.
Era manhã em Riade. Faruk se arrumava em seu quarto enquanto aguardava a chegada do corpo de seu pai que seria velado ainda naquela tarde. Enquanto vestia seu thobe em cor preta, ele se atentava ao telefone em suas mãos enquanto trocava algumas mensagens com Zyan que estava a caminho dali com Khadija enquanto Ghaith já estava junto à Najat ajudando-a a se manter forte emocionalmente. Embora eles conversassem, ambos evitavam falar a respeito do que havia acontecido no dia anterior e sobre as consequências que aquilo poderia trazer. A conversa entre eles conseguia ser a mais discreta possível de forma que Zyan conseguia apenas mostrar qualquer tipo de preocupação com o estado emocional de Faruk.
No andar de baixo, Hassam tentava se manter firme enquanto forte e de forma inabalável para que não demonstrasse nenhum tipo de fraqueza que pudesse simplesmente preocupar a sua mãe naquele momento de vulnerabilidade. Ele sabia que deveria se preocupar com o estado de sua mãe e por isso tentava cada vez mais se conter. Mourad estava mais calado que o habitual, ele não falava muito desde que seu pai havia vindo a óbito. Ele ficou em um estado de choque durante longos minutos e calado por longas horas até que depois começou a se movimentar para ajudar a sua mãe com algumas documentações para que pudessem dar início ao funeral de Bassam.
Por vários momentos, Hassam sentiu seu estômago embrulhar e corria rapidamente para dentro do banheiro em alguns refluxos, tentava colocar alguma coisa para fora, mas só sentia sair de sua boca água e mais água. Parecia que ele só tinha ingerido água desde então. Sua barriga estava vazia, mas ao mesmo que ele sabia que precisava comer algo, ele não sentia fome, ele simplesmente parecia não estar ali. Não era ele naquele corpo.
Do lado de fora, um carro se aproximou dos portões. Era Khadija e Zyan que chegavam e assim que estacionaram, saíram caminhando pelo jardim até a entrada onde deram os sentimentos e condolências à Najat que estava ao lado de sua mãe Ghaith e na sequência ela foi caminhando até Mourad e o abraçou. Mourad ficou em silêncio. Enquanto o abraçava, suas mãos foram em torno ao seu pescoço e apertava o seu rosto contra o seu próprio abraço.
- Como você está? - Perguntou ela.
- Eu vou ficar bem. - Sussurrou ele.
Do outro lado da sala, caminhava Hassam que saía do banheiro e vinha em direção a Zyan que tentou não desviar o olhar ao vê-lo, mas com toda a delicadeza, se aproximou dele e o deu os verdadeiros sentimentos pela perda de seu pai.
- Onde está Faruk? - Perguntou Zyan.
Hassam tentou manter seu olhar discreto para Zyan sem que ele percebesse que aquele tipo de pergunta poderia constrangê-lo naquele momento e simplesmente fez um gesto com a cabeça sinalizando que Faruk estava no andar de cima, provavelmente em seu quarto.
- Sobe lá. - Disse ele.
Zyan abaixou a cabeça e foi caminhando até as escadas e subindo cada um dos degraus lentamente, ele continuava em silêncio observando todo o cenário ao seu redor. Aquele lar acostumava ser tão cheio e feliz e de repente havia se tornado tão silencioso e melancólico que Zyan se quer conseguia reconhecer aquele lugar. Ao chegar no segundo andar, ele foi caminhando até o quarto de Faruk que estava com a porta entre aberta e bateu duas vezes com as costas das mãos.
- Oi! - Disse ele.
- Oi, Zyan! Entre.
- Como você está? - Perguntou Zyan se aproximando de Faruk e tentando abraça-lo.
- Estou bem. - Assentiu ele recebendo o abraço. - Obrigado por vir.
- Não precisa agradecer.
- O que aconteceu?
Faruk deu de ombros. Ele não queria falar sobre aquilo.
- Eu não sei se quero falar sobre isso agora.
- Tudo bem. Eu te entendo. - Assentiu Zyan.
Os dois ficaram em silêncio enquanto Faruk terminava de se ajeitar para que pudessem descer novamente para o andar de baixo. Zyan sentou-se ao lado de uma de suas poltronas e enquanto observava Faruk se arrumar, lembrava do que havia acontecido na noite passada. A sua maior curiosidade era sobre o que tinha acontecido logo depois de sair dali. Ele sabia que o beijo entre eles havia sido visto, mas teria sido aquele beijo uma das principais causas do que tinha acontecido naquela família? Enquanto calado, ele pensava e se perguntava, mas se quer esboçava algum tipo de curiosidade, pois naquele momento, aquele tipo de assunto era o menos importante para que eles pudessem tratar entre eles e naquele lugar.
- Eu queria te pedir desculpas sobre ontem. - Disse Faruk.
- Não precisa se desculpar. Você precisa se preocupar com você.
- E quanto à sua família?
- Não ligue para isso.
- Eles souberam de alguma coisa?
- Eu e Khadija, nós conversamos, mas ela já sabia de algumas coisas. E quanto a você?
- Hassam contou para o papai e Mourad.
- Ele fez o que?
- Ele contou para o papai e depois disso tivemos uma discussão e ele acabou tendo um ataque cardíaco.
- Eu sinto muito!
- É tudo culpa minha. - Comentou Faruk abaixando o olhar. - Se eu não tivesse me aproximado de você ou ido até a você ontem à noite, nada disso teria acontecido.
- Não diga isso.
- Mas é verdade, talvez meu pai ainda estivesse por aqui.
- Faruk...
Faruk ficou em silêncio enquanto algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto.
- O que mais aconteceu por aqui? - Perguntou Zyan.
- Eu entrei para o meu quarto e comecei a buscar por alternativas me fizessem simplesmente desistir de estar aqui. Sabe? Eu não queria mais viver.
- Por que você está falando isso?
- Foi horrível a forma com a qual tudo aconteceu quando vocês foram embora daqui. Meu pai gritou comigo e eu não conseguia reconhecer Mourad e Hassam, tampouco minha mãe. Foi a coisa mais horrível para mim.
- Você poderia ter me ligado.
- Você estava com os seus pais e eu jamais teria feito nada para que pudesse atrapalhar vocês naquele momento. Foi tudo muito rápido e de repente meu pai estava caído ao chão e tudo isso aconteceu.
- Eu não sei o que te dizer.
- Eu só queria saber como eu consigo mudar tudo isso.
- Faruk, nem tudo a gente consegue mudar. Nem tudo é culpa nossa.
- Mas eu me sinto culpado.
- Eu sei, mas você não pode se prender a isso por tanto tempo, sua família precisa de você. Sua mãe, seus irmãos.
- Eles têm uns aos outros. Quem sou eu?
- Quem é você? Você acha realmente que você não faz falta para ninguém?
- Eu acho que não.
- Eu sinto a sua falta.
- Sente? - Estranhou Faruk.
- Sinto. Você acha que se acontecesse algo com você, eu ficaria bem comigo mesmo?
- Ah, mas é diferente.
- Não é diferente.
- É diferente. Acontecer algo é realmente um absurdo e não tem como não impactar outras pessoas de forma tão drástica ao ponto de elas não sentirem falta umas das outras.
- Por que você está dizendo?
- Sei lá, às vezes eu penso que eu encho demais você e que você tem uma outra pessoa.
- Tudo bem, me desculpe. - Disse Zyan tentando mudar o assunto. - Vamos descer?
- Hey, Zyan... - Chamou Faruk. - Fica ao meu lado hoje. Custe o que custar?
- Fico!
- Você promete?
- Prometo!
- Vamos?
