves.

Anne Steves? Você? - Sorriu Lautaro.

Sim. Acabei vindo prestigiar o evento que é de um amigo meu e que surpresa. Me lembro de você.

Sim. Eu fui em uma exposição de fotografias sua.

Eu me lembro de você. Não sabia que você desenhava.

Eu tento. - Sorriu Lautaro.

Suas artes são muito incríveis.

Obrigado. Vindo de você é um elogio ainda maior.

Eu tenho um amigo que vai se interessar muito pelas suas ilustrações. - Comentou ela. - Ele é de uma editora de livros aqui dos Estados Unidos e lançou grandes best sellers ao redor do mundo.

Lautaro sorriu.

Me desculpe, mas acho que não sou bom o suficiente. - Sorriu Lautaro.

Como assim? Você já viu os seus desenhos? Você está se desmerecendo.

De forma alguma.

Que tal tomarmos um café amanhã? Te apresento ele. Tenho certeza que ele vai adorar o seu trabalho.

Você tem certeza?

Claro. Pegue o meu número. - Disse ela sorrindo. - Anda!

Lautaro retirou o telefone do bolso sem saber que aquele ato seria o maior passo de seu futuro como artista e anotou o contato de Anne Steves.

Que tal amanhã por volta das duas da tarde? - Perguntou ela.

Pode ser.

Podemos nos encontrar próximo à estação 66th street com a Lincoln Center. Lá do lado tem um café que serve um ótimo capuccino.

Lautaro assentiu com a cabeça enquanto Anne admirava um de seus desenhos que estavam expostos na parede. Ela apontou para um deles e sem que ele pudesse imaginar ela disse:

Este daria uma bela capa de um livro. - Disse ela apontando para o desenho do homem no deserto com o seu camelo. - Qual foi a sua inspiração?

Me inspirei em um amigo de Riade.

Lautaro sorriu. Lembrar de Zyan fazia com que Lautaro fosse transportado aos bons momentos vividos ali em Nova Iorque ao lado dele, que mesmo tendo sido tão poucos, foram tão únicos e importantes.

Um amigo? - Perguntou Anne.

Um amigo!

Tem certeza que é um amigo? Posso ver no seu rosto.

É... - Disse ele tentando disfarçar.

Entendi... É ótimo quando existem pessoas que nos inspiram desta forma. E quanto aos outros? - Perguntou ela.

Ele foi a inspiração para este aqui também. - Disse Lautaro mostrando o desenho que havia feito de Zyan.

É ele? - Perguntou Anne se aproximando do desenho. - Ele é realmente lindo assim?

Ele é. Ele é um dos caras mais incríveis que eu já conheci.

Eu posso imaginar. - Sorriu ela. - E vocês namoram?

Ah, não sei.

Só de não saber, vocês podem namorar e você nem se quer imaginar. Sabia?

Talvez já estejamos namorando. É complicado.

Complicado como?

Ele está em Riade neste momento.

E qual é o problema?

O problema é que ele está a oito horas de diferença de nós.

Sério? - Disse Anne se assustando. - É isso tudo? - Perguntou ela tentando olhar no relógio. - Aqui são cinco da tarde.

Lá devem ser por volta de uma da manhã, mais ou menos. - Sorriu ele.

Tarde. - Comentou ela. - Ele deve estar dormindo a essa hora.

Acho que talvez ainda esteja acordado. Ele sempre me manda alguma mensagem antes de se deitar.

Entendi.

Ele ainda não me mandou nenhuma mensagem. - Comentou Lautaro agarrando o telefone.

Ah, vocês já namoram.

Talvez. - Riu ele. - E quanto a você?

É complicado. - Sorriu ela. - É melhor deixar essa história para um outro dia.

Tudo bem. - Assentiu Lautaro.

Lautaro sorriu orgulhoso de si naquele momento. Ele estava exatamente onde gostaria de estar e completamente satisfeito com a exposição de suas artes naquela galeria e estar ao lado de Anne Steves que era uma grande fotografa que tinha o seu trabalho admirado por ele era um dos momentos mais altos daquela tarde. Você vai longe. Foi a frase dita pelo motorista do táxi que o levou até ali. Ele se quer poderia imaginar que aquela frase teria um grande peso no seu dia.

As pessoas que estavam ali, cruzavam seus braços e se acercavam de seus desenhos que estavam expostos na parede e admiravam os traços em lápis de carvão e muitos tentavam adivinhar a mensagem que aquela paisagem poderia trazer. Em meio a muitas artes ali, a de Lautaro era uma das que mais chamava a atenção dos frequentadores que ao meio de quadros aquarelados se aproximavam de seus desenhos esboçados com sombras de carvão em preto e branco sem nenhuma cor.