Zyan se virou saindo pela porta do quarto de Faruk e parando no vão da porta enquanto o aguardava a chegar até ele. Os dois caminharam juntos pelo corredor e desceram as escadas um atrás do outro até o primeiro andar onde já tinham alguns familiares de Bassam e Najat se acercando do corpo de Bassam que estava no meio da sala. Ao lado de seu corpo, tinha uma coroa de flores com uma frase significativa informando a importância da partida desse mundo para um mundo melhor e mais belo enquanto havia uma foto de Bassam em preto e branco em homenagem a ele.
Khadija se aproximou de Faruk e o abraçou dando seus sentimentos a ele e em seguida em Hassam que estava ao lado com a cara um pouco mais fechada que o habitual. Embora ele não concordasse com o que tinha acontecido na noite anterior, ele simplesmente ignorava o fato de seu irmão estar ao lado de Zyan naquele momento. Faruk, por sua vez, tentava não manter seu olhar fixamente nos olhos do irmão e ficava mais sério observando sua mãe que parecia estar mais desolada que os minutos anteriores.
Aquele não era o tipo de ambiente em conversações poderiam tomar conta da sala ao ponto de se misturarem a de outras pessoas. Estavam todos ali, em silêncio ou aos prantos velando um familiar. Os pais de Bassam que eram mais idosos, chegaram acompanhados de seu irmão Basem que se aproximou do corpo de Bassam e fez uma pequena oração em culto ao corpo do irmão. Em seguida, Basem, se direcionou aos sobrinhos Mourad, Hassam e Faruk dando suas sinceras condolências e em seguida se direcionou a Najat que o abraçou enquanto eles sentiam juntos a perda de Bassam.
Farah estava do lado de fora, próximo à entrada da sala enquanto observava Zyan e Faruk juntos e se perguntando se eles não estavam próximos o suficiente para chamar a atenção dos outros. Tudo que ele menos queria, era que o filho tivesse o mesmo tratamento que Faruk teve naquela casa e com isso, mesmo ao lado de Ghaith que se aproximou dele o envolvendo em um abraço, ele continuou de braços cruzados observando Zyan e Faruk ao ponto de tentar identificar o que um poderia sentir pelo o outro.
Farah e Ghaith tentavam entender como estava o real sentimento das pessoas daquela família ali. Faruk era o que menos aparentava sentir alguma coisa, ele estava mais sério e ao mesmo tempo tentando se manter firme ao lado dos outros dois irmãos que estavam com seus olhos avermelhados como se estivessem chorando minutos atrás. Não que Faruk não tivesse chorado desde então, mas sim, ele tentava manter-se o mais forte ali.
Faruk foi caminhando até a porta de entrada da sala e ficou encostado em um dos vãos enquanto olhava em direção ao jardim. Enquanto seu olhar estava fixo para o horizonte diante de si, ele apreciava em silêncio alguns pássaros que por ali cantavam enquanto seus olhos corriam lentamente por cada um dos locais daquele jardim. Por cada lugar que seus olhos corriam, ele conseguia se recordar de momentos que foram vividos ali não só com ele e Bassam, mas como também com Mourad e Hassam. Estar ali, os três juntos ao seu pai, correndo e brincando pelo jardim quando ainda eram mais novos era uma das melhores sensações que ele poderia reviver naquele momento.
Ele começava a se lembrar das histórias que seu pai contava enquanto sentado em um dos bancos do jardim enquanto os três ficavam ao chão ouvindo atentamente histórias aleatórias sobre a mitologia árabe e suas histórias que muitas vezes complexas dividiam contos entre bem e o mal fazendo com que aquelas crianças ficassem atentas, sentadas à sua frente, observando cada uma das passagens que Bassam contava.
Sempre ao final da tarde, eles entravam para dentro de casa e terminavam o dia no lado da piscina junto com Najat, onde deixavam as crianças brincarem e ficavam juntos apenas observando a família que linda eles tinham construído juntos.
Faruk se pegou revivendo cada um daqueles sentimentos e quando voltou seu olhar para dentro da sala, lá estava Najat olhando para o marido. Perder um pai é realmente muito doloroso, mas perder um marido e um companheiro é realmente uma das maiores perdas que uma mulher poderia ter. Só ela sabia a dor que ela carregaria a partir dali, sozinha, mesmo que com os seus filhos ao seu redor.
Em silêncio, ela relembrava do dia em que havia se casaco com Bassam. Assim como vários outros casamentos na Arábia, o dela também foi um casamento arranjado entre as famílias de ambos que pretendiam prosperar as suas próprias riquezas. Ela se via muito em Khadija quando olhava para a filha de Ghaith e Mourad. Assim como Khadija, ela era bem nova, tinha dezesseis anos de idade e também tinha as suas dúvidas e os seus receios com relação ao que a esperaria a partir dali. Demorou um tempo para que ela conseguisse se apaixonar de fato por Bassam, mas aos poucos, o amor foi acontecendo.
No início, ela se lembrava de chorar todos os dias no quarto enquanto sentia saudade de sua família e no quanto ela se sentia sozinha dentro de uma casa enquanto Bassam trabalhava. Sua vida começou a ter um pouco mais de sentido quando ela teve a sua primeira criança, Mourad, que trouxe para os dias de Najat tons mais felizes e uma vontade inexplicável de querer fazer coisas novas e boas o tempo todo para construir uma família junto a Bassam. Alguns anos depois, vieram os gêmeos, Hassam e Faruk, o que para ela foi ainda mais assustador. Duas crianças de uma única vez?
Faruk por sua vez, foi uma criança um pouco mais problemática. Ao nascer, ele teve alguns problemas respiratórios e precisou ficar entubado durante longas três semanas na maternidade até que ela pudesse levá-lo de volta para casa. Desde criança, Faruk tinha pequenas dificuldades para se exercitar e acabava fazendo poucos movimentos, diferente de Hassam e isso fazia com que Bassam e Najat tivessem um cuidado mais atencioso com Faruk.
Najat se afastou um pouco do corpo de Bassam e foi caminhando até a porta de entrada da mansão, onde ficou de pé durante alguns minutos olhando para o céu lá fora. Ela parecia fazer algum tipo de oração em pensamento pedindo para que a alma de Bassam fosse guiada para um lugar lindo, calmo e belo que ele merecesse estar.
Aos poucos as horas foram se passando e o sepultamento já começava a tomar o seu percurso. Os familiares se reuniram em frente ao corpo de Bassam, onde juntos através de uma oração recitaram algumas palavras que pudessem confortar não só Bassam que estava passando desta vida para a eternidade, mas também confortando todos os corações daqueles que ficavam ali. Lentamente, uma a uma das pessoas passaram em volta de Bassam para observa-lo pela a última vez antes de fecharem o caixão para que pudessem sepulta-lo.
Enquanto ajustavam o caixão com o corpo de Bassam para se encaixar na cova, Faruk sentiu uma lágrima escorrer de seus olhos. Aquele foi momento em que ele conseguiu deixar que a sua dor ficasse um pouco mais evidente ao ponto de simplesmente não se importar em se segurar em público. Ghaith ao perceber que Faruk começava a se emocionar, se acercou mais próximo a ele e colocou seus braços em cima de seus ombros fazendo com que ele se acercasse mais para o seu peito. Ela sabia como era a dor de perder um ente querido e não precisava de muito para que ela sentisse o quanto Faruk tinha se segurado até aquele momento para que não deixasse nenhuma lágrima escorrer pelo seu rosto.
A cova já estava prestes a ser fechada e aos poucos, os familiares foram se aproximando e jogando algumas flores dentro da cova e conforme as jogavam, eles se viravam e se distanciavam andando em direção oposta dali. Hassam foi um dos últimos, ele se aproximou da cova de seu pai e enquanto segurava o choro, agarrou um dos botões de rosa ao seu bolso e jogou em cima do caixão.
- Adeus, papai. - Disse Hassam que deixou uma lágrima escorrer de seus olhos antes de se virar e seguir em direção aos outros.
Há um significado na morte. Há um significado na vida. Por toda a existência existe um significado. Enquanto os dias se passavam, a família de Hassam, Mourad e Faruk começaram a sentir de fato o que era o luto de uma família que havia perdido o seu patriarca.
Najat havia se tornado uma mulher mais solitária, sozinha e sempre comportando roupas escuras e pesadas, ela já não sorria mais e não tinha mais a alegria que tinha como antes. Era diferente agora, antes ela estava acostumada a ter Bassam ao seu lado e mesmo que em poucos momentos de seu dia, ela conseguia compartilhar com ele os mais interessantes dos dela e ouvir o que ele tinha para compartilhar. Ela tinha um casamento um tanto incrível com Bassam.
Bassam tinha um jeito um pouco mais sério e mais reservado, mas quando se estava com Najat, ele conseguia se soltar ao ponto de fazer algumas brincadeiras e até mesmo sorrir. Ele não conseguia ter humor, mas de alguma forma muito estranha, eles conseguiam ter o humor deles quando sozinhos. Era coisa de casal.
Bassam vivia o tempo todo fora de casa resolvendo coisas das empresas que ele possuía ao redor de Riade enquanto Najat ficava boa parte do tempo em casa, ou também resolvendo outras coisas pessoais na rua, mas desde que Bassam tinha partido, aquela casa que nunca havia sido tão grande para ela ao ponto de ela se sentir extremamente sozinha, em um único piscar de olhos, havia ficado assustadoramente vazia e grande.
Enquanto ela descia para pegar algum copo de água e sentia seus dedos tocarem a mármore do chão, ela conseguia ouvir facilmente o ecoar de sua pele pelo chão conforme seus pés se arrastavam. A casa parecia dar eco e ela se sentia completamente sozinha. Já se completava cinco dias desde o falecimento de Bassam e ela ainda sentia a sua presença ali de alguma forma.
A primeira noite foi a mais difícil para Najat. Era como se todo o canto da cama dele tivesse o seu cheiro impregnado e seu travesseiro tivesse aquela fragrância única que ela só gostaria de sentir em torno da sua pele em um abraço apertado. Quando ela se deitou, pela primeira vez sozinha, ela sentiu seu estômago comprimir de uma forma como se estivesse disposta a gritar e desoladamente chorar e chorar sem ao menos se controlar. Ela só queria sentir aquela dor. Ela nem sabia onde doía. Ela não sabia o que doía, mas ela conseguia sentir a falta que ele fazia e faria a partir daquele momento.
Por dois episódios seguidos na mesma noite, ela acordou como se estivesse tendo um pesadelo e perdendo o fôlego. Ela acordava assustada e buscando pelo lado direito da cama na esperança de encontrar Bassam que nunca mais voltaria a deitar ali com ela e muitas vezes ela voltava para se deitar, fechava os seus olhos e apenas chorava, em silêncio, pois até mesmo o choro no silêncio faria com que seus filhos Mourad, Faruk ou Hassam a escutassem. Ela não queria chamar a atenção.
Nas manhãs vazias, quando ela colocava o café da manhã sob a mesa, ela sempre se esquecia e colocava cinco pares de cada talher considerando que Bassam poderia descer a qualquer momento. Aquele comportamento perdurou por longos setes dias de uma longa semana, até que um dia ela percebeu que ele nunca mais desceria novamente. Ela sentia a falta de Bassam.
Em um destes dias, enquanto sozinha pela casa, ela tentou organizar algumas coisas e encontrou alguns álbuns de fotos em casa. Decidida a organiza-los e ao mesmo tempo relembrar algumas coisas, ela começou a repassar algumas daquelas fotos e era de seu casamento com Bassam. Eram várias fotos que marcavam toda uma história e uma vida que eles haviam construído juntos. Ela tentou se segurar, enquanto uma lágrima teimava em cair de seu rosto e simplesmente a secou e fechou o álbum e estendeu a sua mão para colocá-lo em cima de uma das prateleiras do seu quarto.
Mourad, o filho mais velho era também o mais calado. Ele era acostumado a ficar mais na sua e um pouco mais isolado dos dois irmãos, principalmente com os preparativos do casamento a todo vapor que estava com a cerimônia marcada em dois meses. Com a ausência do pai, ele começava a sentir a falta e a importância de tê-lo dividindo algumas opiniões com relação às escolhas e aos preparativos da festa.
Ter Najat do lado não era a mesma coisa, embora ela conseguisse colaborar bastante, ele precisava de uma figura masculina que fosse a de seu próprio pai e que infelizmente ele não a teria mais. Ele sabia que poderia contar sempre seus irmãos Hassam e Faruk e além deles, também com Zyan e Farah, mas ainda assim ele continuava optando por fazer todas as escolhas sozinho como noivo.
O casamento que estava sendo ansiosamente aguardado por ele, começava a perder um pouco da beleza. Aos poucos ele já não sentia tanto entusiasmo a ver as folhas do calendário a fim de contar quantos dias a mais faltariam até chegar o fatídico dia do casamento.
Um dos lugares mais bonitos da mansão para Mourad, era o jardim, onde ele acostumava a se sentar com o seu pai em todos os entardeceres e juntos ficavam lá conversando sobre assuntos aleatórios da vida masculina e adulta. Ele se recordava de cada assunto que tinha com o seu pai e as histórias que mais o deixava interessado eram as histórias relacionadas ao casamento de Bassam com Najat. Ele gostava de ouvir como os pais tinham chegado até ali e o que eles tinham passado, principalmente para saber o que a vida teria reservado para ele e Khadija daqui a um tempo.
Certa noite, pela madrugada quando Mourad perdeu o sono, ele caminhou pelos corredores da mansão e desceu até a entrada da casa onde levava para o jardim. O céu estava escuro, com bastante nuvens e poucas estrelas no céu e ele por alguns segundos se pegou sentindo a falta de seu pai naquele momento. Ele olhou para o céu e fechou os olhos e após respirar profundamente, fez uma oração em pensamento para que o seu pai pudesse ouvi-lo. Com os dedos entrelaçados em frente ao peito, ele terminou e voltou para dentro de casa e ao caminhar até a cozinha se deparou com a sua mãe, de pé, que enquanto de costas tomava um copo de água.
- Oi, mamãe.
- Oi, Mourad.
- Acordada a essa hora?
- Um pouco. Perdi o sono e acabei descendo para beber um pouco de água e você?
- Eu também.
- Tem perdido o sono com muita frequência ultimamente. - Observou Najat.
- Sim, mamãe... É essa história toda com o papai e esse lance com o casamento. Sabe?
- O que te aflinge, Mourad?
- Não sei. - Disse ele dando de ombros. - Eu não esperava que fôssemos ter que lidar com isso justo agora. Sabe?
- Eu sei, meu filho, mas muitas das vezes as coisas acontecem em nossa vida para nos mostrar que isso só poderia ter acontecido agora. Você me entende?
- Eu entendo.
- Essas coisas na vida, elas não são evitáveis. Eu queria também que o seu pai estivesse aqui comigo e te vesse subindo no altar com Khadija e conhecesse nossos netos, mas infelizmente ele teve que partir. Está me doendo, mas espero que um dia toda essa dor passe.
- As coisas ficarão bem, mamãe.