Uma mulher se aproximou de um de seus desenhos e comentava com a amiga do lado sobre o quanto os traços eram grossos e delicados ao mesmo tempo e que ela gostava daquele tipo de arte que, sem cor, conseguia falar muito do artista.

Quem é o desenhista? - Uma delas perguntou se aproximando da assinatura de Lautaro.

Lautaro. - Comentou a outra.

Um nome bonito.

Não é americano.

Eu acho que é latino.

Nome forte.

Nome de artista. - Riu a outra.

Lautaro. - Repetiu a amiga.

As duas riram e se aproximaram de outra arte que estava exposta ao lado da de Lautaro e seguiram admirando os demais quadros que ali estavam. Lautaro com os braços cruzados ficou observando as duas garotas partirem e com um sorriso no rosto de satisfação que foi interrompido por Anne Steves que disse a ele que precisava ir, pois ela tinha outras coisas para resolver por ali e que havia sido um prazer encontra-lo na galeria e com um beijo se despediu dele e disse que esperaria ansiosamente pelo encontro deles do dia seguinte.

Anne que era famosa por seu batom vermelho, deixou uma marca no rosto de Lautaro e em seguida sorriu.

Me perdoe. Te marquei de batom. - Riu ela esfregando o rosto de Lautaro tentando limpa-lo.

Lautaro sorriu envergonhado e disse a ela que não precisaria se preocupar. Ela então deu um outro beijo em seu rosto e dessa vez com um certo cuidado para que não marcasse seu rosto novamente. Em seguida, ela se virou e foi caminhando até a saída da galeria. Lautaro continuou de braços cruzados observando cada um dos visitantes ali enquanto uma canção familiar soava aos seus ouvidos.

A voz era do cantor britânico James Blunt que após os acordes da introdução começou as primeiras estrofes da canção “Carry You Home” lançada em 2008. Enquanto a canção escorria pelas caixas de som do ambiente da galeria, um rapaz se aproximou de Lautaro.

Oi! - Disse ele sorrindo.

Oi! Tudo bem?

Tudo! Você é o artista dos desenhos? - Perguntou ele apontando para um dos desenhos expostos na galeria.

Eu mesmo. - Sorriu Lautaro.

Lautaro? - Perguntou ele enquanto apertava os olhos tentando enxergar a assinatura de Lautaro na lateral da arte.

Eu mesmo. - Sorriu.

Prazer, me chamo Scott. - Disse ele estendendo a mão. - Estou com umas aquarelas no início da galeria.

Ah, são suas? - Perguntou Lautaro se sentindo entusiasmado. - Eu adorei a terceira da fileira abstrata com tons azuis.

Sério que gostou? - Riu ele. - Eu prefiro a com tons escuros. Aliás, gostei dos seus traços com carvão. Foi lápis?

Sim. Foi em lápis.

Sério? Ficaram incríveis.

Obrigado!

Você é talentoso.

Você também. Eu gostei dos tons misturados com as artes abstratas.

É um dos meus estilos favoritos.

Eu adorei.

E você é daqui mesmo?

Sim. Moro aqui, mas sou natural da Argentina.

Argentina?

Sim.

Lionel Messi. - Sorriu ele fazendo menção a um dos jogadores argentinos mais famosos no mundo do futebol. Lionel Messi é um jogador renomado que já teve participações no Barcelona, Paris Saint Germain e atualmente joga em Inter Miami.

Conhece Lionel Messi?

Quem não conhece? Seleção Argentina.

Você gosta de futebol.

Eu sou apaixonado.

Lautaro sorriu.

Querem beber alguma coisa? - Perguntou um dos rapazes que estavam servindo os convidados da galeria.

Scott fez sinal com a cabeça e pegou uma das taças que estavam sendo servidas pelo rapaz. Lautaro agarrou um copo de água e fez sinal com a cabeça de que estava bem e satisfeito. Scott perguntou a Lautaro se ele não bebia nenhum tipo de álcool e Lautaro fez um sinal com a cabeça de que ali, ele estava preocupado apenas em expor suas artes e que queria ficar como um bom observador. Scott então sorriu e piscou com um dos olhos para Lautaro que como um bom observador pôde notar que a partir daquele momento, um artista na mesma galeria que ele talvez estivesse começando a dar um pouco mais de atenção não só para o seu trabalho, mas como também para ele.

[PARTE VI] 01.01.25

[PARTE VII] 10.01.25

[PARTE VIII] 15.01.25

[PARTE IX] 20.01.25

[FINAL] 25.01.25

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