- Eu sei, mas foi tudo tão rápido. Eu não esperava que naquela mesma noite, eu fosse perder o seu pai. Eu estou me sentindo tão mal, sabia?
- Como assim, mamãe?
- Estou me sentindo mal. Eu sou uma péssima mãe e esposa por não perceber as coisas que aconteciam em baixo do meu teto o tempo todo. Primeiro aquela história do Hassam com o Faruk e depois o Bassam já sabia? Quando tudo isso aconteceu?
- Mamãe, tudo aquilo tinha acabado de acontecer. O Faruk não falou mais nada a respeito do que tinha acontecido ali em baixo entre ele e Zyan.
- Ele e Zyan?
- Sim, mamãe. Até que parte Hassam te contou?
Najat ficou em silêncio e foi naquele momento que Mourad percebeu que Hassam não tinha falado nada para ela sobre o que havia compartilhado com ele e Bassam no escritório, horas antes de ele vir a falecer.
- Desculpe-me, Mourad, mas o que estava acontecendo?
- Eu não sei se eu sou a pessoa certa para te contar isso.
- Mourad, você precisa me contar o que estava acontecendo.
- Parece que o Faruk deu a pulseira que tinha ganhado em Tel Aviv para Zyan e o Hassam contou para o papai que eles estavam juntos no jardim aqui de casa, naquela noite, praticando atos homossexuais.
- O Faruk e o Zyan?
- Sim, mamãe.
- E quando vocês iriam me contar isso?
- Eu não sei, mamãe, eu tinha acabado de descobrir também.
- Quem sabia mais sabia disso?
- Só a gente.
- E quanto à Khadija?
- A Khadija também sabe.
- A Khadija sabe?
- Sim, mamãe.
- E o que ela disse?
- Ela não disse mais nada ainda.
- Você precisa entender com ela o que mais ela contou em casa e o que os pais dela sabem sobre Faruk. Você está me entendendo, Mourad?
- E quanto ao Faruk, mamãe?
- Faruk não pode mais ficar em baixo do nosso teto, Mourad. Se a nossa família descobre isso logo após a morte do seu pai, eu posso me prejudicar com todos os bens que inclusive ficarão de responsabilidade suas após o casamento com Khadija.
- Você está pensando em mandar Faruk embora?
- Eu não sei, mas eu não posso admitir tais comportamentos em baixo do meu teto.
- Mas mamãe, o papai acabou de falecer.
- Eu sei e isso pode ter sido inclusive um dos principais motivos para que ele viesse a falecer, Mourad. - Disse Najat dando uma pausa. - Um ataque cardíaco. Logo na mesma noite?
- Mamãe, talvez você esteja cansada.
- O que mais aconteceu?
- Acredito que seja melhor você conversar com Hassam amanhã. - Disse ele acalmando a sua mãe. - Promete para mim que vai conversar com o Hassam amanhã?
- Prometo, Mourad.
- Você nunca tinha percebido nada?
- Eu percebi algumas coisas, mas não sabia que tinha relação com o Faruk.
- O que você mais você percebeu, mamãe?
- Durante o jantar, Zyan estava com o telefone em baixo da mesa, conversando com alguém e com um sorriso apaixonado. Parecido com o sorriso que a Khadija te dá normalmente. Sabe?
- Sei, mamãe. E quanto ao Faruk?
- Eu não reparei o Faruk, mas vou começar a ficar de olho nele a partir de agora. - Respondeu Najat que percebeu que precisava estar mais atenta aos comportamentos do próprio filho dentro de casa.
Na manhã seguinte, Najat havia acordado um pouco mais cedo do que o seu costume habitual. Enquanto ela arrumava a mesa do café da manhã e preparava alguns quibes e sanduíches em pãos sírios, ela pensava na conversa que havia tido entre ela e Mourad na madrugada daquele dia. Ela estava curiosa enquanto se sentia extremamente ansiosa por ouvir o que Hassam tinha para dizer à ela sobre o que tinha acontecido na noite em que seu pai faleceu. O que Hassam sabia que ela nunca tinha visto e como ele tinha visto?
O primeiro a descer para o café da manhã foi Mourad, que acordou um pouco mais cedo e combinou de levar Khadija para resolver algumas coisas dos preparativos de seu casamento. Os dois se encontrariam em vinte minutos e Khadija estava já a caminho de sua casa naquele momento. Sem dar detalhes e voltar na conversa que tiveram na madrugada, Mourad apenas caminhou até Najat, a abraçou e deu um beijo, agarrando alguns quibes e embrulhando em alguns papeis de guardanapo para levá-los também para Khadija.
- Você já está saindo?
- Sim, mamãe. Combinamos de organizar as coisas da viagem após o casamento.
- Tudo bem. - Assentiu ela com um sorriso. - Diga à Khadija que eu a mandei um beijo.
- Tudo bem, mamãe. - Respondeu ele se despedindo e caminhando até a porta da sala.
Após Mourad sair pela porta, Najat ficou sozinha enquanto o olhava entrar no carro de Khadija que estava o esperando do lado de fora do portão da mansão. Khadija abaixou a janela e deu um sorriso para Najat que a respondeu um doce bom dia. Enquanto o carro partia, Najat que estava sozinha, encostada em uma das pilastras da entrada da mansão, voltou-se para dentro de casa e se deparou com Faruk que descia as escadas.
- Bom dia, mamãe.
- Bom dia, Faruk! Tudo bem? - Respondeu ela passando direto pelo filho.
- Tudo bem e você? Dormiu bem? - Perguntou ele.
- Tenho perdido o sono em alguns momentos da noite.
- Eu também não tenho dormido bem.
- Deve ser tudo isso que aconteceu recentemente. - Comentou ela dando de ombros.
- Sim.
Os dois ficaram em silêncio e enquanto Faruk arrumava o seu café da manhã, Najat caminhou até a ele e se sentou à sua frente.
- Bom dia, Faruk!
- Bom dia, mamãe! Tudo bem?
- Tudo bem.
Enquanto ele arrumava um sanduíche ao prato, ela o observava em silêncio com uma certa inquietação. Ela queria falar alguma coisa. Perguntar algo. Mas não sabia por onde começar.
- Está tudo bem mesmo? - Perguntou ele olhando para Najat enquanto Hassam descia as escadas.
- Hassam, por favor, venha aqui. - Chamou ela.
- Bom dia, mamãe. - Disse Hassam dando-a um beijo.
- Bom dia! Tudo bem?
- Tudo bem.
- Sente-se. - Pediu ela.
Hassam estava com uma bolsa esportiva e sentou-se ao lado de Faruk que estava uma cadeira distante da que ele havia puxado para si. Ao se sentar, ele agarrou uma jarra de suco e um copo e enquanto o enchia, olhava para a sua mãe como se esperasse que ela falasse algo.
- Preciso conversar com vocês. - Disse Najat.
- Tudo bem. - Sorriu Hassam olhando para Faruk que abaixou o olhar e ficou em silêncio.
- Eu quero saber o que aconteceu aqui em casa no dia do jantar com a família da Khadija.
- Como assim? - Perguntou Faruk que levantou o olhar rapidamente em direção a Hassam esperando que ele não falasse nada do que havia acontecido.
- Faruk, eu gostaria que você ficasse calado por enquanto. - Disse ela virando-se para Hassam. - Hassam, por favor, me conte. O que você viu aqui em casa?
- Como assim, mamãe? - Hassam se esquivava de uma forma como se não quisesse abrir o que o ocorrido para a sua mãe. Ele tinha decidido que seria cumplice de Faruk e que tudo aquilo ficaria para trás.
- Eu já soube do Mourad e agora eu quero saber de você. Sobre Faruk e Zyan.
Os dois ficaram em silêncio.
- Eu soube que ambos praticaram atos homossexuais... - Disse ela dando uma pausa. - Aqui. - Engoliu em seco. - Em baixo do nosso teto. Próximo da nossa família. É verdade?
Antes que Hassam pudesse responder, Faruk largou os talheres em cima da mesa e se levantou.
- Faruk, sente-se! - Ordenou Najat.
- Desculpe-me, mas não quero ter essa conversa aqui.
- Enquanto você estiver em baixo do meu teto, sim. Então, sente-se!
- O que mais você quer saber? - Perguntou Faruk.
- Vocês praticaram atos homossexuais aqui em casa, ou não?
- Mourad já não te contou?
- Eu perguntei para você.
Faruk ficou em silêncio.
- Hassam... - Chamou Najat.
- Sim, mamãe.
- Tiveram ou não tiveram?
Hassam ficou em silêncio e abaixou o olhar.
- Pode falar, Hassam!
- Eu não vi, mamãe. - Disse Hassam.
Najat revirou um dos pratos de cima da mesa em cima de Hassam.
- Não minta para mim! - Gritou ela.
Hassam se comprimiu de uma forma como se estivesse completamente assustado e como se todo aquele comportamento fosse inesperado. Ele nunca tinha visto sua mãe se exaltar daquela forma.
- Eu vou perguntar mais uma vez, Hassam. Praticaram ou não praticaram?
Faruk que ainda estava de pé, ficou calado e enquanto assustado se preocupava com o irmão que começava a segurar o choro e ainda em silêncio não sabia o que responder. Ele queria proteger Faruk, mas não sabia como e nem quais palavras poderia usar que seriam necessárias para protegê-lo de qualquer coisa que poderia vir a partir dali.
- Sim, mamãe. - Respondeu Hassam. Voltando o olhar para Faruk. - Me desculpe.
- Tudo bem. - Assentiu Faruk.
- Junte suas coisas e vá embora da minha casa! - Disse ela. - Agora! - Gritou.
Faruk se virou e foi caminhando em silêncio até a escada que o levaria para o seu quarto. Hassam que ainda estava comprimido, em sua cadeira, ficou com as mãos entre as pernas e com o olhar baixo esperando que sua mãe falasse alguma coisa.
- Quanto tempo isso estava acontecendo?
- Eu não sei te dizer.
- Não minta para mim.
- Eu não sei te dizer, mas talvez desde a visita na casa deles.
- Desde a primeira vez?
- Eu não sei te dizer, mamãe.
- Eu não quero mais aquele menino pisando aqui em casa. - Disse ela.
Faruk entrou em seu quarto e começou a abrir o seu guarda roupas e com algumas mãos agarrou algumas mudas de roupas e colocou em uma mochila do lado da cama. Ele já tinha chorado demais nas últimas semanas e não conseguia esboçar nenhum sentimento, tampouco derramar nenhuma lágrima enquanto juntava algumas peças de roupa e pensava para onde ele poderia ir a partir dali. Antes que ele pudesse perceber, Hassam chegou na porta de seu quarto e sem bater, ficou parado ali em silêncio observando o irmão juntar as coisas.
- Me perdoe. - Disse Hassam.
- Esquece. - Sorriu ele.
- Para onde você vai?
- Eu não sei. Eu não tenho para onde ir.
Hassam foi caminhando até o irmão e deu um abraço nele.
- Foi sem pensar. Eu não queria que isso chegasse a esse ponto.
- Eu sei. Fique tranquilo.
- Por que você não liga para o Zyan e foge com ele?
- Nós não somos um casal, Hassam.
- Mas vocês se beijaram.
- Ele não gosta de mim. Não como eu gosto dele.
- Liga para ele.
- Não, Hassam.
Faruk colocou a mochila nas costas e passou pelo irmão caminhando pelo corredor e descendo as escadas. Ao buscar pelas chaves do seu carro, ele não as encontrou em nenhum lugar. Voltou para o quarto e revirou algumas coisas em cima da cama e ainda sem sucesso voltou-se até o primeiro andar.
- Você vai sair sem nada. - Disse Najat.
- Mas e o meu carro?
- Você não vai levar o carro.
Faruk engoliu em seco e cerrou os punhos na mochila e foi caminhando em direção a entrada da sala, saindo de casa sem olhar para trás. Hassam desceu em seguida e pensou em ir atrás do irmão, Najat o segurou.
- Se você sair daqui e for atrás do seu irmão, você não volta também. Ouviu?
Hassam olhou para Najat. Assentiu com a cabeça e abaixou o olhar deixando o irmão seguir em direção ao portão de entrada da mansão. Com o telefone em mãos, ele buscou o contato de Zyan na lista de contatos do aplicativo de WhatsApp e mandou uma mensagem para Zyan.
Faruk: Oi!
Zyan está digitando uma mensagem...
Zyan: Oi!
Zyan: Tudo bem?
Faruk: Mais ou menos.
Faruk: E você?
Zyan: Acabei de acordar.
Zyan: Na cama ainda.
Faruk: Posso passar aí?
Zyan: Pode!
Zyan: Está tudo bem mesmo?
Faruk: Está.
Faruk estava prestes a atravessar uma das avenidas mais movimentas de Riade e esperava o farol abrir enquanto respondia a mensagem de Zyan. Suas lágrimas teimavam em cair de seu rosto, enquanto ele as segurava firmemente e respondia às mensagens de Zyan.
Zyan está digitando uma mensagem...
Zyan: OK.
Zyan: ��
Zyan está digitando uma mensagem...
Faruk ficou com o telefone em mãos enquanto aguardava a mensagem de Zyan. A tela ficou congelada na caixa de mensagens com a foto de contato e no topo do aplicativo aquela mensagem em movimento informando que Zyan estava digitando uma mensagem...
Zyan está digitando uma mensagem...
Zyan está digitando uma mensagem...
Do outro lado da cidade, enquanto ainda estava deitado na cama, Zyan escrevia e apagava uma mensagem enquanto pensava na melhor forma de perguntar o que ele gostaria de comer ou se ele já havia comido alguma coisa, pois ele pensava em sugerir de tomarem um café da manhã juntos de forma que a pergunta não soasse tão romântica e nem tão presunçosa, mas ele queria fazê-la, mas ao invés disso ele apenas se aquietou.
Zyan: OK.
Zyan: Te aguardo.
Foi ao som de “I Know Places” da cantora Lykke Li que Faruk guardou o telefone no bolso e tentou apertar o olhar para que não deixasse nenhuma lágrima cair. A canção interpretada pela cantora, lançada em meados de 2011, nos faz embarcar em uma intimidade compartilhada entre duas pessoas onde existe o desejo de escapar para um lugar seguro e especial, onde por mais que existem preocupações e as dores do mundo exterior, elas nunca poderão ser o suficiente para nos atingir quando nós temos uma outra pessoa ao nosso lado. A letra também enfatiza a importância de não questionar nem como e nem quando, mas sim o porquê e onde de as coisas acontecerem. Isso faz com que a busca pelo nosso propósito se torne muito mais que uma pequena busca pelo caminho o qual devemos seguir. Qual seria o caminho ideal? A repetição de "Eu conheço alguns lugares" que transcorre em algumas estrofes da canção, apenas reforça a ideia de que esse refúgio existe e está ao nosso alcance, basta apenas termos a vontade de alcançá-lo e apenas ir em frente. O Farol abriu. Sinal verde para pedestres. Faruk colocou o pé direito no asfalto e atravessou em meio às luzes do sol que irradiavam aquela manhã.
Após alguns longos minutos, Faruk chegou à casa de Zyan e interfonou para que ele pudesse abrir o portão. Zyan que estava com o telefone em mãos, olhou pela janela e através da cortina estranhou ele não estar de carro. Ele liberou então o portão para que Faruk pudesse entrar e girou a chave da entrada da mansão e ficou na porta esperando Faruk caminhar até a entrada.
Faruk vestia um casaco cor terra, com capuz, e uma calça escura. Suas mãos estavam cerradas nas alças da mochila e ele caminhava de cabeça baixa. Zyan que, estava sozinho em casa, apertou os olhos para identificar se Faruk tinha acontecido alguma coisa com Faruk até que ele chegou em frente aos primeiros degraus do jardim que levava até a casa e subiu de dois em dois e não hesitou até envolver Zyan nos braços.
Os dois se abraçaram e ficaram em silêncio, enquanto abraçados, e Faruk sentiu o seu rosto se afundar no tecido do casaco de Zyan e começou a soluçar como quem tinha um choro contido.
- Vem. Vamos entrar. - Chamou Faruk fechando a porta atrás de Zyan. - O que aconteceu?
- Nada.
Faruk tentava enxugar as lágrimas involuntariamente como quem secava rapidamente o rosto. Ele não queria que Zyan o visse daquela forma.
- O que aconteceu? - Insistiu Zyan.
- Minha mãe. Ela me expulsou de casa.
- Ela te expulsou de casa?
- Sim. Por causa daquela noite.
- Ela sabia?
- Não sei, foi muito rápido. Estávamos tomando café e ela começou a fazer perguntas e acabou que ela me pediu para sair de casa, pois não me aceitaria lá do jeito que eu sou.
- Você pode ficar aqui por uns dias.
- Eu não quero incomodar.
- Mas você não tem para onde ir.
- Mas e quanto aos seus pais?
- Eu não, mas eu posso dar um jeito. Tudo bem?
Faruk abaixou o olhar.
- Eu prometo! - Disse Zyan.
- Eu não quero causar confusão para você.
- Olha. - Disse Zyan se aproximando de Faruk. - Você jamais causaria algum tipo de confusão para mim.
- Eu sei, mas e quanto aos seus pais. Olha onde nós vivemos.
Zyan ficou em silêncio. Ele sabia que viver ali era tão difícil quanto ao que Faruk tentava explicar.
- Meu pai já sabia quando saiu da sua casa. - Disse Zyan.
- Seu pai o que? - Estranhou Faruk.
- Sim. Seu pai contou para o meu pai.
- E o que ele te disse?
- Ele não disse nada, ele só me disse que seria um segredo de nossa família e que isso poderia trazer muitos estragos para todos nós. Se é que você me entende. E que ele temia por você.
Faruk ficou em silêncio.
- Você acha que ele me odeia?
- Não. Ele não te odeia.
- E quanto à sua mãe?
- Também não.
- Eles seguem a tradição islâmica, mas eles são um pouco liberais em vários sentidos. Não precisam seguir à risca tudo que está lá. Você entende?
- É diferente aqui?
- Muito, Faruk. Você nunca percebeu?
- Não. Talvez porque tenha vindo poucas vezes aqui e todas as vezes sempre acompanhado da família e essas coisas.
- Nós somos um pouco diferentes. Eu não sei como é a sua família, mas a minha família é mais tranquila. Você tem dez anos a menos que eu. Um ano mais velho que a minha irmã, Khadija.
- Eu sei, mas isso não quer dizer nada.
- Eu não disse que isso quer dizer alguma coisa.
- Você sempre fala como se isso fosse mudar alguma coisa entre a gente.
- Eu nunca disse nesse sentido.
- Qual é o sentido então?
- Você é como um irmão mais novo para mim.
- Irmão? - Sorriu Faruk constrangido.
- Sim. Faruk, eu gosto de você, mas... - Zyan começou a pensar nas palavras.
- Mas...?
- Eu tenho uma pessoa.
- Eu sei. Em Nova Iorque.
- É. - Assentiu ele.
- Me desculpe por estar aqui.
- Não precisa se desculpar. Vem. Vamos comer alguma coisa.
- Acabei de comer assim que eu saí.
- Quer tomar um banho?
- Eu não sei.
- Vamos dar uma volta então?
- Tudo bem!
- Para onde você quer ir?
- Zyan, eu não sei.
- Tudo bem, vamos andar por aí. - Disse Zyan. - Vou pegar as minhas chaves. Venha! Coloque suas coisas aqui no meu quarto. - Chamou.
Zyan subiu as escadas e em seguida, Faruk foi atrás com a mochila e subindo degraus de dois em dois em passos largos, como de costume, chegou até o segundo andar e entrou no quarto de Zyan. Ele gostava de estar ali. Era aconchegante. Ele se sentia bem. Ele queria estar com Zyan, mas ouvir que era como um irmão para Zyan? Foi meio constrangedor, ele considerava Zyan um homem. Ele queria Zyan como o seu homem e não um irmão mais velho como Mourad.
- Parece que vai esfriar mais tarde. Vou pegar uma jaqueta. - Disse Zyan abrindo o guarda roupa. - Você quer uma?
- Tudo bem! Pode ser uma mais fina. - Disse ele fazendo menção a um casaco de tecido mais fino.
Os dois agarraram os casacos e Faruk colocou a sua mochila ao lado da cama após o vestir enquanto Zyan vestia um casaco semelhante ao que fora usado em Nova Iorque que o fez involuntariamente sorrir.
- O que você está sorrindo?
- Nada.
- Nada?
- Não é nada. É coisa boba.
- Tá.
Faruk abaixou a cabeça. Talvez ele precisasse conversar e Zyan pudesse entretê-lo naquele momento, mas ele não sabia muito bem quais palavras usar.
- Eu lembrei de quando eu conheci esse rapaz.
- Entendi. - Sorriu Faruk. - Qual é o nome dele, Zyan?
- Você quer mesmo saber?
- Conta.
- Lautaro.
- Nome bonito, mas por que isso agora?
- Quando nos conhecemos eu meio que derramei um milk shake no casaco dele e acabou me sujando também e eu meio que me lembrei disso. É uma coisa meio idiota.
- Foi assim que vocês se conheceram.
- Foi.
- E depois?
- Depois conversamos e fomos andando pela rua e paramos em frente a uma banda de rua com algumas músicas americanas e ele sabia o nome de todas.
- Que legal. E depois?
- Fomos naquela exposição de fotos da qual eu havia comentado e depois disso a um bar que não foi muito legal.
- Por que?
- Sei lá. Não me senti muito bem. As pessoas pareciam me olhar como se eu fosse algum desses caras que explodem as coisas por aí. Sabe?
- Mas por que?
- Teve uma história com um papel com uma data do nove de setembro.
- Não entendi.
- O Lautaro desenha.
- Ele desenha?
- Desenha. Quer ver?
- Quero. - Disse Faruk sorrindo. - Deixe-me ver.
- Tenho alguns aqui e outros de uma exposição à qual ele foi participar recentemente.
- Ele expõe as artes?
- Está começando.
- Que legal.
Zyan se aproximou com o telefone de Faruk e Faruk não hesitou em pegar o telefone e deslizar o dedo pelas fotos compartilhadas entre Lautaro e Zyan.
- São bonitos. - Sorriu Faruk. - Esse é ele? - Perguntou Faruk olhando para uma foto em que Lautaro estava sorrindo com algumas obras de arte ao fundo.
- Sim. É ele.
- Ele é bonito.
- Ele é. - Sorriu Zyan.
- Vocês são bonitos juntos. - Disse Faruk entregando o telefone nas mãos de Zyan. - Me desculpa.
- Pelo que?
- Eu vi vocês se falando naquela noite. Eu cheguei por trás e vi que você estava falando com alguém. Na verdade, eu já tinha percebido isso antes e eu só cheguei e depois te dei um beijo.
Zyan ficou em silêncio. Ele não esperava que Faruk compartilhasse aquele fato naquele momento.
- Me desculpa. Eu não deveria. - Disse Faruk. - É que desde o primeiro momento em que eu te vi, eu não sei. Sabe? Eu senti algo diferente.
- Eu também, mas eu só te achei bonito. - Sorriu Zyan.
- Obrigado. Pelo menos isso, mas eu me senti muito mais que atraído.
- Talvez seja por, sei lá, questão de idade.
- Idade de novo, Zyan? Você fala como se tivesse idade para ser o meu pai.
- Dez anos. - Sorriu.
Os dois gargalharam.
- Tudo bem, olha, eu não quero ficar entre vocês dois. - Disse Faruk. - Eu quero estar com você, mas não quero atrapalhar nada entre vocês, então, eu aceito ser seu irmão. - Riu. - Tudo bem?
- Tudo bem.
- Olha, eu digo sério. Tá?
- Eu também, Faruk.
- Obrigado por compartilhar tudo isso comigo.
- Você não precisa agradecer. Somos uma família agora.
- É que eu senti que talvez eu nunca estivesse estado em uma de verdade. Sabe? Até te conhecer.
- Eu não sei. - Zyan que sempre esteve muito junto de sua família, mesmo tendo que se esconder muitas vezes, ele sabia o que era ter uma família de verdade. - Mas eu sinto o que você muitas vezes tenta me passar. Tudo bem?
- Obrigado.
Os dois se abraçaram e ficaram em silêncio durante um tempo.
- Para onde você quer ir? - Perguntou Zyan.
- Não sei. Vamos entrar no carro e simplesmente sair por aí.
- Conheço um lugar na saída de Riade.
- Um lugar?
- Um lugar.
- OK. - Assentiu Faruk.
Aquela conversa entre Zyan e Faruk foi essencial para que eles pudessem sentir o que ambos buscavam um no outro. Enquanto Faruk buscava em Zyan um parceiro que nem ele sabia como queria este parceiro de verdade, Zyan já tinha muito bem definido o que ele buscava para a sua vida. Ele sabia que ele queria alguém mais velho e que tivesse mais ou menos a sua idade. Ele nunca tinha beijado algum rapaz mais novo antes, mas sabia que Faruk tinha a idade para ser o seu irmão mais novo, devido à idade de Khadija, era assim que ele vinha Faruk e Hassam.
Zyan entrou no carro e enquanto dirigia, tocava uma canção de Bjorn, um cantor americano em parceria com outro se chamado Thomas Reid. A canção tocava em uma rádio aleatória que foi sintonizada por eles assim que ele rodou a chave na inguinição. O nome da música era “I Want To Help Me Live”. Conforme a rua de Riade corria lá fora, Zyan tentava conversar sobre assuntos aleatórios com Faruk para prender a atenção dele que estava com seu pensamento bem longe dali. Distante.
Enquanto Zyan gesticulava e falava alguma coisa, Faruk simplesmente pensava no quanto Zyan era interessante e no quanto lidar com tamanho interesse seria difícil para ele. Como ele se contentaria em estar do lado daquele rapaz apenas como um amigo? Ele não nunca tinha tido um relacionamento de amizade com um outro rapaz. Era novidade, mas ele estava disposto a tentar.
Enquanto a rua corria lá fora e o seu rosto se iluminava, ele via as luzes cortarem o rosto de Faruk e as cores que iluminavam seu rosto deixando os traços ainda mais bonitos. Zyan tinha um sorriso espontâneo, bonito e largo que deixava Faruk encantado todas as vezes que falava algo e sorrindo, voltava-se para ele que estava no banco de passageiro ainda hipnotizado.
Na saída de Riade, ele avistou a entrada de um dos desertos próximos à cidade. Foi quando ele estacionou o carro e desceu. Faruk desceu em seguida.
- É aqui. - Disse Zyan.
- Eu nunca estive aqui antes.
- Eu sempre venho aqui, quando quero ficar sozinho e com os meus pensamentos. Eu me sinto bem aqui.
- É bem silencioso.
- Sim. Eu saio e fico para fora do carro e algumas vezes caminho até lá na frente e volto e outras apenas fico aqui, ouvindo alguma canção e olhando para o céu.
Faruk ficou em silêncio.
- Eu gosto de sentir a natureza e como o vento sopra muitas vezes contra nós e ao nosso favor. Sabe?
- Nossa, Zyan. - Sorriu Faruk.
- O que foi?
- Foi profundo.
- Eu sei. Eu quis.
- Eu gostei. - Sorriu ele encostando-se mais em Zyan que estava ao seu lado encostado no capô.
- Vem. Vamos andando até um pouco mais na frente.
- Mais na frente?
- Sim. Tem uns cactos ali e um pouco mais adiante dá para se ver alguns camelos em determinadas partes do dia, mas bem de longe. Acompanhados.
Enquanto Zyan caminhava, Faruk andava atrás dele o observando sobre o quanto ele parecia ser um guia turístico completamente interessado em apresentar uma cultura estrangeira a um turista.
- Você dá um bom guia turístico.
- Para. - Sorriu ele sem graça. - Você me deixa com vergonha.
- Eu digo sério. Esse já é o segundo lugar que você me traz para conhecer.
- E você não gosta?
- Se eu não gosto? Porra, Zyan. Eu amo!
- Tem certeza?
- Lógico. Se não fosse você, eu nem sei onde eu estaria neste exato momento.
- Não fale assim.
- Eu digo sério.
Zyan ficou em silêncio e com um semblante um pouco triste abaixou o olhar.
- Você não tinha para onde ir?
- Não. - Negou ele com a cabeça.
- Sua mãe te colocou na rua assim?
- Sim. Sem o meu carro.
- Me perdoe. Eu sinto muito.
- Não precisa. Olha, eu estou bem aqui com você. - Sorriu. - Olha só esse cacto. - Apontou ele para um dos cactos ao lado deles que em uma das pontas desabrochava uma flor.
- Bonito. Não é?
- Sim.
- Toma. - Disse Zyan arrancando a flor. - É para você.
- Zyan, por favor. Não faça isso.
- O que?
- Olha o que você está me dando.
- Uma flor.
- Tá bom. A gente estava até agora no seu quarto de você me falando do quanto eu tenho idade para ser o seu irmão e agora você me dá uma flor?
- Qual problema?
- O problema é que eu posso interpretar de uma outra forma. - Riu Faruk.
- Eu gosto de quando você sorri. Sabia? - Disse Zyan um pouco mais sério.
Faruk abaixou o olhar um pouco mais sem graça e sentiu seus lábios ressecados. Ao hidratados com a saliva, ele voltou seu olhar para Zyan.
- Eu não lembrava.
- Do que?
- De quando havia sido a última vez.
- Que o que?
- Eu eu dei um sorriso desse.
- Você passou por muita coisa ultimamente.
- Eu sei. - Riu ele sem graça. - Estar com você me faz me sentir melhor.
- Então pegue a flor. - Disse Zyan estendendo a mão.
- Não. Vamos deixá-la ali. - Apontou Faruk.
- Guarde-a com você.
- Não. - Disse Faruk. - Vamos deixa-la ali. - Apontou ele para um monte de pedras que estavam amontoadas um pouco mais à frente dos cactos.
- O que você está fazendo?
- Já ouviu falar da fábula das flores que nascem em pedras?
- Não. - Riu Zyan. - Onde você aprendeu isso?
- Minha mãe me contou uma vez, mas ela fala sobre amizade e do quanto a nossa inocência pode transformar um local como pedras em um jardim.
- Nossa. Que profundo, Faruk.
- Gostou?
- Eu não sabia que você gostava de fábulas de flores em pedras em um jardim.
- Não gosto, mas eu lembrei.
- Deixe-a por aí.
- Tá bom, deixe-me tirar uma foto. - Faruk retirou o telefone dos bolsos e com a câmera frontal ativada deu zoom e com a luz do entardecer a fotografou ao meio de algumas pedras amontoadas.
Assim que a fotografou, ele virou o visor do telefone para Zyan que olhou a fotografia e depois de alguns segundos admirando-a, fez um elogio. É linda.
- Obrigado. - Respondeu Faruk. - Bom, acho que já está tarde aqui.
- Quer voltar?
- Vamos?
Faruk assentiu com a cabeça e os dois foram caminhando de volta para o carro. Ao retornar para Riade, Faruk se sentiu tão cansado que adormeceu com seu rosto que levemente se encostou no vidro da porta do carro e seguiu dormindo enquanto Zyan dirigia de volta para casa. Aquela tarde havia sido mais que incrível para ele. Estar junto de Faruk o fazia lembrar do quanto Lautaro era importante para ele e do quanto ele queria estar junto dele naquele momento. Lautaro, por sua vez, mandava algumas mensagens ao longo do dia, porém a comunicação entre eles havia ficado um pouco menos frequente devido às coisas que Lautaro começara a fazer por lá.
Naquela tarde, Lautaro aguardava o envio do contrato com a editora para iniciar as ilustrações dos livros dos escritores que lançariam alguns livros nos próximos seis meses. Eram sete ilustrações. Ele precisaria ler as obras e preparar algumas artes para disponibiliza-las para a editora e posteriormente para os autores aprovarem. Ele estava bem entusiasmado e ansioso para contar para Zyan que naquele dia voltava para casa com Faruk.
Naquela noite, em Riade, Zyan estacionou o carro e Faruk ainda estava adormecido.
- Chegamos. - Disse Faruk.
- Desculpe-me. Peguei no sono. - Disse ele.
- Vamos. - Chamou Zyan.
Faruk desceu do carro e foi acompanhando Zyan até a porta de entrada. Na entrada, estava Ghaith e Farah que provavelmente tinham acabado de chegar de onde estavam.
- Faruk... Que surpresa. - Disse Ghaith sorrindo.
- Oi, Ghaith. Tudo bem? Tudo bem, Senhor Farah?
- Tudo bem, Faruk? - Perguntou Farah olhando um pouco mais sério para Zyan que abaixou a cabeça e se virou para a fechar a porta como se quisesse fugir do encontro com o seu pai.
Enquanto fechava a porta, seu telefone vibrou ao bolso. Era Lautaro.
Lautaro quer iniciar uma chamada de vídeo.
Ele escondeu o visor contra seu casaco e foi subindo as escadas de seu quarto até chegar no corredor do segundo andar quando deslizou dedo para atender a chamada discretamente.
- Oi, minha possível loucura impossível. - Sorriu ele.
- Oi! Tudo bem? - Sorriu Lautaro.
- Tudo bem e você?
- Tudo bem também.
- E esse sorriso?
- É de falar com você.
- Que lindo. Fico apaixonado. Sabia.
- Eu também. Estou com saudades.
- Também estou com saudades.
- O que tem feito?
- Eu tenho uma novidade.
- Uma novidade?
- Sim. Lembra daquele contrato? Eu fechei e já tenho sete ilustrações para entregar.
- Sério?
- Sério! E vou começar ainda essa semana. Devo ilustra-las até o final do próximo semestre.
- Eu não estou acreditando.
- Pode acreditar.
- Lautaro.
- Eu... - Sorriu ele.
Atrás dele, bateu na porta Faruk interrompendo a ligação de vídeo dos dois. Zyan pensou em abaixar o telefone, mas ao invés disso ele acabou não se mostrando envergonhado em frente a Faruk e Lautaro ficou um pouco mais confuso por nunca ter visto Faruk antes e sem perguntar nada, ficou em silêncio, enquanto Zyan falava.
- Esse é Faruk, Laut. Ele é irmão de Mourad, o noivo da minha irmã Khadija. - Disse ele mostrando rapidamente o visor do telefone para que ambos pudessem se ver. Lautaro olhou rapidamente para Faruk que acenou com uma das mãos e voltou seu rosto para baixo como se estivesse envergonhado.
- O que ele está fazendo aí? - Sussurrou Lautaro como se Zyan pudesse ler sua boca.
Zyan pegou o telefone e com as duas mãos selecionou a caixa de mensagem e digitou.
Zyan: O que você disse?
Lautaro: O que ele está fazendo aí?
Zyan: Ele veio passar alguns dias.
Lautaro: ???
Zyan: Os pais dele colocaram ele para fora.
Lautaro: Como assim?
Zyan: Ele é... como a gente...
Lautaro: Como a gente?
Lautaro: Gay?
Zyan: É.
Lautaro: Entendi.
Lautaro ficou com um semblante um pouco inexpressivo e um tanto incomunicável enquanto tentava entender o que Zyan estava fazendo com ele no mesmo quarto, naquele momento.
- Posso te ligar depois? - Perguntou Zyan.
- Pode. - Respondeu Lautaro sorrindo.
- OK. Te ligo daqui a pouco. Tudo bem?
- Tudo bem.
Os dois desligaram a chamada.
- Ele é simpático. - Comentou Faruk.
- Ele é.
- Posso tomar um banho?
- Pode. Você precisa de alguma roupa?
- Eu trouxe algumas na mochila. Talvez eu precise de algumas para dormir.
- Tudo bem. Pode pegar aqui no meu guarda roupas. - Disse ele apontando para uma das portas do guarda roupa ao lado da porta de entrada do quarto.
- Você me empresta uma toalha?
- Vou pegar para você.
Enquanto Zyan foi até o outro quarto pegar algumas toalhas, Faruk foi caminhando até o banheiro e deixou a porta entre aberta, onde entrou e abriu o chuveiro. Devido à temperatura estar um pouco mais baixa, ele colocou o chuveiro um pouco quente demais e ao sentir a água fervendo ele cerrou os dentes e puxou seu braço um pouco para trás. Ele estava só de cueca quando Zyan abriu a porta para entregar a sua toalha e ao perceber que ele estava quase nu, fechou os olhos rapidamente e virou o rosto para que não pudesse ver mais nada.
- Me desculpe. - Pediu Zyan.
- Tudo bem. Não se preocupe. - Disse Faruk.
- Aqui está a sua toalha. - Disse ele a segurando enquanto Faruk levou suas mãos de encontro com as dele e agarrou lentamente a toalha sentindo seus dedos deslizarem uns aos outros. Ao entregar a toalha, Zyan fechou a porta enquanto Faruk deu um sorriso de canto de boca.
Do lado de fora do banheiro, Zyan tentava conter a sua respiração que começava a ficar um pouco mais ofegante enquanto seu coração palpitava mais forte. Ele conhecia aquele sentimento. Era o mesmo de antes, de quando ele havia chegado muito perto de Faruk só que dessa vez um pouco mais intenso. Do lado de dentro, Faruk entrava em baixo do chuveiro enquanto a água corria pelo seu corpo, do lado de fora, Zyan ouvia o mesclar das gotas que batiam na pele, escorriam pelo corpo e caíam ao chão como se alguém se movimentasse em baixo do cair de uma água.
[PARTE VIII] 15.01.25
[PARTE IX] 20.01.25
[FINAL] 25.01.25
Comentários
Postar um comentário